Estar vivo é uma espécie de milagre

A memória ainda o atraiçoa, mas ele não lhe dá descanso: três meses depois de ter sido operado a um aneurisma, já prepara a estreia de uma nova peça.

12 de junho de 2005 às 00:00
Estar vivo é uma espécie de milagre Foto: Sérgio Lemos
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Acusou alguns meios de comunicação social de terem tentado fazer um ‘dramalhão’ à volta da sua doença. Mas a operação a um aneurisma não parece ser brincadeira nenhuma…

Tenho a impressão que ainda não tirei as conclusões todas desta doença. Até agora, não passou de uma pequena interrupção na minha vida. E provavelmente, este é o ponto de vista errado. Desde que saí do hospital, levo uma vida menos agitada mas daqui a uns meses, provavelmente, volto ao mesmo ritmo frenético.

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Reconhece que ainda não tirou as devidas conclusões, no entanto, descobriu da forma mais vio- lenta que a vida é frágil…

Isso já eu sabia, e agora nunca mais me esqueço. Não sou crente, mas tenho de reconhecer que o facto de estar vivo é uma espécie de milagre. Mais de 30 por cento das pessoas que sofrem um aneurisma morrem logo -os outros, podem ou não recuperar. Bastava ter encontrado um cirurgião que espirrasse no momento em que não devia…

Ou podia ter tossido…. antes da operação, o cirurgião alertou a sua mulher, Cláudia Belchior, para a gravidade da situação, tendo-lhe dito que “se ele tossir, morre”.

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Não me lembro de nada do que se passou no hospital. Só recordo que me senti mal durante a representação da peça ‘Laranja Azul’, em Setúbal, e comecei a ouvir a voz do meu colega, que não estava a mais de cinco metros, como se estivesse bem longe. Depois disso, já toda a gente sabe o que aconteceu…

Andou de hospital em hospital e acabou nos cuidados intensivos do Egas Moniz, em Lisboa. Hoje, sente-se completamente recuperado?

Fiquei com a memória avariada. A minha mulher é que sofre mais porque sou capaz de lhe fazer uma pergunta, obter uma resposta, e cinco minutos depois voltar a colocar-lhe a mesma questão. Ainda estamos assim… segundo a psicóloga que me está a acompanhar, no Egas Moniz, pode ser efeito dos comprimidos que me deram.

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Quando a notícia da operação se espalhou, houve quem o tentasse visitar no hospital fazendo-se passar por amigo ou familiar próximo. Teve conhecimento dessas situações?

Soube que muitas pessoas se preocuparam com o meu estado de saúde. Recebi mails que nunca mais acabavam... o público tratou-me com muito carinho. Recentemente, fui passar um fim-de-semana ao Algarve e houve um senhor que mal me reconheceu, começou logo a dizer: “Ainda bem que o vejo. Andei muito preocupado consigo. Isso já está bom?” Não levei a mal, porque só estava a tentar ser simpático. Entretanto, quando olhou para a minha cicatriz na testa, só me perguntou: “E isso foi feito por um profissional?” Fiquei sem saber o que lhe dizer… como se amadores fizessem estas coisas.

Por ter dado vida a várias personagens cómicas, acontece-lhe com frequência entrar em algum sítio e ver que as pessoas se começam logo a rir?

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Tenho o privilégio de ter os empregados a sorrirem para mim – algo que já começa a ser raro. Quando estou chateado é mais complicado. Ponho um ar sério, mas mesmo assim as pessoas não conseguem disfarçar o sorriso. É por isso que eu costumo dizer que é trágico ser cómico…

O que o levou a especializar na comédia?

Diria que foi um acidente de percurso. Vi que era eficaz nesta área, e com o passar dos anos descobri que as pessoas optavam mais por peças divertidas do que por dramas. Pode dizer-se que me especializei nesta área, mas esse rótulo preocupa-me. A última vez que fiz uma peça mais séria, a ‘Laranja Azul’, sofri um aneurisma.

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Viu isso como um sinal?

Por acaso, não sou nada supersticioso. Daí a dificuldade em analisar isto.

Queixava-se muito da vida que tinha?

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Nunca me senti saturado de trabalhar, mesmo quando andava num virote com a ‘Conversa da Treta’. E quando não tinha nada para fazer, andava sempre de um lado para o outro, a visitar os amigos. Quando morava em Lisboa, por exemplo, chegava a fazer 100 quilómetros por dia.

Já se cansou do ‘Zézé’, da Conversa da Treta?

Hei-de fazer a ‘Conversa da Treta’ até aos 80 anos. Nessa altura, os espectáculos não ultrapassam a meia hora… porque eu e o António [Feio] já não teremos forças para mais. A verdade é que com a ‘Conversa da Treta’ conseguimos uma boa fórmula. São dois ‘portugas’ que podem falar de tudo, e só dizem disparates porque não sabem nada. Além disso, gostamos de andar com o espectáculo pelo país todo. E fora de Lisboa as pessoas têm outra forma, até mais calorosa, de receber os actores – e isso é muito gratificante. Vamos para os espectáculos cheios de vontade de divertir o público.

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Os portugueses são um alvo fácil? Voltam a ser o tema do seu próximo espectáculo, agendado para Setembro…

Sinto a obrigação de pôr o dedo em algumas feridas. Por exemplo, uma carta de Lisboa para Cascais pode levar dois dias. Para chegar lá num dia, só por Correio Azul. Ou seja, temos de pagar mais para eles fazerem o trabalho como deve ser. Essa é apenas uma das situações que vou abordar no meu próximo espectáculo. Outro caso, são as compras. Quando se procura uma coisa que toda a gente quer, a resposta que me dão nas lojas é inacreditável: “Não temos. Vende-se muito…” Não deviam aproveitar para encomendar mais? Há muitas coisas chatas que atrapalham a nossa vida.

Era este o espectáculo que estava a preparar antes de ser hospitalizado. Deu-lhe especial gozo voltar a pegar no guião, e começar os ensaios?

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E fui logo escolher um projecto fácil… o espectáculo deve-se ficar pela hora e meia, na última peça que participei, que durava pouco mais de duas horas, tinha um terço desse tempo. Em Setembro, vou estar sozinho no palco. Não há ninguém em cena a quem mandar um olhar de aflição.

Mas não é a primeira vez que pisa um palco sozinho. No ‘último a Rir’, com texto de Luísa Costa Gomes, desdobrava-se em 15 personagens.

E um mês antes da estreia comecei a entrar em pânico. Não sabia se as pessoas iam gostar do meu trabalho, e neste momento também não sei qual vai ser a reacção do público…

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O que lhe diz a voz da experiência?

Que me posso espalhar ao comprido a qualquer momento. Quando pensar que tenho o público na mão, estou morto como actor. Mal comecei os ensaios desta peça, voltei a sentir pânico, porque quanto mais as pessoas gostam de me ver num espectáculo, mais responsabilidade tenho no próximo. Vejo-me na obrigação de as surpreender. Além disso, na comédia, a reacção do público é imediata. Se o público não se ri, ou enganei-me na piada ou não a estou a fazer como deve ser. Só há duas interpretações.

Durante o tempo que permaneceu no Egas Moniz, soube-se que o seu estado de espírito permanecia inalterado. “Só fala em voltar a trabalhar”, revelava Paulo Dias, o director da UAU. Não consegue estar parado…

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Assim que me senti melhor, já só falava em regressar ao trabalho mas o médico desiludiu-me logo. Disse-me para “ter juízo” e mandou-me para casa. Como o meu objectivo era terminar a tournée da peça ‘Laranja Azul’ e seguir directamente para o Teatro Villaret – queria perceber a importância do factor ‘sala de espectáculos’ na afluência do público - não podia ter ficado mais chateado com o ‘timming’ do aneurisma. A verdade é que fico aflito quando não sei o que vou fazer nos próximos seis meses. Com esta peça, vou estar a trabalhar até ao final do ano. Depois, eu e o António [Feio] vamos voltar à ‘Conversa da Treta’, e para breve está previsto o ‘Filme da Treta’.

O que tem de tão especial a dupla José Pedro Gomes/António Feio? Todas as peças que fazem juntos, desde ‘A Conversa da Treta’, ao ‘O que diz Molero’ passando pelo ‘Arte’, foram êxitos de bilheteiras…

Preocupamo-nos em chegar ao público. Nos anos 80, tanto eu como o António [Feio] e o Miguel [Guilherme], fizemos parte de vários grupos de teatro mas víamos que as salas de espectáculos estavam às moscas. Como as pessoas que costumavam ir ao teatro não morreram de repente, quisemos descobrir o que se passou. Depois de culparmos o público, talvez fosse estúpido ou não tinha cultura, chegámos à conclusão que andávamos a fazer peças que não interessavam a ninguém. Ainda hoje, tenho alguma dificuldade em perceber como é que as pessoas vão ao teatro… têm de estar muito motivadas. O mais fácil é ficar em casa e acender a televisão.

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Como é que se conheceram?

Já não me lembro se conheci o António [Feio] no ‘Clubíssimo’ ou durante umas dobragens da ‘Rua Sésamo’, que ele dirigia. Sei que nos intervalos e às horas de almoço, conversávamos sobre a nossa vida. Nessa altura, o António tinha uma peça que gostava muito de fazer, chamava-se ‘O Verdadeiro Oeste’ e convidou-me a mim e ao Virgílio Castelo. Estreámos o espectáculo na recém-inaugurada sala da Junta de Freguesia de Benfica. Passados uns anos, tive a ideia de fazer a ‘Conversa da Treta’, o cúmulo da simplicidade – duas cadeiras, um cinzeiro e dois maços de tabaco. Com essa estrutura, podíamos percorrer o país todo.

Que palcos gostava ainda de pisar?

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Muitos… por exemplo, nunca pisei o S. Luís nem o Teatro Maria Matos. Fora de Lisboa, em pequenas localidades, já há boas salas de espectáculos. Uma vez, fui com o António [Feio] para Paredes de Coura fazer a ‘Conversa da Treta’. Com a típica postura lisboeta – que o resto do país é paisagem – julgámos que íamos estrear a peça no quartel dos bombeiros. Quando lá chegámos, ficámos de queixo caído com o centro cultural de Paredes de Coura. Dessa vez correu bem, mas já fizemos espectáculos em sítios inacreditáveis. Por exemplo, representámos num centro paroquial onde à entrada se dava um chouriço a cada espectador.

Ainda se lembra da peça em que se estreou?

Não me recordo bem porque ainda estava no liceu quando comecei a fazer teatro amador. Da primeira peça, já como profissional, lembro-me perfeitamente. Chamava-se ‘Histórias’. Como tinha que usar umas calças muito justas, estava apavorado com a hipótese do público reparar nas minhas pernas a tremer.

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Pensou em ser outra coisa que não actor?

Nunca tomei nenhuma medida para me tornar actor profissional – diria até que foi um acaso. Tudo isto começou porque tive um professor de português que falava de Gil Vicente em paralelo com Brecht. Expunha a matéria com tal entusiasmo que eu e alguns colegas fomos para a Biblioteca Nacional ler tudo o que havia sobre os dois autores. Depois, lembro-me que um desses amigos me incentivou a participar na peça ‘Auto da Barca do Motor Fora de Borda’, de Sttau Monteiro, produzida por um grupo de teatro universitário.

Chegou a ter um emprego das 9h às 17h?

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Quando regressei de França, depois do 25 de Abril, vi-me obrigado a deixar o teatro de lado. Como não tinha uma sólida formação académica, trabalhei em fábricas. Apesar de ser uma actividade dura, até era um bom empregado. Só quando chegava a casa é que percebia que não era feliz.

Gaba-se de dizer sempre o que lhe vem à cabeça. Esse ‘mau feitio’, como às vezes lhe chamam, já o prejudicou?

Já percebi há muito que se eu fosse cínico, ou dissesse as coisas em tom de brincadeira, não me levavam a mal. O problema é que não consigo ser assim, nem quero. Infelizmente, a maior parte das pessoas só nos ouve quando damos dois murros na mesa.

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