"Deixou-a cair e aquilo explodiu"

Durante um reconhecimento, encontrou uma granada.

07 de junho de 2015 às 10:00
Foto: D.R.
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Assentei praça a 8 de

março de 1971, no Centro de Instrução de Condução Auto (CICA 4), em Coimbra, dois meses após o casamento. A 8 de maio fui para o Regimento de Infantaria 6, na Senhora da Hora, Porto, deixando de ser condutor, e a 27 de setembro passei para o Regimento de Cavalaria 4, em Santa Margarida, onde tirei a especialidade de atirador. Já como primeiro-cabo, formei batalhão na Companhia de Cavalaria 3509 do Batalhão 3878.

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Quando chegou a hora de ir para África deixei cá mulher e um filho de três meses. Custou muito, e pensei que talvez nunca mais voltasse. Já sabia então a história de alguns que tiveram mortes horríveis.

Fui de avião para Moçambique, e no dia 31 de janeiro de 1972 aterrei na Beira, de onde fui para Porto Amélia (atual Pemba), e a 2 de fevereiro cheguei a Macomia, no distrito de Cabo Delgado, no Norte de Moçambique. Tive a sorte de ser escolhido para quarteleiro da arrecadação de aquartelamento e fardamento, pelo que todos os dias enviava géneros para quem estava no mato.

Já estávamos há 18 meses no quartel quando fomos atacados à morteirada 82 pelos turras. Estávamos a jantar, às seis da tarde de 7 de julho de 1973, e a primeira granada caiu a um metro do refeitório. Podia ter morrido, mas tivemos sorte. Nesse dia não sofremos baixas, nem feridos, conseguindo ainda matar seis elementos do inimigo.

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BAIXAS NO BATALHÃO  

O certo é que em 26 meses de comissão sofremos algumas baixas, e ainda hoje não sei ao certo quantos tombaram. Sei que perdemos um condutor da Mataca, que só estava há oito dias em Moçambique, e outro do Xai-Xai. Sofreram uma emboscada num local onde outro condutor, que era da Sertã, faleceu com oito tiros no peito. Perdi também um colega da Companhia de Comando e Serviços, chamado Sanches, que era do meu pelotão em Santa Margarida, porque eu comecei por pertencer à Companhia 3507 e só depois passei para a Companhia 3509.

Na minha companhia, o condutor Manuel Nascimento Lopes perdeu uma perna, e o condutor Acácio ficou sem uns dedos de um pé. Mas o pior foi quando de uma só vez perdemos o alferes Fortes e o soldado Adriano José de Castro. Durante um reconhecimento, o soldado Castro encontrou uma granada grande do inimigo, pegou-a e chamou o alferes Fortes. Quando ia entregá-la ao alferes, deixou-a cair e aquilo explodiu. O alferes caiu logo morto, enquanto o soldado Castro ainda tentou amparar os intestinos com as mãos, enquanto chamava o outro alferes. "Houve aqui uma desgraça!", foi o que lhe conseguiu dizer, antes de tombar no chão.

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Quando havia falecidos, eu tinha, como primeiro-cabo --quarteleiro, de arranjar caixões. Deram-me um louvor pelo meu trabalho, até porque todos os dias me levantava cedo, às quatro e meia da manhã, para enviar comida a quem estava no mato.    

Oito quilómetros à frente do nosso quartel ficava a serra de Mapé, onde os turras tinham material de guerra nas bases subterrâneas. Por vezes deslocavam-se dezenas de helicópteros para lá, com fuzileiros, comandos e exército, e muitas vezes eu ficava até à uma da manhã a fazer reforço no quartel, enquanto passavam caças com bombas de 50 quilos para largar na serra.

Para terminar, um grande abraço aos companheiros de guerra do Batalhão 3878.

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Comissão: Moçambique,de 1972 a 1974

Força: Companhia de Cavalaria 3509

Atualidade: Aos 64 anos, é casado. Tem um filho, três netos e, recentemente, uma bisneta

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