E. M. Melo e Castro: O verso erótico
Escritor faz da poesia visual uma forma de transgressão.
Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro (n. 1932) é um poeta, ensaísta, crítico e artista multimédia português que foi pioneiro na divulgação da poesia concreta, bem como da videopoesia, da infopoesia e da criação de imagens fractais com intuito poético.
Do conjunto da sua obra sobressai a vontade de transgressão, que utiliza como meio o erotismo, a sua linguagem por excelência.
Natural da Covilhã, E. M. Melo e Castro nasceu numa família de proprietários de fábricas de lanifícios, com um bisavô visconde. Estudou Medicina, mas acabou por formar-se em Engenharia Têxtil em Inglaterra. Regressou a Portugal em 1956 e foi professor no ensino técnico.
Em 1960 publicou o primeiro livro de poemas, ‘Entre o Som e o Sul’, e dois anos depois lançou ‘Ideogramas’ (Guimarães Editores), obra emblemática não só da poesia concreta e experimental, mas do próprio vanguardismo literário português, em que a disposição gráfica dos versos compõe imagens que são indissociáveis do conjunto dos poemas.
Após a colaboração nos dois números da revista ‘Poesia Experimental’, organizou exposições, performances e ‘happenings’ onde pôs em prática as suas teorias artísticas. Em 1977 participou na ‘Alternativa Zero’, exposição organizada por Ernesto de Sousa que se tornou uma referência para a arte contemporânea. Sempre transgressor das "normas estabelecidas para a produção de versos", nos anos 80 voltou a ser pioneiro, desta vez na aplicação do vídeo e do computador à poesia.
Do livro ‘Sim... Sim! Poemas Eróticos’, Ed. Vega
"E de repente a língua se liberta
do peso que se teve.
Água corre na água.
o corpo livre
e abrem-se os sentidos
no orgasmo da luz
ver e não ver
ouvir e não ouvir
tocar e não tocar
cheirar e não cheirar
sabor e não sabor
tudo é saber
da mesma forma o peso
do não peso
o dar do receber
a posse do poder
como se de repente
as mãos o peito
os pés as pernas
fossem sexos unidos
ou os sextos sentidos
somados divididos
no momento de vir".
"De redondo cu
eu cúbica te quero
como cólera química
ou paz comum
que nada tão navega
a tua nádega núbica
de redondo nenúfar
nu furioso
no volume do cu
velo o teu lume
ocioso cio de culher
nos colhões que te encosto
pelas costas
no cu que te descubro
pelo olho
no volume que rasgo
pela vela
do duro coração
na cumoção
de ter-te pelas tetas
culocada na posição
decúbita
culada
da cumunicação".
"Dizeres de uma velha senhora
erros certos mau perfume ardor ardente
em minha cona todos se juntaram
os erros e os perfumes tresandaram
que um caralho pra mim não dá somente
foram precisos mil milhões de machos
para dessedentar minha tesura
que se derrete em águas e em lagos
como os não há na bíblica escritura
fodi é certo mas comi do bom
do mau e do pior que dá mais gozo
e do assim assim em qualquer tom
e agora que chega a hora do repouso
não me resigno e quero mais fanfarra
que o osso no osso ainda me dá gozo!"
"mais difícil é falo
que falá-lo
(...) difícil de contê-lo
o melhor é calá-lo
o melhor é fodê-lo"
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