Eles foram notícia

Nasceram num sprint contra o tempo, antes que os primeiros minutos de Janeiro riscassem o relógio. Foram os primeiros novos portugueses de um novo ano. Por vencerem o sprint da vida foram logo notícia.

04 de janeiro de 2009 às 00:00
Eles foram notícia Foto: Vítor Mota
Partilhar

Um trabalho de parto é tudo menos música para os ouvidos. Mas na madrugada de 1 de Janeiro de 1982, a fábrica de bebés do País, a lisboeta MAC, estava longe de saber que assistia ao nascimento, quase sincronizado, de duas futuras estrelas dos palcos. Andreia de Brito Soares, tornada Andrea pelas andanças artísticas entre a girlsband NonStop, e o D’ZRT Angélico Vieira, vieram ao mundo separados por minutos. No intricado desempate, o título de bebé do ano, exibido em manchete no dia seguinte, coube à menina. 'Eu e o Angélico já falámos sobre isto. A minha mãe bem me contara a história de outro bebé. Acho que os médicos estavam todos de volta dele, mas depois começou a sair a minha cabeça e os médicos largaram-no para ajudarem a minha mãe', recorda Andreia, hoje com 27 anos e prestes a subir ao palco do Teatro Tivoli com o musical ‘Fame’.

Filomena Angélico, mãe do rosto mais proeminente do grupo saído dos ‘Morangos com Açúcar’, não se importou com a cedência das honras a Maria de Jesus Soares. Angélico abandonou a barriga da mãe à meia-noite e cinco minutos. 'Tinha vinte anos. Vim de África de propósito só para ter o bebé, logo três dias depois. Achei que a outra mãe precisava mais das prendas, porque eu pensava regressar a África'. Filomena acabou por ficar, no Feijó. E por ver o filho singrar na música.

Pub

As notas e passos de dança também correram no sangue de Andreia. Cresceu numa só linha, entre Massamá e Sintra, onde o pai, Manuel Soares, fadista amador, cumpriu funções de guarda prisional durante sete anos. Tem uma irmã mais velha, de 30 anos, Vânia, assistente de bordo. Aos 19 anos, a grande reviravolta. 'Vi na televisão o casting para as Popstars e ganhei. Éramos cinco NonStop, hoje somos três'. O trio chegou a representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção, em 2006. Fã da fotografia, ciosa do visual, continua a tingir o cabelo de rosa, a principal imagem de marca. Até há um ano trabalhou na discoteca Dock’s. O rótulo de bebé do ano é motivo para conversa. 'É das coisas que mais falo! Os amigos dizem que já nasci estrela'.

A estrela nasceu no dia da última consulta da mãe Maria de Jesus, hoje com 58 anos. 'O médico disse-me que nesse dia ia dar um passeio à maternidade. E lá fui'. Doméstica, residente em Massamá, como então, recorda como armazenou energia no dia do parto para receber as televisões. E as revistas. E mais as rádios. Por ordem médica, a torneira fechou às três da manhã. 'Até era uma publicação internacional. Mas eu já estava cansada!'

Todos os dias da gravidez, a caminho do trabalho, Umbelina segredava a Deus um pedido especial: ser mãe do bebé do ano. Não era capricho. Era urgência de uma madeirense desembarcada no continente 'com a roupa do corpo' e sem um único trapo para vestir o filho. O destino atendeu-lhe a súplica silenciosa, escondida de tudo e de todos, até do marido. Quando o calendário de 89 rebentou as águas e se precipitou para a década de 90, precisamente à meia-noite em ponto, deu à luz o pequeno Daniel. 'Era tudo o que mais queria. Não trazíamos malas da Madeira, viemos a 1 de Dezembro de 88 na incerteza, à procura de uma vida melhor', diz Umbelina, hoje com 49 anos.

Pub

A insular não estava só na hercúlea proeza. Na mesma Maternidade Alfredo da Costa, com igual diligência e pontualidade, Maria de Fátima terminava o trabalho de parto do seu Ruben. Em 1990 houve festa a dobrar. Não um, mas dois bebés do ano foram notícia nos jornais. Quando as crianças nasceram, num sincronismo pouco usual, nasceu com elas uma amizade que viria a unir as famílias Almeida, da Póvoa de Santo Adrião, e Correia, da Costa de Caparica. O vínculo mantém-se até hoje. 'Foi um bebé programado, mas o bebé do ano era uma coisa que eu nem sabia que existia!', recorda Maria de Fátima.

O filho Ruben, louro e de olhos azuis, desafia as alturas com o seu metro e noventa. Revelou dotes no basquetebol, mas a grande queda vai para a música. Candidato a rapper, já tem nome de guerra na esfera dos artistas: Fun Kid. 'Estou a tirar um curso em produção musical e estou a trabalhar em part- -time como delegado comercial na Clix. Agora vou lançar alguns projectos. Espero continuar ligado à música.'

Daniel, de caracóis morenos e olhos verdes, quis ser veterinário mas rendeu-se à cultura oriental. O ano passado começou a estudar japonês. E saiu-se bem. 'Tive nota máxima no exame'. Fã de viagens, participa em projectos de intercâmbio. Sonha ser guia-intérprete e não descarta uma ida para a Madeira. 'Orgulho-me muito do título. Os meus amigos dizem que o único aniversário que não esquecem é o meu.'

Pub

Para os Almeida, a rotina não deu grandes piruetas em quase duas décadas. José, de 48 anos, vive ao sabor dos turnos numa empresa de segurança. Para Fátima, com 45 anos, o balcão continua a fazer parte do dia-a-dia. Em duas décadas só mudou o recheio da loja. 'Sempre fiz pronto-a-vestir, agora estou no ramo da ourivesaria'.

Umbelina arriscou a segunda gravidez, mesmo que o crescimento do clã tenha pesado na carteira. 'O poder de compra piorou, mas para toda a gente. Com o Gonçalo já foi mais difícil'. Apesar de tudo, a vida estabilizou, amparando o risco. Durante anos, ela serviu na copa, ele serviu à mesa. Há pouco mais de uma década, a sorte sorriu-lhe de uma universidade. 'Estou na biblioteca da Faculdade de Ciência e Tecnologia do Monte de Caparica'. Artur, de 47 anos, estreou-se numa empresa de canalizações como distribuidor. A passagem de ano trouxe festa a dobrar para os filhos. E longe dos pais. Porque eles de bebés já não têm nada.

Não foi esperado. 'Antes pelo contrário', garante Frederico Carvalho, 35 anos. Mas à última badalada de 99, quando o fogo-de-artifício pintou os céus de Lisboa, Francisco chorou pela primeira vez. No Hospital de S. Francisco Xavier, depois de muita ginástica em doze horas de trabalho de parto de Sandra Martinho, nascia, com 3,810 kg, o bebé mais desejado e também o mais receoso do anunciado bug: o do milénio. 'Falava-se muito das duas coisas, mas nós só queríamos estar longe disso. Quando a enfermeira estava a puxar o bebé e reparou nas horas, riu-se. Foi mesmo à meia-noite! Foi um momento mágico', lembra o pai, então estudante de psicologia, tal como a companheira. 'Estava destinado a dia 25 de Dezembro, mas nasceu pontualmente à meia-noite. Foram muitas horas seguidinhas mas foi recompensador. Ganhou um álbum de fotografias muito original, com recortes de jornais', acrescenta a mãe.

Pub

Após a chegada de Francisco, a família trocou S. João do Estoril por Mafra. Frederico dedicou-se à consultoria e recursos humanos. Há dois anos o casal deixou de o ser. Sandra permaneceu na terra do Convento. Teve mais dois filhos, Alexandre e Rodrigo, com apenas dois meses. Administrativa numa empresa de design e publicidade, está a gozar licença de maternidade. Frederico é director de formação e qualificação no Instituto de Medicina Tradicional, em Lisboa.

Francisco, que frequenta a terceira classe, é adepto de todas as âncoras incontornáveis do século XXI português: 'futebol, inglês, PlayStation, ‘Morangos com Açúcar’ e ‘Rebelde Way’'. O futuro é uma incógnita, mas há preferências. Futebolista, polícia, tropa, 'ou bombeiro, como o meu tio Cláudio!' A perspicácia, que de infantil não tem nada, rectifica a façanha. 'Não fui o bebé do ano. Fui o primeiro português do milénio.'

Na Guiné natal, Cani, 34 anos, deixou três filhos com a mãe e veio para Portugal 'procurar vida'. À quarta tentativa a barriga dilatou com mais um rapaz lá dentro. William Pedro nasceu há um ano, depois de renhido sprint nos hospitais. O título de bebé do ano demorou a chegar. Dois dias depois do nascimento, o bebé juntava-se a Leandro Vicente, nascido na MAC, como os céleres de 2008. 'No hospital do Barreiro, quando estava a fazer a cesariana, disseram-me logo para ligar para a televisão porque era o bebé do ano. Nasceu à meia-noite em ponto. Já tinha 42 semanas. Depois lá me ligaram', esclarece a doméstica, fixada na Baixa da Banheira.

Pub

Cani Baldé e o angolano Manuel Pedro Domingues, 38 anos, estão juntos há seis anos. A história de William é ainda pequena. Quase se conta pela mesma medida do seu corpo: 75 cm. ‘Pai’ foi o primeiro termo a pular na língua. 'Não há coisa melhor que isto. É uma sensação incrível', confessa Manuel, empregado na construção civil e marinheiro de primeira viagem ao país da paternidade. Apesar das 'dificuldades', o casal tem fé no futuro. E no pequeno. 'Vai ser inteligente!' Por enquanto, William diverte-se a abrir gavetas. E de repetir uma palavra que talvez prenuncie o futuro: ‘golo’.

1982

Cinco minutos apenas separam os nascimentos de Andreia Soares e Angélico Vieira. A 1 de Janeiro de 82, a Maternidade Alfredo da Costa viu nascer duas estrelas. Oficialmente, Maria de Jesus (na foto), mãe da cantora do trio feminino NonStop, foi mais rápida. Filomena, mãe do músico que se celebrizou com os D’ZRT e que se estreou a solo este ano, optou por registar o fi-lho com a data de 31 de Dezembro de 1981.

Pub

1990 

A dupla Ruben e Daniel (ao lado com 4 anos) já não se cruza todas as férias, nem comemora o aniversário como no tempo dos cueiros, quando o primeiro se empoleirava em armários e o segundo era perito em marcas de automóveis. Mas a amizade continua a juntar as famílias Correia e Almeida. Já lá vão 19 anos.

2000

Pub

Nunca a corrida ao título de bebé do ano foi tão grande como na aguardada transição de 1999 para o ano 2000. Muitos pais portugueses tentaram a sorte, em vão. Por ironia do destino, Sandra Martinho e Frederico Carvalho, que só queriam distância da data, por receio do anunciado ‘bug’, acabaram por entrar na História como os pais do milénio. Francisco, nascido pontualmente à última badalada do século XX no Hospital de São Francisco Xavier, completou nove anos. O pai revela que 'já usa o título com as namoradas!'

2008

William Pedro, filho da guineense Cani Baldé, só foi notícia dois dias depois do seu nascimento no Hospital do Barreiro. Reposta a justiça nos resultados, juntou-se a Leandro Vicente, nascido à mesma hora na Maternidade Alfredo da Costa, como bebés do ano de 2008. Ambos receberam um seguro de vida até aos 21 anos no valor de 50 mil euros.

Pub

2009

À meia-noite, Raquel e Oureana nasceram na MAC. Ana veio ao Mundo na Maternidade Júlio Dinis, no Porto

TRÊS DÉCADAS DE HISTÓRIA EM PORTUGAL E NO MUNDO

Pub

Em Janeiro de 1982, Rosa Mota vence a S.Silvestre em S. Paulo. O Renault 9 é eleito carro do ano. O mau tempo avaria 57 mil telefones no País. E o Presidente Ramalho Eanes alerta que a questão económica será o problema crucial desse ano. Há coisas que não mudaram assim tanto desde os tempos do VHS, do aparecimento do Multibanco, do reinado de Michael Jackson ou da queda do Muro de Berlim. No arranque de 1990, década em que os telemóveis encolhem, a ovelha Dolly é clonada e surge a PlayStation, fala-se em crise do cimento em Portugal e de privatizações e reformas na bolsa. Os maillots são vedeta na moda. Amália actuara no Hotel Altis. Soares acredita no salto do desenvolvimento. Linda de Suza reconquista o público francês. O telefax faz furor entre os americanos. Maradona paga 600 contos por faltar a um treino. À 14.ª jornada do campeonato, um ponto separa o líder Benfica do rival Sporting. A primeira década do século XXI é marcada pela Guerra do Afeganistão e Guerra do Iraque. Pela presidência de Bush filho. Pelo ataque ao World Trade Center. Timor-Leste conquista a independência. A Europa adopta o euro como moeda comum. A globalização da informação atinge um nível sem precedentes. A Apple lança o iPod e o iPhone. A geração YouTube ouve Beyoncé, 50 Cent, Tokio Hotel. Madonna mantém-se imbatível. É despenalizado o aborto em Portugal. Obama é eleito o primeiro presidente negro da história dos EUA. A crise financeira é a pior desde 1929.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar