Domingos Farinho: A caneta permanente de Sócrates
Há 16 anos era o ‘quase primo de portugal’ que foi apanhado em cima de um colchão pelo marido traído. Perdeu o baço, mas escapou às balas para escrever sobre a quase morte num livro de poemas em que assinou Miguel Soares. Pedro Santo-Tirso é o outro pseudónimo deste professor de direito de 39 anos que terá ainda feito carreira como escritor-fantasma do ex-primeiro-ministro.
Desactivou a conta de Facebook. Não queria mais chatices. Continua a twitar, o blogue ‘Vermelho’ não esbranquiçou e a participação no ‘Jugular’ finou--se em Maio passado. É um seguidor e conhecedor da mitologia grega, mas foi em Natal, Brasil, que os deuses lhe deram a mão.
Passavam segundos das 11 da noite de domingo, dia 15 de Outubro do ano 2000, quando foi por um triz que não foi de férias mas definitivas e para o Céu. Os tiros da pistola modelo PT 100, marca Taurus, vinham com a fúria dos traídos, mas não chegara a hora do alegado autor dos livros de Sócrates.
Caio César de Melo saíra do apartamento, nem fazia um minuto, quando teve um pressentimento de que a história de que nada se passava entre a sua amada e o ‘quase primo de Portugal’ não se vestia de verdade. Voltou. Abriu a porta com a sua chave. Encaminhou-se para o quarto e encontrou a namorada e Domingos Miguel Soares Farinho deitados num colchão no chão. Não deviam estar a ler.
O polícia rodoviário atirou quatro ou seis vezes na direcção do jovem. Cego, e dos dois olhos, de ciúmes. A lotaria do então recém- -licenciado em Direito estava na localização do crime: Rua Francisco Maiorana, nº 1766, em Lagoa Nova, por ser muitíssimo perto do Hospital do Coração. Apesar dos 16 anos que distam do caso, a memória de Bruno Henrique Saldanha Farias, o advogado do sujeito que apertou o gatilho, mantém-se fresca: "Domingos Miguel Soares Farinho é uma pessoa inconfiável. Estava hospedado na residência do casal [Caio César de Melo e Lara do Monte] e tanto assediou a Dona Lara, tanto assediou, que ela se rendeu!"
O casal vivia numa casa – num condomínio que pertencia à médica Julieta do Monte, mãe de Lara, casada com um amigo do pai de Domingos Farinho –, e andava zangado: "Entrou em conflito por causa das investidas de Domingos Miguel Farinho." Bruno Farias, que não sofre da gramática, caracteriza Domingos Farinho como "traidor".
Caio César de Melo, que nunca viu o astro-rei aos quadrados, morreu, em 2012, de enfarte. Lara do Monte, ao que se sabe, reformou-se na sequência de um grave acidente de trabalho e não quis colaborar na construção deste perfil. Vivo, e com saúde, graças ao destino, Domingos Miguel Soares Farinho, vindo ao mundo em 28 de Março de 1977, muito embora tenha ficado sem baço, recuperou e não demorou a regressar ao bairro de Benfica, em Lisboa. A prenda que recebera por ter concluído a licenciatura em Direito poderia tê-lo embrulhado num caixão. Escreveu o próprio: "Já amei nas costas do medo/ Na boca da ilusão/ Já morei em prédios sem alma/ Em casas sem caminhos/ Já sangrei perante a morte e não morri/ Sorri." Este poema consta no livro ‘Vertigem’, da sua autoria, muito embora assine Miguel Soares, que viu edição, em 2004, pela editorial Tágide. Dez anos depois, outro livro nascerá da sua pena com o pseudónimo Pedro Santo-Tirso. Apresentado por Nuno Costa Santos, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, ‘Gin, Whisky e outros Espíritos’ – lançado pela Do Lado Esquerdo, uma editora de poesia cujas edições não excedem os 200 exemplares – é construído também de linguagem poética.
A escrita esteve sempre com Domingos, resume um amigo. A sua tese de doutoramento, exclama, "é um calhamaço com umas 1000 páginas!"
Colaborou no ‘Lexpress’, o jornal da Faculdade de Direito de Lisboa, e na revista ‘Inventio’. Assíduo na blogosfera com ou sem o seu nome, e, já formado, funda o blogue sobre cinema ‘Noite Americana’, com o colega de faculdade Luís Filipe Borges, com quem dividiu casa perto do Teatro da Cornucópia, em Lisboa.
Caminho até Sócrates
As balas que entraram no corpo não tocaram no seu humor. Diz-se que Domingos Farinho corresponde- -se até com um médico que o tratou e que lhe incutiu o gosto pela cozinha. Cozinheiro esmerado, pela sua mão Luís Filipe Borges, o anfitrião de ‘A Revolta dos Pastéis de Nata’, conheceu um couscous digno de Marrocos. Aprecia ainda o estudo de narrativas sobre os mitos da Grécia e música celta, cinema, particularmente o de Krzysztof Kieslowski: foi em homenagem a este realizador polaco que chamou ao seu blogue ‘Vermelho’.
É conhecedor de vinhos, apaixonado por Dublin, whiskies raríssimos irlandeses e pelo Sporting. É ainda estudioso com nula proximidade ao epíteto de marrão, alguém de paixões intensas, com charme que, em solteiro, fazia sucesso.
Está-lhe no ADN executar várias tarefas diferentes ao mesmo tempo, o que, alerta um amigo, o dispersa do importante. A sua excentricidade intelectual vem do grupo do Liceu Dom Pedro V, nas Laranjeiras. Outro blogue, com esses antigos colegas, chamava-se ‘Putos’.
Ingressa na Faculdade de Direito em 1995 e tem como colegas um punho de ilustres de diversas dioptrias políticas: João Taborda da Gama, Pedro Lomba, o já referido Luís Filipe Borges, e Miguel Romão, um dos criadores do plano eleitoral do PS de António Costa.
A passadeira para a política é desenrolada, e sem querer, por João Miranda, seu professor em Direito. Os elogios "inteligente e culto, e um dos meus melhores alunos" bastaram para que sugerisse Domingos Farinho para assessor jurídico do gabinete de Rui Pereira, então secretário de Estado da Administração Interna, onde deixou saudáveis recordações. Sociável, cumpria o caderno de encargos, chegando a colaborar em aspectos jurídicos.
Com o pântano de Guterres, o governo vai à vidinha e Domingos Farinho reaparecerá com a subida de José Sócrates ao poder em 2005, fruto podre da desgraça do governo de Santana Lopes. Durante três anos, até 2008, serviu de adjunto de um homem coladíssimo a Sócrates: Filipe Boa Baptista, que, tal como Domingos Farinho, lecionava na Faculdade de Direito de Lisboa, e ascendeu a secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro através da unha com carne socrática Pedro Silva Pereira. Terá sido este vínculo a favorecer a vizinhança entre Domingos e Sócrates. Boa Baptista teve a boa cunha para ir para a ANACOM. José Almeida Ribeiro, que veio em substituição, diz que não faz declarações sobre a prima- -dona deste texto.
Domingos Farinho, filho de Inácio Farinho, ex-funcionário da companhia aérea angolana TAAG, de raiz alentejana, de Pedrógão, terá arrecadado durante oito meses quatro mil euros mensais via um contrato com a RMF – Consulting, empresa de Rui Mão de Ferro, implicado na Operação Marquês e sócio de Carlos Santos Silva. Esse mesmo Rui Mão de Ferro também sustentara o blogue ‘Câmara Corporativa’, cuja existência principal se baseava na engraxadela a Sócrates.
A mulher de Domingos Farinho, a advogada Jane Kirkby, auferiu cerca de 60 mil euros da RMF – Consulting, entre Novembro de 2013 e Outubro de 2014.
Segundo o Ministério Público, este montante terá servido para pagar ao marido pela suposta escrita do segundo livro do ex-primeiro-ministro.
Um amigo socialista articula a seguinte frase: "Não sei se foi o Domingos [Farinho] que escreveu. Mas que não foi o nome que consta na capa do livro, aliás, dos livros, digo-lhe já que não."
O pedido foi procedido por email para que Domingos Farinho fosse mais explícito em relação a "A minha colaboração foi formal". Em vão. Ao Ministério Público, admitiu ter recebido, com a sua mulher, o par de avenças para acolitar o ex-governante na tese de mestrado e de doutoramento, que se afogou nas águas de bacalhau, e da ajuda prestada se ter concentrado na revisão do livro ‘A Confiança no Mundo’ e em notas de rodapé. É "uma vergonha", determina um docente universitário. "O suficiente para a anulação da tese de mestrado." As escutas transcritas pelo Correio da Manhã, que indiciam que Domingos Soares Farinho possa ser o verdadeiro autor, ainda mais coram o professor. "De uma coisa a senhora fique a saber: quem ficou mal servido foi o Domingos Farinho. O outro senhor [José Sócrates] é que ficou bem servido." Na Sorbonne, não ensinam a fazer copy/paste e a contar caracteres. O aluno já deverá vir com esse conhecimento básico.
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