Em Portugal fazem-se muitas cirurgias na clandestinidade total

O chapéu com sapos coloridos deixa-nos, numa primeira abordagem, com o pé atrás. Está a léguas de ser o protótipo do senhor doutor. Mas meia dúzia de palavras depois, percebe-se que o tal chapéu mais não é do que aquilo que se pretende que seja transmitido aos outros: uma vida em permanente arco-íris.

25 de junho de 2006 às 00:00
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Ângelo Rebelo nasceu e viveu toda a vida em Lisboa. O gosto pelo corte e costura aguçou-se na Faculdade de Medicina de Lisboa. Desde então, a sua vida tornou-se numa corrida contra o tempo. Percorreu o mundo por iniciativa própria com a obsessão de enriquecer profissionalmente a cada dia. A resposta não tardou a fazer-se ouvir. Gradualmente começou a integrar as mais variadas sociedades médicas e a ser convidado para tudo o que fosse congressos e palestras a decorrer nos quatro cantos do planeta. Ângelo Rebelo vive para a profissão. Não admira que, aos 53 anos, já conte com três “casamentos oficiais”. A culpa, diz, é da paixão que tem naquilo que faz há vinte anos: ser cirurgião plástico.

Que diferenças encontra entre os portugueses do antigamente e os portugueses da actualidade em relação à visão que têm da cirurgia estética?

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A mentalidade está muito mais aberta. Há mais informação e o facto de as técnicas terem evoluído tem ajudado muito a essa mudança de mentalidade. Às vezes dou por mim a olhar para as operações que fiz no passado e fico espantado como foi possível ter feito aquelas atrocidades.

Entrava na sala de operações, ficava lá dez doze horas e na mesma paciente fazia pálpebras, lifting, mamas, lipo. Com anestesia geral fazia-se tudo. Hoje em dia isto é impensável.

Já não opera as pessoas dos pés à cabeça num só dia?

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Se essa doente entrasse hoje na minha clínica fazia-lhe três, quatro, cinco cirurgias diferentes, mas em tempos diferentes, com anestesias locais, sendo que no dia a seguir ela estaria a fazer a sua vida normal. Há menos agressividade, os riscos são menores. Cheguei a fazer cirurgias estéticas em que os doentes tiveram de levar transfusões de sangue. Isso hoje não existe. A cirurgia estética hoje não pode ser vista como uma cirurgia que vai ser penalizante para a pessoa.

Quais são as cirurgias que ainda obrigam a internamento?

Das minhas, nenhuma. No mesmo dia em que os doentes chegam à clínica para fazer a cirurgia, saem para regressar a casa passado uma ou duas horas. E no dia seguinte podem fazer quase tudo, as limitações são muito poucas.

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Há também cada vez mais homens a renderem-se à cirurgia estética?

As mulheres continuam a ser a grande maioria, mas o número de homens nos últimos anos tem sido muito significativo, assim como a faixa etária, mais jovem.

Essa nova faixa que recorre à cirurgia estética procura o quê?

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Sentir-se melhor.

Sim, mas vêm atrás de protótipos de beleza?

Há muitas que sim, mas também há os casos de jovens que têm tantas mamas como eu e que não precisam que venham as modas para se sentirem mal com o que têm. Isso traz-lhes problemas de socialização, amor, todas essas coisas que parecendo que não altera-lhes a vida toda.

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Mas a moda tem uma grande influência naquilo que se faz ?

As coisas têm sem dúvida alguma mediatização, no caso das mamas terá mais influência no tamanho que hoje se coloca. Há quinze anos colocávamos próteses de determinado tamanho, hoje põe-se quase o dobro.

Como é que costuma proceder no caso das jovens serem menores?

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Os pais assinam uma autorização. Aliás, toda as pessoas que fazem uma cirurgia assinam um termo de responsabilidade.

Qual o pico do ano em termos de cirurgia estética?

Primavera. Embora esse pico já tenha sido maior. Aqui há uns anos, quando chegávamos a Junho, começavam-se a travar as cirurgias. Agora já não, fazemos o ano todo, isto porque as cirurgias são menos limitativas.

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A colocação de próteses mamárias é a cirurgia mais procurada pelas mulheres portuguesas?

A seguir às lipos que é o mais procurado, não só em Portugal como em todo o mundo.

Reconhece que há muitos portugueses a recorrer aos cirurgiões brasileiros?

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Sim, mas porquê?

Porque mesmo com a viagem a cirurgia sai-lhes menos dispendiosa do que em Portugal.

Pois, mas o barato sai caro. E já tenho tido muitos exemplos de pessoas que vão lá e depois vêm aqui pedir-me socorro. No Brasil há mais de cinco mil cirurgiões plásticos e têm mais não sei quantos mil que fazem cirurgia estética mas não são cirurgiões plásticos, depois há mais não sei quantos que não são médicos, não são nada, mas fazem tudo. O que é bom no Brasil é mais caro do que aqui. O que é barato tanto pode correr bem como pode correr mal.

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A cirurgia estética ainda se mantém envolta em tabus?

A maior parte das pessoas que vem à consulta escondem das famílias, dos maridos, dos pais, depois toda essa rede que anda à volta deste mundo não ajuda. As pessoas fazem as coisas mal e depois não têm coragem para dar a cara e dizer que foram mal sucedidas. E há muitos colegas que não remedeiam os erros dos outros.

E o Doutor remedeia?

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Rejo-me por princípios éticos e médicos. Antes de qualquer coisa sou um ser humano e sou médico. A minha missão é ajudar os outros. Mas gostaria de chamar a atenção para o facto de em Portugal também se fazerem cirurgias na clandestinidade total, não é preciso ir tão longe!

Já teve complicações?

Claro, todos nós temos. Mas a aferição do cirurgião em termos de qualidade é feita pela percentagem de complicações que este teve. Se um cirurgião faz cem mamas e tem cinquenta complicações, então o melhor é fazer outra coisa porque está no sítio errado.

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Já recusou fazer determinadas cirurgias?

Ainda hoje. Há pessoas que vêm aqui pedir-me para lhes tirar gordura na barriga mas depois não têm nada para tirar. Costumo recusar também pessoas que vêm com determinadas expectativas que nada têm de ver com a realidade.

Os portugueses têm muito o hábito de trazer o recorte da revista com o desejo de ficar igual a determinada figura pública?

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Raras vezes. Na minha opinião pessoal, quando uma pessoa faz isso denota uma certa fragilidade e um certo desvio. A cirurgia está muito interligada com o interior da pessoa. Trata-se o corpo, mas o espírito também tem de ser tratado. Se não houver esse equilíbrio não vale a pena estar a fazer retoques.

Os seus doentes têm acompanhamento psicológico?

É raro. Esta cirurgia mexe muito com as pessoas. É impressionante apercebermo-nos da forma como as pessoas chegam aqui e como ficam depois de fazerem a cirurgia. Por isso acho que não faz sentido sentar as pessoas no divã para lhes falar de teoria.

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O que está na moda em termos de cirurgia estética?

É precisamente aquilo que nos é mais pedido: lipos e implantes mamários.

E o botox, veio para ficar?

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É o mais feito em todo mundo, passa à frente das lipos, dos implantes, mas atenção que não é uma cirurgia. Apareceu há já alguns anos, mas o futuro da estética é sem dúvida na linha do botox, melhorar o aspecto das pessoas sem que para isso sejam necessários cortes.

No Brasil está muito na moda o enchimento e levantamento de glúteos. Nós acompanhamos essa tendência?

Em Portugal, a maioria das mulheres não gosta de ter rabo grande, querem é pô-los mais pequenos, enquanto no Brasil se alimenta a cultura da bunda. As portuguesas não querem aumentar o rabo, querem antes levantá-lo.

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Já falámos das mulheres portuguesas, então e os homens, o que é que eles mais procuram?

Querem sobretudo tirar gorduras e já há muitos a usar botox. Depois, temos duas faixas etárias, as dos homens mais novos, que se preocupam com o nariz, as orelhas, e os mais velhos, que se preocupam com os papos nos olhos.

O macho latino já faz parte do passado?

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Ainda há alguns resistentes.O que acontece é que a imagem desses homens a cheirar a suor nos dias de hoje tornou-se inaceitável. Na verdade nenhuma mulher pode gostar disso. Já não somos homens das cavernas.

Por vezes abrimos revistas e olhamos para o peito desta e da outra, enfim, percebe-se perfeitamente que têm silicone. Os peitos são todos iguais. Não corremos o risco de qualquer dia sermos fotocópias uns dos outros.

Uma das coisas que defendo é fazer as coisas com naturalidade, nunca fazer cirurgias estigmatizadas, é uma coisa que abomino. Mas é verdade que com tanta coisa que há por aí corremos esse risco.

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Para ficarmos mais bonitos ainda temos que desembolsar muitas notas?

Já foi mais caro.

Mas as clínicas facilitam os pagamentos ou é preciso pedir um empréstimo ao banco?

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Cada cirurgião tem a sua forma de proceder. Mas deixe-me dizer que estas novas técnicas, como não exigem tantas horas de trabalho nem internamento, tornam as cirurgias muito mais baratas.

QUESTIONÁRIO DE DOMINGO

Um País... Maldivas

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Uma pessoa... Charlize Theron

Um livro... ‘O Monge que vendeu o seu Ferrari’

Uma música... Tantric love

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Um lema... Paz

Um clube... Benfica

Um prato... Indiano ou japonês

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Um filme... ‘De-lovely’

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