ENCONTRO À VARANDA

No 1º de Maio de 1974, três amigas foram apanhadas à varanda numa fotografia que correu mundo – e nunca mais se viram. Trinta anos depois a Domingo Magazine juntou Rosinha, Aurora e Jeninha, na casa onde viveram os dias mais felizes das suas vidas.

13 de junho de 2004 às 00:00
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No dia 1 de Maio de 1974, Rosinha, Aurora e Jeninha estavam à varanda de um primeiro andar na Almirante Reis, em Lisboa. Dali viram passar a manifestação que começou na Alameda Afonso Henriques e acabou no Estádio 1º de Maio. Lá em baixo, na rua, um fotógrafo francês captou a juventude das raparigas com a sua câmara. A fotografia de Michel Giniès correu mundo. Passados 30 anos, na edição de 25 de Abril, nós publicámos a imagem acompanhada de um pergunta: “Conhece alguma destas mulheres?”

Vários dias depois, tocou o telefone: “Eu sou uma das raparigas da varanda”, disseram do outro lado, numa voz trémula. Era Maria Aurora Castanheira Pinto, agora com 61 anos. Ficara a saber da publicação da fotografia através de uma colega de trabalho na Segurança Social de Viseu – que, espantada, a reconheceu na página 28 da revista, quase 30 anos mais nova.

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Uma semana depois, outra das ‘raparigas’ da varanda, Maria Rosa Pita apresenta-se ao telefone. Maria Aurora tinha desencantado o telefone da amiga a avisá-la que era procurada. Faltava a terceira moradora daquele primeiro andar, mas havia uma pista. Diziam as antigas amigas que Maria Efigénia Assunção Esteves era irmã da deputada social-democrata Assunção Esteves.

Estavam encontradas as três. Foi marcado um encontro para uma manhã de sábado, 30 anos depois, na mesma casa. Na véspera, elas reuniram-se a sós. Com uma malinha de roupa, Aurora apanhara no dia anterior o autocarro desde Viseu para Lisboa – ia passar a noite em casa de Rosa, a amiga que há tanto tempo não via. Maria Efigénia, a Jeninha, fizera o percurso para a capital desde o Sul, da cidade de Olhão onde vive. O reencontro cresceu na noite de sexta-feira em casa de Rosa, até às 3h00 da madrugada.

O DIA DA FOTOGRAFIA

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No sábado, Aurora está na varanda onde tinha sido apanhada pela máquina de Giniès. A mulher de cabelos brancos tem ainda o mesmo sorriso, a mesma luz nos olhos – embora os cabelos tenham embranquecido e as rugas testemunhem o passar dos anos. Dentro da casa, estão Rosa, 53 anos, e Jeninha, 51. É fácil reconhecer a primeira, ainda mantém o cabelo curto, empoado, a mesma figura nobre. Jeninha, a mais moderna das três, perdeu o ar de gaiata, mas mantém o mesmo jeito no rosto quando se ri.

O trio já passou revista à casa. Aurora comoveu-se ao encontrar o rádio com coluna forrada a pano que animava os serões. E lembrou-se de ser a menina que adormecia embalada no PBX de Carlos Cruz, e de ouvir estremunhada a notícia das inundações e do tremor de terra.

No ano de 1974, em que Mohamed Ali desfez o campeão George Foreman e Fitipaldi conduziu o seu vitorioso McLaren, a crise abateu-se em todo o mundo por causa do aumento do preço do petróleo. Nesse mesmo ano, em que um punhado de militares conspirou contra o regime português, elas viviam na casa de dona Olinda “os dias mais felizes” das suas vidas, ao som de ‘Waterloo’ dos ABBA. Os mesmos suecos que no palco da Eurovisão ouviram a senha de Abril, 'E Depois do Adeus', cantada por Paulo de Carvalho.

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O MELHOR ANO

Em 1968, Maria Aurora estava a dar aulas em Aveiro. Em Lisboa, uma irmã adoeceu na pensão onde estava hospedada e ela pega nas malas para ajudá-la na cura. Vêm ambas parar àquele primeiro andar da Almirante Reis, entre o Areeiro e a Alameda, através de um anúncio nos jornais. Aurora arranja emprego no edifício da Segurança Social, junto ao Instituto Superior Técnico. É de lá que observa “os polícias e os cães com dentes de fora” a carregar sobre os estudantes e se indigna – como ainda hoje, enquanto imita com gestos a fúria policial. Maria Aurora permanece naquela casa até 1982, mesmo depois da irmã dela sair para se casar.

Em 1972, chegou Maria Efigénia Andrade Esteves, a Jeninha, para fazer Direito na Universidade de Lisboa. Ali ficou até 1977. No dia do reencontro com as amigas perdidas foi descobrir na casa vazia os seus apontamentos da faculdade e daquele colega mais velho que foi depois seu marido. Emocionada, diz que “Dona Olinda guardava tudo”. Nos papéis amarelecidos pelo tempo nota-se a sua letra certinha, a condizer com a aluna estudiosa que foi.

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Maria Rosa Pita concorreu à Caixa Geral de Depósitos na Rua do Ouro, em Agosto de 1973. Da aldeia da Luceirinha, em Leiria, a mais velha de oito irmãos, ganhou relativa independência – veio para casa da tia Olinda que em Lisboa hospedava meninas. Mas a liberdade metia-lhe medo, a cidade grande também. Quem a vê no retrato de Giniès, altiva e bonita com o cravo à lapela, não descobre a romântica insegura da juventude.

De quem mais se lembram, o nome que mais repetem durante o encontro, é o da tia Olinda – que já não lá está para lhes abrir a porta de casa, morreu há dez anos, o filho João é que ficou com a chave. Lembram-na como a “mãe, a amiga e a confidente” que as mimava à noite “com um cházinho, areias, pão-de-ló e bolo de coco”.

No reencontro, estas três Marias descobriram que envelheceram longe umas das outras mas que partilham um bem precioso – as memórias daquele ano, o melhor das suas vidas. E combinaram as férias deste ano.

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CONVERSAS DO REENCONTRO

MULHERES E HOMENS

Jeninha – "Posso estar a ser ingénua, mas não acho que hoje em dia as mulheres sejam subalternizadas em função dos homens. Não sinto que possa ser ultrapassada em termos laborais só por ser do sexo feminino."

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Aurora – "Não é bem assim, Jeninha. Até pode ser que isso aconteça de Coimbra para baixo, sobretudo com mulheres formadas. Mas lá em cima, as coisas são completamente diferentes. Contrata-se um homem para cavar e paga-se-lhe 10/12 contos por dia, se for mulher paga-se seis. E só estamos a falar da cultura do sacho! "

Pontos de vista

Jeninha – "O interessante é que naquela época falávamos muito à noite, aqui em casa, com a dona Olinda e o João (filho), do que estava mal mas não dávamos nomes às coisas. Não havia ideologias mas já se percebia, para onde pendia cada uma de nós. Ninguém dizia eu sou comunista ou social-democrata. Tratava-se de visões pessoais do mundo. Eu quando defendia os meus pontos de vista era sempre contestada."

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Aurora – "Pois eras!"

Namoros

Aurora - "Lembro-me de falar à minha mãe de namoro e ela corar."

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Jeninha – "Essas coisas não se falavam com as mães, mas com as amigas. A abertura que hoje se tem com os filhos é completamente diferente. Aquela coisa do respeitinho criava distância."

Rosa – "Está tudo tão diferente! Para ir de férias com o Abel, casei-me porque doutra forma não podia. Vê lá se isto tem cabimento para os jovens de hoje."

ROSINHA, A ROMÂNTICA

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A menina de Luceirinha, uma aldeia no concelho de Leiria, chegou em 1973 romântica e assustada à casa da tia Olinda, em Lisboa, para trabalhar na Baixa, na Caixa Geral de Depósitos.

Apesar da liberdade conquistada, Rosinha sentia-se perdida na capital. E a primeira pessoa que viu duas vezes, foi um homem - julgou ser o da sua vida. O seu Abel apareceu-lhe no metropolitano para a “ensinar e acompanhar” na cidade grande. Casou com ele um ano depois.

Lembra-se do “rio de gente” que viu da varanda no primeiro de Maio de 1974 e diz que foram esses os tempos mais felizes da sua existência.

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No espaço de pouco mais de um ano ouviu dizer que “o povo é quem mais ordena”, casou com o homem que amava para poder fazer a sua primeira viagem a dois pelo país e teve o seu único filho. Logo ela que queria ter doze.

O filho, o José Miguel, formou-se em Gestão, tirou um mestrado nos Estados Unidos e vive em Barcelona e é, e continuará a ser, o menino de ouro de Rosinha, mesmo à distância.

Ela ainda hoje atravessa o Rossio para ir trabalhar à Rua do Ouro, na Caixa Geral de Depósitos, onde fez carreira.

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Se a alegria pudesse encher potes de ouro, Aurora tinha o seu a transbordar. Nunca a vida a acabrunhou. Foi a primeira das três a chegar, em 1968, à casa de D. Olinda. Nasceu em São Paio do Mondego, Penacova, parecida com o pai, homem festeiro que gostava de um bom baile. Ela foi sempre assim: onde estava arranjava maneira de fazer a festa. Tirou o magistério primário mas exerceu pouco tempo numa aldeia de Aveiro, para vir tratar da irmã a Lisboa e arranjar emprego na capital, onde ficou até 1982. Casou e rumou a Viseu, terra diferente onde à chegada lhe estranharam logo a alegria; chamaram-na de retornada.

Vida tão diferente da que tinha tido em Lisboa, ainda menina solteira. Lembra-se de então sentar-se na escadaria do Instituto Superior Técnico, com um grupo de alentejanos a cantar a música que fala de um passarinho, de ir de comboio para a praia com um grupo de uma vintena de pessoas, das horas no café do Império e das matinés do cinema. E de ver um concerto do Fernando Lopes Graça, em que apareceu Zeca Afonso. Está a um ano de se reformar da Segurança Social e faz contas de pelo menos, poder voltar a aproveitar em Lisboa as sessões de cinema. Nunca teve filhos.

JENINHA DOS DISCURSOS

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Nasceu em Água Revés, uma aldeia próxima de Valpaços, a rapariga que na casa de Dona Olinda dominava a polémica. À noite quando se reuniam na cozinha, enquanto as outras se sentavam à mesa, ela dizia das suas em pé, sobre o que se tinha passado na Faculdade de Direito de Lisboa. Cumpridora dos seus deveres escolares, não conseguia deixar de sentir uma “pontinha de dor” quando via Aurora, com quem partilhava o quarto, vestir o seu melhor vestido para ir passear.

Lembra-se como se fosse hoje do medo que sentia quando via os “gorilas” entrarem na faculdade. Não que fosse alguma coisa com ela, que só se interessava pela matéria leccionada. Mas vivia oprimida e revoltada, ciente de que quando “Durão Barroso e companhia discursavam, havia a seguir cassetetes no ar”. Concluiu o curso em 1977. E quando casou nesse ano, deixou o quarto às irmãs Assunção Esteves, hoje deputada pelo PSD, e Madalena, cardiologista.

A vida foi boa para Jeninha. Casou com o seu único namorado Armindo Leitão, ex-colega de faculdade e hoje desembargador, teve um filho que concluiu a direito o curso de Economia. Hoje é conservadora do registo predial de Olhão.

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