Eu é que sou o chef de cozinha
Têm outras profissões. A Gastronomia é só a paixão que os leva a procurar saber sempre mais
O advogado Magalhães e Silva apaixonou-se pela culinária no Outono de 2004. Não foi o tempo que o influenciou, mas sim um olhar diferente no passeio de sempre: entrou na livraria perto do escritório e, pela primeira vez, deteve-se num livro de receitas: ‘4 estações na Casa da Comida’. Comprou-o. Quis fazer o caril de frango. Só que a receita não tinha caril! Mas sim cardamomo, sementes de coentros, cravinho, canela e outros condimentos que só o baralharam. Telefonou a Jorge Vale, autor do livro e dono da Casa da Comida, que lhe indicou uma mercearia indiana na rua Maria Andrade – travessa da Almirante Reis, Lisboa – para comprar os ingredientes. O prato foi um sucesso.
"Em Janeiro de 2005, regressava de Xangai [China], com o dr. [Jorge] Sampaio, numa viagem oficial a Macau e à China, quando Maria José Ritta propôs que fizéssemos um curso de cozinha com o Vítor Sobral", recorda Magalhães e Silva. O chef Sobral preparou um curso para o então Presidente da República e os seus dez amigos (todos homens) com o objectivo de mostrar o potencial dos nossos produtos. Magalhães e Silva, que chegou a ir de propósito jantar a Barcelona (Espanha) ao El Bulli, do chef Ferran Adrià, convenceu-se de que era capaz de cozinhar. Fez "15, 20, ou 30" cursos com o chef Sobral, com quem aprendeu "90 por cento da técnica". E comprou, até hoje, mais de 300 livros de cozinha.
"Porque razão faço tão bem risoto?" – pergunta o advogado. "Aprendi a técnica só de ver o [chef italiano] Luigi Caputo durante uma hora e meia."
COZINHA DESDE OS 9 ANOS
Clara de Sousa, pivô do telejornal da SIC, admite que a "curiosidade" foi a sua principal escola: filha de uma cozinheira, aos nove anos já preparava refeições. Começava às 19h00, e à hora do telejornal todos se sentavam para jantar. Estreou-se com bacalhau cozido com couves, ovo e batatas. Com o tempo aperfeiçoou a técnica. E começou a receber elogios: teria uns 12 anos. Mas hoje não é diferente. Quando quer surpreender os colegas da redacção, envia um e-mail a dizer "Na banca da ti Clara hoje há…"
A cozinha é mais do que prazer, é uma partilha. O seu livro ‘A Minha Cozinha’ tem receitas mas também dicas, todas elas testadas com amigos à volta de uma mesa. E se aos poucos a cozinha portuguesa foi perdendo segredos, aumentava a curiosidade com a cozinha estrangeira. A jornalista fez um curso de culinária italiana com a chef Cristina Cecchini Saulini e, há cerca de dez anos, um curso intensivo de sushi com o "mestre" Paulo Morais. "São ambos referências profissionais e pessoas cinco estrelas", elogia.
Nas mãos de Paulo Morais – ele e a companheira e chef Anna Lins já abriram dois restaurantes em Lisboa, o último deles o Umai Chiado –, dois jovens formaram-se e mudaram de vida: Rodrigo Gregório, 33 anos, arquitecto paisagista, e Artur Pinho, 28, engenheiro civil. Hoje são sushiman no Umai (depois do curso de 12 semanas e dois meses de estágio). Artur era já engenheiro com quatro anos de experiência, em Braga, quando foi confrontado: só teria trabalho no Kosovo. "Eu achei que era uma oportunidade", conta. Recusou o convite e rumou a Lisboa para ser sushiman.
Rodrigo já tinha o seu próprio ateliê de arquitectura quando a crise bateu à porta. Nunca tinha entrado numa cozinha profissional. Não era sequer apaixonado por cozinha, mas tinha um gosto especial – confessa. "Ainda estou em processo de descoberta", diz o sushiman.
Houve quem se espantasse ao ver o publicitário João Wengorovius na cozinha do prestigiado restaurante Eleven, em Lisboa, durante uma semana. Espantaram-se por desconhecerem que João mudou. O ex-presidente e CEO da BBDO afastou-se, depois de dez anos, para dar uma volta à vida. Tirou um ano sabático. Viajou para Paris e dedicou-se a um curso com o chef Alain Ducasse, no seu Centro de Formação. "Já estava em contacto com eles há uns anos. Até que surgiu a oportunidade, em Outubro de 2011, de fazer um curso intensivo – dois meses iniciais e mais uma semana por mês até ao mês passado", revela João Wengorovius.
"O meu objectivo era aprender e não o de decidir o que faria com isto depois." Tanto que o publicitário não esqueceu a sua carreira de 23 anos. O mais provável é que se dedique às duas actividades no futuro. Até porque a cozinha é uma paixão alimentada em casa, desde sempre. Agora reconhece que "há uma grande diferença entre ser interessado e o lado profissional".
O advogado Nuno Galvão Teles também faz o jantar em casa. "Dá-me um gozo enorme. A minha actividade é um pouco árida e seca. Eu chego a casa e a minha mulher espera até às tantas para jantarmos" – conta; e brinca com a situação: "a minha mulher não sabe nem acender o fogão". O advogado habituou-se, em casa dos pais, a observar o trabalho das – "fantásticas" – cozinheiras da família. E aprendeu. Depois, aperfeiçoou. Fez um curso em França com o chef Roger Vergé e outros de cozinha italiana.
Nuno Galvão Teles fala de arte na cozinha. A partir dos alimentos chega a um resultado quase plástico: as cores mudam, alteram-se os alimentos e o empratamento é uma moldura. Que o digam os seus amigos. "Esperam sempre comer bem, e quando isso não acontece sou eu que fico chateado. A cozinha é bestialmente agregadora: é bestial ter um motivo para receber pessoas em casa."
COZINHA DE AUTODIDACTAS
Tiago da Câmara Pereira, presidente de um grupo de distribuição alimentar e sócio do restaurante Eleven, é um dos amigos de Galvão Teles. Chegam a partilhar a cozinha. E de resto, em casa deste engenheiro, o jantar da família é da sua responsabilidade. "Sou autodidacta. Gosto muito de ler sobre o assunto. E de experimentar."
Dois gourmet, Manuel Pinho e Teixeira dos Santos integraram o primeiro Governo de José Sócrates. O primeiro, que tutelou a pasta da Economia, vive "sempre com medo de engordar". Em casa, cozinha para dividir as tarefas domésticas com a mulher.
Foi também por "gestão familiar" que o ex-ministro das Finanças Teixeira dos Santos começou a cozinhar, há 38 anos, quando casou. A partir de 1995, quando trocou o Porto – onde deixou a família – pela capital, para ocupar um lugar de secretário de Estado, preferiu cozinhar em casa. "Dava-me gozo abrir a despensa e inventar um prato, consoante o que estava disponível." Teixeira dos Santos adora cozinhar para os amigos e, no recato familiar, gosta de fazer pizza. "Gosto até por esse lado, quase sensual, de trabalhar com as mãos, bater a massa, estendê-la." As revistas são a inspiração do ex-ministro – especialmente a velha colecção de António Silva ‘Tele Culinária’.
NOTAS
PARIS
Os cursos do chef Alain Ducasse custam entre 2500 euros (40 horas) e 14 500 (três meses).
SUSHI
Everything About Sushi é a escola de Paulo Morais em Lisboa. Cursos a partir de 2990 euros (três meses).
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