Dentro das quatro linhas da cidade

A equipa de Braga vai jogar com o Porto a Liga Europa. Há na cidade uma claque com quase 120 mil torcedores

15 de maio de 2011 às 22:00
Dentro das quatro linhas da cidade Foto: Nuno Fernandes Veiga
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"Já estou a imaginar a cidade, vai haver um S. João antecipado com a vitória do Braga. Vão ser dois ou três dias de festa". A euforia do futebol tomou conta da ‘cidade dos arcebispos'. António Costa, com uns ilustres 101 anos, nem admite que na quarta-feira o resultado não corra de feição ao seu coração vermelho-e-branco. Ele é o rosto do apoio dos bracarenses à equipa dos ‘Guerreiros do Minho'.

O ‘Prata Chapeleiro', como é conhecido na cidade, nunca esperou ver o Braga chegar tão longe. "Mas agora gostava de os ver ganhar a Taça", admite. Nas arcadas da avenida Central, no histórico café Vianna - onde António descansa as rugas em minutos de ociosidade - é apenas um dos muitos bracarenses convictos da conquista do troféu. Por estes dias, o feito da equipa arsenalista - o de despachar o ‘Glorioso' de Lisboa com uma bola nas redes e marcar bilhete no avião, para medir forças com o FCP na Dublin Arena -, é tema de conversa quase obrigatório na cidade e não passa em vão nas conversas de ninguém.

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REVOLUÇÃO

Foram precisos 90 anos para o Sporting de Braga chegar a uma final europeia e conquistar em definitivo o coração dos bracarenses. Noventa anos de uma história com altos e baixos, à qual a cidade não passou indiferente. "O clube evoluiu com a cidade, soube crescer e modernizar-se", defende Miguel Pedro Guimarães, de 45 anos, membro dos órgãos sociais do emblema bracarense desde o tempo do liceu. Filho e neto de antigos presidentes do Sporting de Braga, Miguel Pedro Guimarães é presidente da SAD do Braga desde a sua criação e é também fundador, juntamente com Adolfo Luxúria Canibal [ver caixa], dos Mão Morta, a banda bracarense mais conhecida no panorama musical nacional.

Ligado à cultura, principalmente à música, Miguel Pedro diz que Braga teve nos últimos 30 anos uma "tremenda evolução", no que às mentalidades diz respeito. "Apesar de manter características de uma cidade pequena, muito por causa desta concentração de pessoas no núcleo histórico da cidade, Braga tem tudo o que têm as grandes cidades", defende o músico, que é também director municipal.

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Adepto do Braga desde que se lembra, Miguel Pedro vê com agrado o número crescente de adeptos do emblema arsenalista: "Estou convencido de que nos próximos quatro ou cinco anos vamos atingir um patamar de sócios e adeptos fervorosos ao nível dos grandes clubes nacionais, onde o Braga já se insere". Para este crescimento da massa associativa não é indiferente o bom momento que o Braga tem atravessado nos últimos anos, com o ponto alto, para já, na qualificação para a final da Liga Europa. "É um sonho que no início era altamente improvável", admite o dirigente, sublinhando que, por isso, os jogadores são já "uns verdadeiros heróis".

UM GOLO AO BENFICA

No centro da cidade, sentado na barbearia do amigo Jorge Sameiro, com vista para a avenida Central, António Costa não tem memória - e a sua é longa - de uma temporada como esta do Sporting de Braga. António, o ‘Prata Chapeleiro', é o adepto arsenalista que nasceu antes do próprio clube e nunca se arrependeu de não se ter deixado prender pelos ‘grandes'. Tal fé justifica a falta de surpresa quando o Braga venceu ao Benfica. "Eu disse sempre que íamos ganhar por 1-0 ao Benfica. Agora vamos ganhar ao Porto na final e trazer a taça para casa". Convicto, arrisca até um resultado. "Um a zero. Não é preciso mais".

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‘Prata Chapeleiro' tem ainda bem frescos os tempos em que no Braga "não havia sequer dinheiro para salários". O seu filho, agora com 79 anos, chegou a fazer parte do plantel principal: "Saía de casa às escondidas para ir jogar. Nem eu nem a mãe sabíamos que andava no Braga. Queria esconder, porque não ganhava dinheiro nenhum e sabia que a vida não era fácil", conta o idoso.

Da cidade, que viu evoluir "estrondosamente", ficou-lhe sobretudo o tempo mais difícil, aquele em que "nem luz eléctrica havia". "Agora mudou tudo, e para melhor, porque as pessoas deixaram de ter medo de falar, como acontecia antes do 25 de Abril".

Na década de 70, a criação de uma universidade contribuiu, em muito, para um certo desempoeiramento da capital do Minho. "Temos uma população flutuante de 25 mil pessoas; é muita gente nova, são muitas ideias novas", afirma Jorge Sameiro, entre cortes de cabelo e barbas ainda feitas à navalha. O barbeiro, 61 anos, estica conversa sobre o "grande Braga": "Foi preciso chegar à final da Liga Europa para que a comunicação social olhasse para o clube de outra maneira", atira o barbeiro, cortando a eito para se fazer à discussão: "Agora até já se fala do Braga e da cidade".

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O barbeiro, que viu passar na sua casa "muitos presidentes e candidatos a presidentes", fala de um clube "completamente renovado de há meia dúzia de anos para cá". Jorge Sameiro sublinha o facto de "haver cada vez mais adeptos". "Com a juventude, então, tem sido uma coisa impressionante".

O PODER DO BRAGA

Mas nem todos os universitários - que deram "nova vida" à milenar Bracara Augusta - se deixaram contagiar pela onda vermelha-e-branca. "Os bracarenses transformam-se quando o Braga ganha, ficam histéricos e tornam-se pessoas diferentes, para pior", observa Sara Gomes, 22 anos, originária de Felgueiras e a viver em Braga há três anos.

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Finalista do curso de Línguas Adaptadas, na Universidade do Minho, a jovem apaixonou-se pela cidade assim que chegou para estudar. "Sempre me senti atraída por Braga mas, ainda assim, fiquei agradavelmente surpreendida", refere Sara, destacando a rede rodoviária, os serviços públicos e a oferta cultural, como áreas "excelentes" na cidade.

MULHERES E ARSENALISTAS

Paredes-meias com a sé de Braga, onde os sinos marcam o compasso do tempo, fica a casa de Maria da Graça Ribeiro. Está sentada à porta com as vizinhas, de cachecol branco e vermelho ao pescoço. De entre as companheiras, é ela que dá voz à paixão pelo clube da terra. Assim que lhe falam do Sporting de Braga, a ‘Pentena', como é conhecida no bairro onde vive desde que nasceu, há 71 anos, levanta-se para cantar, aprumada na devoção, o hino do seu clube.

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Com a voz rouca pela idade, que por isso pede meças à afinação, entoa com orgulho: "É golo, é golo do Braga, o Braga é campeão e vamos todos gritar, com a bandeira na mão". O riso salta-lhe e sobrepõe-se à cantoria e logo, do outro lado da rua, começam as provocações. "São benfiquistas cheios de azia", atira Maria da Graça, respondendo à voz que a acusa de "não ter vergonha". "Já lá vai o tempo em que as mulheres não podiam ir ao futebol. Sempre fui à bola com o meu marido e depois de ele morrer não deixei de ir", sublinha, orgulhosa. "Aquilo sem mim nem era a mesma coisa; eu sou a campeã das malcriadas!"

Maria da Graça até já tem o fato preparado para festejar a preceito na rua a vitória do seu Braga, sobre o Futebol Clube do Porto. Só não vai a Dublin por razão forte que não compreende até as paixões - tem medo de andar de avião. "Fui a Sevilha de comboio, mas agora para a Irlanda é muito longe e no avião é que eu não me meto".

Já Amélia Morais - a popular ‘D. Amelinha' - nunca perde uma saída dos arsenalistas e não falhava "por nada deste Mundo" a final da Liga por muito longe que fosse. Os 75 anos de ‘Amelinha' não lançam ao desbarato a atenção ao mais ínfimo pormenor da indumentária que vai vestir quando viajar para ver nas quatro linhas da Dublin Arena o clube do seu coração. "Comprei uma bandeira e mandei fazer esta saia. Custou-me 50 euros", sublinha.

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Amélia já encomendou até uma bandeira da Irlanda, a que vai juntar à de Portugal na viagem até à capital irlandesa. "Vou sempre às minhas custas, nunca ninguém pagou nada para eu ir onde quer que fosse", sublinha a adepta - tão ferrenha! - salientando que não perdeu um jogo na caminhada europeia do Sporting de Braga. "Fui a Londres, fui à Ucrânia, fui a Sevilha, já sou uma instituição da UEFA" - brinca - e, desta vez, "já tenho a mala pronta".

Há 50 anos que ‘Amelinha' anda atrás do Sporting Clube de Braga. "Muitas vezes era a única mulher nas bancadas do Estádio 28 de Maio", conta com os olhos carimbados pela emoção, enquanto exibe uma fotografia da final da Taça de Portugal, em 1966 - o jogo que o Sporting de Braga venceu ao Setúbal. "Eu estive lá. Foi maravilhoso!"

Maria da Graça, Amélia Morais, António Costa - três fervorosos adeptos arsenalistas, "do tempo em que o Braga tinha poucos sócios" - dão lustro à satisfação quando dizem, cada um de seu modo, que cada vez há mais jovens a torcerem pelo Braga, também por razão da estratégia de marketing do clube minhoto. O plantel vai às escolas e jardins de infância do distrito e são cada vez mais os mais novos a identificarem-se com o emblema vermelho-e-branco.

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André Silva tem 20 anos. É membro da claque Red Boys há cinco. Nunca teve outro clube senão o Sporting de Braga. A qualificação para a final da Liga Europa, diz, "foi a realização de um sonho". O empenho na claque não lhe tolda a isenção de discernimento. O jovem estudante de Design Gráfico jura que há um notório "espírito de entrega ao clube". "Nós vibramos com cada vitória e sofremos com cada derrota, como se fôssemos parte daquela equipa".

A "falta de dinheiro" vai deixar André em Portugal. Já Carlos Matos, 25 anos, membro da Bracara Legion, conta sentar-se na Dublin Arena, para ver jogar a final em português. Ele tem bilhete. "É um jogo que não poderia perder por nada".

BARROSO, O EX-CAPITÃO

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O emblemático ex-capitão do Braga, Barroso, vai sofrer à distância. O ex-futebolista - que chegou a alinhar pelo Futebol Clube do Porto - acredita na vitória dos bracarenses, apesar do favoritismo estar pintado a azul-e-branco. "Nesta altura tudo é possível. No início da fase de apuramento ninguém acreditava que o Braga chegaria à final e isso aconteceu".

Agora, diz Barroso, que foi capitão, "tudo é diferente" do tempo em que corria à bola pela equipa. "O Braga tem uma boa estrutura, é um clube onde não falta nada. A direcção dá tudo aos profissionais e, por isso, pode exigir resultados. Até no perfil dos adeptos houve grandes mudanças. Há muito mais jovens e mais mulheres nas bancadas do estádio".

MISSA PELA FINAL

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Do cónego Eduardo Melo conta-se que todos os seminaristas da diocese tinham de ser sócios do Sporting Clube de Braga. O cónego Melo - figura importante no pós-25 de Abril de 1974 pela oposição ao Partido Comunista Português - era vigário geral da Arquidiocese. De quinze em quinze dias, para ver jogar em casa o clube, nas bancadas do estádio estavam os seminaristas, por vontade do cónego que também era presidente da Assembleia Geral do clube.

A 5 de Maio último, depois da vitória sobre o ‘Glorioso' ter sido selada pela cabeça de Custódio, um jornal regional escrevia para as gentes da terra: "Estes guerreiros entram, assim, nos anais do futebol português e europeu".

Para que não falte engenho ou este falhe por ausência de fé, os padres do concelho - que tem cerca de uma centena de igrejas - vão rezar quarta-feira de manhã uma prece que ilumine o caminho da bola até ao fundo da baliza. Palavra do pároco da freguesia de Priscos, João Torres.

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"LONGE VAI A ‘CIDADE DOS ARCEBISPOS'" (Paulo Seixas, Sociólogo urbano)

- Entre o conservadorismo e a inovação trazida pelas universidades, Braga é uma cidade distinta das demais?

- É uma cidade que se constrói em volta de algumas contradições. Com mais de 2000 anos de História, é a cidade mais jovem de Portugal. Com uma história muito ligada à religião, é uma cidade do divertimento; é uma cidade do interior com mais importância na região do que as do litoral e, conservando uma imagem de pequena cidade, é uma das mais populosas do País. Braga conservou a lógica e a representação de pequena cidade. Tem um centro pedestre, uma identidade forte de praças e cafés. No entanto, é circundada por vias rápidas e viadutos. Devido ao boom imobiliário dos anos 80, as encostas dos montes de peregrinação são, agora, extensões suburbanas da classe média, que tiveram a universidade como impulsionadora. A reprodução do poder autárquico (com Mesquita Machado a presidir há 35 anos), a economia do imobiliário, a universidade e o futebol (incluindo o estádio de Souto Moura) caracterizam mais Braga do que propriamente as igrejas. Longe vai a ‘cidade dos arcebispos'!

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- E como são as suas gentes?

- O Minho como região já foi um símbolo de Portugal, aliás evidente no ‘galo de Barcelos', no ‘traje de Viana'. O estereótipo do minhoto alegre versus o transmontano sério ainda vai servindo para caracterizar diferenças mas a mobilidade nacional e transnacional tudo muda. Como todas as cidades, Braga tem quatro populações: os habitantes-trabalhadores, os trabalhadores-não habitantes, os consumidores urbanos e os ‘meta-metropolitanos'.

- A universidade gerou a mudança...

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- Foi o ‘gatilho' do desenvolvimento, em 1975/76. Primeiro os professores, alguns deles vindos das ex-colónias, e depois os alunos - muitos ficaram . O pólo de Guimarães, a ligação forte universidade-região e universidade-empresas nas áreas dos novos materiais, por exemplo, assim como o Centro de Nanotecnologia, dão uma relevância para além do desenvolvimento urbano: regional, nacional e internacionalmente.

"FUTEBOL É AGORA O PÓLO AGREGADOR" (Adolfo Luxúria Canibal, Músico)

Da cidade onde fiz a primária lembro-me que era dominada pela Igreja. Existia uma grande diferença social - destacavam-se a velha aristocracia e as novas profissões da classe média, doutores e engenheiros de famílias que se conheciam todas entre si.

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Com o 25 de Abril de 1974, Braga alterou-se. A cidade recebeu os ‘retornados' - com outro modo de estar - e pessoas ligadas à Universidade do Minho, fundada em 1973. A Igreja deixou de ser a única referência. A minha adolescência foi vivida nesse contexto. Braga crescia através de uma política de construção de casas baratas - factor de atracção de pessoas do meio rural. Voltei a Braga.

A cidade, apesar de muito povoada, de ter comércio e serviços, não tem massa crítica. A universidade está no campus de Gualtar; a Igreja perdeu peso. O futebol é o pólo agregador. Mas a cidade é barata, pacata - as virtudes ultrapassam os defeitos. Não imagino outro local onde conseguisse levar cinco minutos entre casa e trabalho, ter uma vivenda e me sobrasse dinheiro para ir a Paris uma ou duas vezes por mês.

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