Deputados vivem como frades
Homens da política e homens de Deus dormem sob o mesmo tecto, numa congregação em Lisboa.
Separados por dois votos diferentes, frades Espiritanos e deputados do PS e PSD vivem sob o mesmo tecto. Sem se cruzarem. Os silenciosos corredores da casa dos Missionários do Espírito Santo – a meio caminho entre a Assembleia da República (AR), em Lisboa, e a residência oficial do primeiro-ministro –, dividem-se por três pisos de quartos. Por trás de cada porta há uma cama individual, guarda-fatos, estante para livros e casa de banho privativa. Ocupam-nos 16 frades e pelo menos quatro deputados do Norte do País – João Figueiredo, Nuno Reis, Paula Cardoso (todos do PSD) e Luísa Salgueiro (do PS).
O pagamento dos parlamentares será em forma de donativo – ainda que, segundo o ‘Manual do Deputado’, quem resida fora dos concelhos de Lisboa, Oeiras, Cascais, Loures, Sintra, Vila Franca de Xira, Almada, Seixal, Barreiro e Amadora receba as ajudas de custo fixadas para os membros do Governo (67,24 euros) por cada dia de presença em plenário, comissões ou outras reuniões convocadas pelo presidente da AR e ainda mais dois dias por semana.
Em 2005, o então deputado do PS Costa Amorim foi dos primeiros a viver neste espaço religioso. "Em Lisboa, eu era verdadeiramente um monge", confessa o advogado, entretanto já afastado da política parlamentar.
"O meu primo – que pertence à congregação – dizia-me: ‘Tu em Lisboa não tens família, amigos, nem emprego. Por que não ficas a viver aqui [nos Missionários do Espírito Santo] connosco?’".
O padre José Manuel, responsável pelos Espiritanos, explica que têm uma "tradição de procuradoria", mantendo quartos à disposição dos monges que estão de passagem. Mas também os ocupam os deputados "que são recomendados por missionários ou são familiares de padres".
Costa Amorim, que à data tinha 50 anos, casado e pai de filhos, dormia em quartos de hotéis. Decidiu aceitar a proposta do primo. "Foi fácil adaptar-me. Eu entrava e saia quando queria. Não incomodava ninguém, tinha as chaves. O meu primo até chegou a convidar-me para tomarmos café porque nunca nos encontrávamos", recorda.
DORMIDA SEM REFEIÇÕES
Ditam as regras que quem não pertence aos Espiritanos faça as refeições na rua. Desde o pequeno-almoço ao jantar. O que agradava ao então deputado de Santa Maria da Feira, "habituado a cavaqueira à mesa".
"Os monges têm regras muito restritas. Procurei não me meter na vida deles – até porque nós às vezes tínhamos que tomar posições sobre matérias polémicas para a Igreja."
Sem televisão no quarto, apenas com internet, Costa Amorim usava-o só para dormir. Pouco desfrutou da janela que tinha com vista para o pátio interior.
"A higiene era óptima. Quando eu me ausentava limpavam-me o quarto, mas não sei quem o fazia. Só as toalhas e os lençóis eram meus e levava-os para lavar em casa todas as semanas."
Já quase no final do mandato, o então deputado João Bernardo, um professor eleito pelo círculo de Aveiro do PS, passou a ocupar outro dos quartos – contactado pela Domingo, não comentou a estada neste instituto religioso.
João Bernardo e Costa Amorim pouco se cruzaram na casa dos Espiritanos, onde ficaram até ao final do mandato. O advogado só não diz quanto pagava pela hospedagem: "Eles não queriam rigorosamente nada. Eu é que me sentia naturalmente na obrigação de contribuir" – admite.
Dos deputados que agora estão alojados neste instituto religioso apenas Paula Cardoso, que chegou aos Espiritanos por intermédio da Igreja em Águeda, confirmou que os deputados entregam donativos. E sobre isso, diz o padre José Manuel que "é normal que façam um contributo para as obras missionárias" que são praticamente todas suportadas por benfeitores.
O padre Tony Neves, porta-voz da congregação, não permitiu a reportagem no interior da casa dos Missionários. Alegou que na comunidade se vive em clausura. "Na prática, todas as pessoas a quem é admitido o acesso estão em clausura, que só tem a ver com o facto de se tratar de um espaço fechado, o que não os impede de conversar."
Depois das 21h30 não se faz barulho. Cultiva-se o silêncio. E actualmente não se faz a separação entre espaços para homens e mulheres. Mas nem sempre foi assim. Esta era uma casa exclusiva para homens.
Só quando precisaram de contratar funcionários para a cozinha e para outras lides domésticas se abriu o espaço a mulheres. Como confirma a recepcionista – com sotaque brasileiro – que ali habita "por ser familiar de um religioso". A congregação, fundada em 1703 em França, funciona em mais de 60 países.
Além dos quartos individuais, a casa tem dois com cama de casal. Explica o padre Tony Neves que "existem a pensar nos familiares casados dos padres". E que podem também ser usados por familiares de deputados. Conta o ex-parlamentar Costa Amorim que nunca recebeu a mulher e os filhos em Lisboa, pelo que nem sabia da existência dos quartos.
Outra das divisões da casa é a garagem, mas que os deputados não estarão a utilizar – a menos que usem a parte gerida por uma empresa privada. E por fim, na capela, onde se realiza uma missa diária, às 19h00, os deputados são livres de rezar, se assim o desejarem. Costa Amorim confessa que nunca lá chegou a rezar. "Sou católico não praticante. Não sou bom exemplo."
DEPUTADO PEREGRINO
O social-democrata João Figueiredo é conhecido nos corredores de São Bento pelo deputado peregrino. Já sabe de cor os caminhos da fé até Santiago de Compostela (Espanha) e de Canas de Santa Maria – onde é presidente de Junta –, concelho de Tondela, até Fátima. Conta o padre da sua freguesia, João Dinis, que toda a família (mulher e filhos) de João Figueiredo "participa na vida religiosa" daquela aldeia.
Apesar de o mesmo padre dizer que o deputado tem família em Lisboa, desconhecia que estivesse a viver com os Espiritanos. No primeiro contacto da Domingo João Figueiredo mostrou-se inteiramente disponível para responder à reportagem. Dias depois, recuou: "Para mim, esse assunto está esquecido."
Já o deputado Nuno Reis, eleito pelo PSD de Braga, foi taxativo na resposta: "É o sítio onde durmo e mais nada. Dá alojamento a familiares da missão", escusando--se a confirmar se ele próprio tem ligações familiares aos Espiritanos. E sobre qualquer pagamento ou doação garantiu: "Não dou absolutamente nada."
Mais ofendida ficou a deputada socialista do Porto Luísa Salgueiro. "É um assunto sobre o qual eu não vou falar. É uma invasão da minha esfera privada."
NOTAS
QUARTOS
Na casa dos Espiritanos não há um valor definido pelos quartos. Admite-se donativos.
COMIDA
Não é permitido comer nos quartos, nem os deputados podem tomar refeições com os Espiritanos.
MISSÃO
Missionários do Espírito Santo dedicam-se ao anúncio do Evangelho entre os mais pobres e desfavorecidos.
DEPUTADOS
A Assembleia da República tem 230 deputados. Nesta legislatura existem seis grupos parlamentares.
1075,84 EUROS
Deputados recebem 1075,84 euros de subsídio de refeição e estada. São 16 dias a 67,24 euros.
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