Em busca da próxima salvação
Livro mostra como Portugal sobrevive às crises.
Acontece mais ou menos de 200 em 200 anos, quase com a precisão da passagem de alguns cometas: Portugal atravessa fases em que a sua própria existência é posta em causa, cabendo à sua gente decidir se vale a pena continuar. Em vez de apresentar uma solução para a "crise bastante difícil" que vivemos, Luciano Amaral preferiu identificar, em ‘Rica Vida’ (D. Quixote), dez momentos de prosperidade e de crise na História de Portugal, terminando com os caminhos impostos pelo euro, um dos quais é uma integração orçamental europeia que seria o fim do País, "pelo menos como o conhecemos hoje".
O historiador, professor universitário e colunista do ‘CM’, de 49 anos, garante que, "apesar de não parecer", o seu livro é "relativamente otimista". Nem que seja só em última instância: "Apesar de tudo, este projeto nacional sobreviveu muito tempo e não podemos dizer que Portugal seja um país atrasado. Tem conseguido vingar, desde há quase mil anos."
No primeiro capítulo, a que deu o título ‘Faroeste’, apresenta Portugal como "uma terra de oportunidades" nos séculos XII e XIII, comparável à colonização do Oeste americano no século XIX. Mas quando a conquista do Algarve aos mouros termina, em 1249, já se vive a primeira crise, que "terá talvez sido a primeira em que os portugueses foram apanhados a ‘viver acima das possibilidades’, como agora se diz".
Ultrapassado o período de 1383-1385, em que os portugueses viraram costas à "integração europeia" com o reino de Castela – ao contrário de 1580, quando abraçaram o império de Filipe II –, a solução foi sempre ultramarina, com momentos de prosperidade e esbanjamento, a que o autor de ‘Rica Vida’ chama "sultanato de Lisboa". Assim foi graças ao comércio da pimenta, nos séculos XV e XVI, e também no século XVIII, quando Minas Gerais ganhou o nome. "Antes do ouro do Brasil nada fazia prever este golpe de sorte que alimentou a capacidade de sobrevivermos", diz à ‘Domingo’
Embora deixe como interrogação se a Restauração de 1640 foi o início de um "morrer sim, mas devagar", comparável à frase que D. Sebastião terá dito nos últimos minutos de vida, durante a batalha de Alcácer-Quibir, o historiador não aceita como verdade absoluta que Portugal seja estruturalmente inviável. "Não tem razão para ser. O Luxemburgo é um país viável, e à partida ninguém o diria. Lá encontrou uma solução, que é ser um paraíso fiscal e bancário, e nós teremos de encontrar a nossa."
PARA O GRANDE PÚBLICO
Afastada está a hipótese de refazer Portugal noutras coordenadas geográficas, concretizada no início do século XIX, quando o rei estava no Brasil e o devastado território continental era dominado pelos ingleses, depois de serem derrotadas as tropas francesas. Nem a atual dependência em relação a Bruxelas e Berlim, e a entrada de "capitais tropicais e asiáticos" na economia nacional permitem que se repita a fase de "dupla colónia", na opinião do historiador, sem deixar de reconhecer que "há sempre a ideia de que Portugal não chega e que o mundo lusófono ou a Europa são uma alternativa".
Luciano Amaral descreve, ao longo de 240 páginas, um país cujas elites são substituídas com regularidade, o que "impede a fossilização social", mas tende a se implicar a entrega de privilégios e monopólios pelo Estado, que "correspondem a um elemento predatório para o resto da sociedade".
Ao longo de mais de um ano de trabalho, desde que aceitou o convite do editor Duarte Bárbara para escrever "um livro para o grande público com episódios interessantes da História Económica", Luciano Amaral fez uma intensa pesquisa. "Uso ideias que pretendem ser atrativas para um público não especialista, mas são quase todas retiradas de historiadores reputados. O cozinhado das ideias e a orientação da narrativa são meus", diz o autor de ‘Rica Vida’, em cujas páginas D. Afonso Henriques é comparado a um chefe de gang e D. João IV parece um Spínola sem monóculo.
Moral da história deste retrato de um país que voltou a precisar de ajuda externa? "Já estivemos em situações desesperadas e encontrámos solução. Mas não será fácil."
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