E nós a voar baixinho...
Afinal, contemplar a hipótese Alcochete (em seis meses) talvez tenha sido a forma que Sócrates encontrou para permitir a eleição de António Costa para Lisboa. Sem o ruído da Ota no horizonte e com muito menos turbulência.
Apetecia-me falar do tempo em que era um prazer absoluto viajar de avião. Dava-se tempo ao tempo, algo que hoje se torna quase impossível, porque a esmagadora maioria das pessoas acorda a correr, toma banho a correr, come a correr, trabalha a correr, faz sexo a correr, dorme a correr, tudo numa passada mais ou menos larga consoante a forma física e intelectual de cada indivíduo.
Não esquecerei jamais a viagem para Tóquio que fiz há anos no upper deck da All Nippon Airways, sem congestionamento, suores e outros maus odores, diálogos sem asas para toda a gente ouvir, penas de galinhas, vinho da terra e todo o tipo de artesanato que é preciso transportar na hora da visitinha. Hoje, viajar deixou de ser quase sempre um prazer para se tornar numa necessidade. Quase como apanhar um autocarro ou o metro em hora de ponta. O acto de embarcar também já faz despertar os instintos mais primários, espetam--se os cotovelos onde se deveria colocar a educação, que se tornou talvez um dos bem mais escassos da sociedade portuguesa. A grande diferença é que, na actualidade, eu vou mas não voo.
Na óptica dos utentes, conta a eficácia e qualidade dos serviços. Mesmo considerando a sensibilidade específica do sector das Obras Públicas, pelas enormes verbas que lhe estão afectadas, mexendo com muitos interesses de natureza económica, seja difícil de entender esta histeria colectiva da patronagem política, ao fim de um quarto de século de pequenas ou grandes discussões em torno da localização de um novo aeroporto para substituir o da Portela.
É preciso um charivari tão grande para encontrar um local onde se possa descolar e aterrar em segurança num País tão pequeno? Um estudo feito em 3 meses coloca em causa teses de engenheiros, políticos, geógrafos e ambientalistas que atravessaram anos de governação. Só falta mesmo um referendo para resolver aquilo que os portugueses querem: uma solução segura, que não os sobrecarregue ainda mais com impostos. Afinal, contemplar a hipótese Alcochete (em seis meses) talvez tenha sido a forma que Sócrates encontrou para permitir a eleição de António Costa para Lisboa. Sem Ota no horizonte (sem o ruído da agenda mediática) e com muito menos turbulência.
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