Espectador sado-maso
Em ‘Detenção Secreta’ (Gavin Hood, 2007), já em DVD, um engenheiro americano nascido no Egipto, com uma educação de elites, é subitamente considerado uma ameaça nacional.
O filme baseia-se em casos como o de Maher Arare e outros suspeitos de terrorismo que, por qualquer motivo ou sem motivo algum, são levados para países e submetidos a interrogatórios-tortura (para que se possa dizer, como se escuta num dos diálogos, que os EUA não torturam). Trata-se da orwellianamente designada polícia de 'rendição extraordinária'. Que pratica actos tenebrosos em nome da chamada 'guerra contra o terror'.
O filme não branqueia o radicalismo islâmico. Também não é neutro. O único indício incriminatório são telefonemas feitos para o telemóvel do torturado (que podem ser um simples engano). Nada no seu cadastro e nada no detector de mentiras. Mas, como alguém relembra, a informação do polígrafo é desconsiderada sempre que se passa no teste... Nesta longa metragem, que muitos teriam que apelidar de antiamericana, a mulher norte-americana do suspeito esforça-se por saber do seu paradeiro. A família tem recursos. Mas se o governo o esconde, como pode ela encontrá--lo? (aliás, se for assim com pessoas com meios, como será sem eles?) E como pode o suspeito nu, espancado e fechado num buraco, provar a sua inocência?
‘Detenção Secreta’ aborda a crise moral estadunidense, onde se perderam desde princípios democráticos à confiança nas leis, e interpela a responsabilidade pessoal de cada um. O analista da CIA, que participa nesse interrogatório, duvida da sua missão. Já o espectador confronta-se com o facto dessas torturas poderem estar a acontecer nesse exacto momento. E é levado a pensar se, entre afogamentos e choques eléctricos, um terrorista não confessaria muito mais dificilmente do que um não-terrorista. Mas quem assiste ao filme não deveria questionar-se ainda mais?
Em ‘Regarding the Pain of Others’, de 2005, (‘Olhando o Sofrimento dos Outros’, na tradução portuguesa), Susan Sontag considera que a cultura de espectadores neutraliza a força moral das imagens de atrocidade, que ao cinema de entretenimento tem rendido milhões. Imagens que tanto podem provocar como estupidificar, vivendo na tensão entre testemunhar a violência e ser recreado por ela. ‘Detenção Secreta’, que mostra mais cenas de tortura do que as consentidas pela Convenção de Genebra, lá vai distraindo o espectador. Mas desassossega-o?
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