Estas vidas de nadador salvador
Durante o Verão alertam para as bandeiras, socorrem picadas e desmaios. Procuram crianças perdidas. Resgatam pessoas do mar. São jovens mas a praia conta com eles. Para muitos, é a oportunidade de ganhar algum dinheiro.
A experiência aconselhou um truque no que toca à indumentária de trabalho na praia, que Júlia Neves põe recorrentemente em prática para arredar olhares indiscretos nos dias de maior confusão na areia. A artimanha não está relacionada com o manuseio da prancha de salvamento ou da bóia-torpedo. Antes com a roupa com que se sente melhor. Ao fim-de-semana, quando no Tamariz não se distingue toalhas de pessoas, a nadadora salvadora troca a saia laranja do uniforme pelos calções com a mesma cor 'para passar mais despercebida'.
Se servir para não ouvir tantas vezes a retórica ‘se eu me afogar vais salvar-me?’ já valeu a pena ter pendurado o traje que evidencia as curvas que anos de natação de alta competição ajudaram a moldar. É difícil a Júlia, rosto de menina mas convicções de mulher feita, passar despercebida. Ou impor o respeito que as funções que o Verão lhe confere exigem. 'Há muita gente que, por eu ser rapariga, não liga. Houve um senhor, já com alguma idade, que eu avisei três vezes para sair da água porque estava em perigo. Não me ouviu e depois tive que ir buscá-lo quando estava quase a afogar-se.'
A experiência desvendou-lhe outra atitude a tomar: 'É preciso fazer voz grossa para as pessoas respeitarem.' O mesmo serve para não ficar à espera que as bocas agradeçam à alma que as tirou da água. 'Chegamos a terra e nem um obrigado. Querem é pegar nas coisinhas e fugir o mais rápido possível', confirma João Madaleno, o namorado, também nadador salvador que já a tinha alertado para os embaraços do quotidiano da praia. Foi na areia que o neto de pescadores e a estudante de Desporto se conheceram, há três anos, num dos Verões em que Júlia abalou de Braga para passar férias com os avós. O amor fincou pé na areia e guiou-a para a capital, para junto do namorado. Uma deslocação que exige sacrifícios diários de poupança. 'Os meus pais não têm posses, por isso tenho de trabalhar para pagar a faculdade. Sou como a formiguinha, trabalho no Verão para poupar no Inverno.' Não sabemos se foi a maturidade de Júlia que desatou a paixão ou se foi o gosto comum pela praia que os juntou. Madaleno socorre-se das raízes junto ao mar para explicar a ligação ao território querido.
'Sou nadador salvador desde os 18 anos, mas antes disso, quando era vigia, já tirava malta de dentro de água e o nadador salvador tinha ido à casa de banho.' Hoje, com 30, acumula a carta de patrão local com a formação do ISN para motas de água. As experiências encavalitam-se no currículo vasto que, embora tenha alegrias de sobra, não afogou as tristezas. 'Uma das piores experiências foi encontrar um corpo já morto a boiar dentro de água durante uma patrulha na Caparica. Outra foi no Tamariz, quando no fim de um dia de trabalho, ao levantar um chapéu de sol, encontrei uma senhora morta com o frasco de veneno ao lado: tinha-se suicidado.' No mesmo ano salvou uma do mar e de destino idêntico. Licenciado na área da Comunicação, socorre-se de 'trabalhos esporádicos' durante o Inverno para equilibrar as finanças.
PIROPOS HÁ MUITOS
A praia de Mafalda Costa, 19 anos, é outra, a da Rainha, em Cascais, mas o gosto pelo mar e pela areia é semelhante. As unhas vermelhas ajudam a compor o figurino e mesmo que à primeira vista contrastem com o uniforme desportivo que a função exige, percebe-se que não lhe são estranhas. Isso e o meneio constante do cabelo loiro que lhe passa os ombros e desperta as atenções da ala masculina que se bronzeia na praia que vigia. 'Oiço muitos piropos mas tento não ligar. O mais comum é ‘ai agora já me posso afogar que estás aqui para me salvar’. Tal como aconteceu com Júlia e Madaleno, foi na praia que a estudante do 11º ano conheceu o namorado, também nadador salvador, e assim se vê que a areia é território de boas recordações. A única má experiência foi filha única e o silêncio deixa entender que não pretende resgatar o passado para a areia. 'Foi uma coisa muito triste que não gosto de lembrar, mas já passou, e este ano tem corrido tudo bem.'
Com Bruno Pereira, de cada vez que corre tudo bem, a conta do telefone não só se sente como se ressente. 'Quando faço um salvamento vou para casa todo orgulhoso contar à minha namorada e também telefono sempre para os meus pais, para Amarante', conta o rapaz que se estreou nestas lides em piscinas mas chegou à capital em busca da 'adrenalina' das praias, na companhia da namorada, socióloga, que arranjou emprego em Lisboa. Começou por trabalhar numa loja, ambiente 'demasiado fechado'. Marcou-o o caso 'de um rapaz que teve uma congestão' que o estreou na respiração boca-a-boca. E até já se habituou aos telefonemas constantes da mãe a perguntar se está tudo bem. Bruno só não entende o valor que não dão aos salvadores das praias. 'É raro ouvirmos um obrigado quando tiramos alguém da água e, além disso, ouvimos as pessoas a dizer ‘olha, lá vão aqueles que só têm mania’, acham que andamos aqui a dormir à sombra, o que não corresponde de todo à verdade.' João Ginete, colega de toldo e de praia, confirma que aos banhistas 'falta, não só o respeito pelos nadadores salvadores, como também o respeito pelo mar'. O gozo diário de que são alvo é fardo que se acostumou a carregar junto com a bóia-torpedo. 'Quando estamos dentro de água muita gente ri-se e dizem ‘lá vai o Mitch Buchanon’ [personagem da série ‘Marés Vivas’]'. O segredo é nadar ao largo de comentários como este.
Aos 20 anos, o estudante de Engenharia Aeronáutica, não pretende fazer vida da praia. 'Este trabalho serve apenas para ajudar a pagar a faculdade e para as minhas coisas, até porque é difícil fazer vida disto.' É por estas e por outras que no Inverno surgem os maiores desafios para quem vive da praia. Quando acaba a época balnear na praia da Rocha da Palha, Armação de Pêra, Miguel Bárbora, nadador salvador há 13 anos, agarra-se à actividade de barman e ‘flair bartender’ (barman de cocktails). 'Temos que saber trabalhar noutras áreas para nos safarmos porque a actividade na praia é sazonal.' Ele, que já várias vezes saltou para a água para resgatar turistas traídos pelo vento Norte, que se afastaram de mais da costa ou crianças enroladas na ondulação. Fora de água, marcou-o uma tentativa de salvamento de um idoso que teve um ataque cardíaco. 'Tentei fazer reanimação de todas as maneiras mas sem sucesso.'
Filipa Palma também trabalha no Sul do País. Estuda Direito, é dançarina de cabaré e no Verão é uma das nadadoras atentas aos perigos das praias algarvias. Aos 22 anos é na praia do Ancão, um dos areais frequentados pelos clientes do empreendimento de luxo de Vale de Lobo, que passeia os dias. E até não gosta muito de praia, mas quis 'aprender a salvar pessoas', como um dia também quis aprender 'a dançar de forma sensual'. Tornou-se dançarina de uma companhia de dança de Londres, depois de um workshop. Pelo meio estuda Direito em Lisboa e ainda não decidiu se quer ser advogada ou juíza. É nadadora desde pequena e garante que está ao nível de qualquer colega rapaz se for necessário atirar-se à água. 'As nadadoras que conheço são muito competentes e quase todas estão ligadas à natação desde pequenas.' A mesma garantia dá Mónica Nunes, 25 anos, que controla a praia do Inatel, em Albufeira. 'Temos as mesmas, ou mais, capacidades do que os homens.' Mónica nunca teve nenhuma experiência de salvamento com gravidade. Depois de despir o fato de banho, ajuda os pais no restaurante da família. No Inverno divide-se entre as promoções de produtos e o desporto.
Quando o calor se ausenta da Caparica, Pedro continua dentro de água, habitat natural para um filho da Costa e que, tão tenro começou, nem consegue precisar a idade com que se aventurou no surf. É professor de natação e hidroginástica de crianças, idosos e deficientes. Trabalha com todos e a todos respeita, posição que na praia de S. João também conquistou em 13 anos como nadador salvador. E o cabelo descolorado até pode chamar a atenção das meninas nas toalhas, mas ele garante não ligar aos piropos que possam surgir daqui e dali.
'No primeiro ano disto ainda podemos ligar, porque vimos com aquela ideia ‘Baywatch’ e pode haver alguma menina mais atrevida do parque de campismo que diga que os nossos olhos são bonitos, mas depois deixa de ser importante, a minha preocupação é só o plano da água.' O primeiro salvamento ficou-lhe tão impregnado na pele como o cheiro do mar: 'Fui para a água todo vestido, nem para tirar o boné tive reacção, e o senhor que tirei da água era surdo-mudo.' Desfeito o equívoco de achar que o senhor tinha falta de ar e por isso falava por gestos, sobra tempo para recordar uma situação que o levou para casa em lágrimas em 1999.
'Uma senhora afogou-se numa praia não vigiada junto à minha e não cheguei a tempo de a salvar, foi tarde de mais quando a filha me avisou. Nessa altura, achei que não prestava, mas depois percebi que se Deus existe eu não consigo ser Deus por muito que queira.' A responsabilidade é companheira diária debaixo do sol da Caparica e é também por isso que lhe dói o 'pequeno' salário que não facilita a árdua tarefa de 'gerir uma casa e uma família' de três filhos, entre os 2 e os 8 anos. Mas há coisas que têm mais força do que o mar. E uma delas é o amor à camisola.
O SOTAQUE BRASILEIRO DE S. PEDRO DO ESTORIL
As regras saem-lhe na ponta da língua. Não nadar a mais de 200 metros, não poluir a praia, não deixar crianças sozinhas, ter atenção às bandeiras. Esta é mesmo a praia de Fauzi, natural de Porto Seguro, na Baía, apaixonado pelos areais portugueses desde que aqui aterrou, em 2002. À noite, quando sai de S. Pedro do Estoril, depois de um dia a 'fazer o importante trabalho de prevenção na praia', corre para o restaurante japonês onde é gerente. Só lamenta que a remuneração não esteja à altura da responsabilidade exigida aos nadadores salvadores. 'Devíamos poder ser profissionais, quer pela função importante que temos, muitas vezes a de salvar vidas, quer pelas dez horas de sol a que estamos expostos todo o dia'.
A NETA DO PESCADOR DA COSTA
Rita, 20 anos, cresceu a ouvir o avô, pescador, contar os salvamentos que fazia no mar revolto da Caparica. E a ver a série ‘Marés Vivas’. Quando foi estudar Engenharia Alimentar para o Algarve, há dois anos, juntou o útil – 'ganhar dinheiro para os excessos' – ao agradável – 'a paixão pelo mar' e tirou o curso de nadador salvador. Trabalhou no Sul do País no Verão passado mas este ano é na praia de S. João, na Caparica, que a encontramos. Ouve piropos 'mas é mais olhares do género: ‘uma rapariga aqui? Se eu me afogar será que me consegue salvar?’'
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