Família Andrade a fotografar desde 1900

A casa de fotografia mais antiga de Tavira inaugurou um museu com 20 mil imagens.

11 de dezembro de 2017 às 12:41
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Havia baile no Orfeão? Os Andrades fotografavam. Os militares partiam e regressavam das grandes guerras do século? Os Andrades fotografavam. Pescava-se atum no mar e extraía-se o sal das salinas? Os Andrades fotografavam. As cheias galgavam as casas em ondas de dois metros? Os Andrades fotografavam.

Isso e a neve que caiu em Tavira naquele dia de 1954 que ficou para a história porque nunca antes ou depois tal coisa ali aconteceu que haja memória disso; os saltos de ginastas sobre barreiras de seis homens, para colchões de quinze centímetros nos anos vinte do século passado; a avioneta vinda de Espanha que se despenhou nas salinas nos anos da Guerra Civil espanhola; a gente que acorreu ao centro daquela cidade do sotavento algarvio quando os ecos do 25 de Abril de 1974 chegaram de Lisboa e ali se fez multidão à espera. Mas também os rapazes da escola de pescas – num tempo em que a pesca era pão para a mesa no Algarve – e as bancas de sapateiros e marceneiros, ofícios de outros tempos que a fotografia não permite esquecer.

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‘Tipo passe’ para pescadores

Quando, mais de sessenta anos antes da revolução dos cravos, José Damasceno de Andrade – então escrivão na capitania do porto de Tavira – soube que os pescadores teriam que começar a ter uma cédula profissional e que para esse documento tinham que ser fotografados, viu ali uma oportunidade de negócio.

Ele que já fotografava desde mil oitocentos e muito (data de maio de 1900 o primeiro negativo conhecido desta família de fotógrafos e retratava um grupo de pessoas em frente a uma fábrica) chamou o irmão, Apolinário Cândido de Andrade – que tinha então uma casa de fotografia em Vila Real de Santo António – para se juntar a ele. Corria o ano de 1912, dois anos depois da implantação da República em Portugal, e os irmãos não só nunca mais arrumaram a máquina como deram início a uma história familiar com mais de 120 anos ligada ao ofício de através da lente eternizar momentos.

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Muitas das fotografias que tiraram – parte do espólio perdeu-se nas cheias de 1969, quando o rio chegou ao estúdio onde guardavam as chapas – estão agora expostas num museu dedicado à obra da família. Na rua da Liberdade podem ser vistas mais de 20 mil imagens captadas pelas quatro gerações de fotógrafos Andrade, mas também ampliadores, câmaras fotográficas, guilhotinas, caixas de arquivo, negativos em vidro e cenários de estúdio utilizados desde o início do século XX.

"Nos primórdios, o que se fotografava era fundamentalmente no estúdio, porque as máquinas tinham muito peso. No exterior eram mais panorâmicas ou algum grupo de grande importância. Naquela altura, quando o meu tio-avô e o meu avô começaram, só pessoas com peso económico é que tinham por hábito ir ao fotógrafo, porque era muito caro. Isso vê-se pelas vestimentas e pelo porte dos fotografados. Depois é que começaram a retratar os militares e os pescadores para os documentos", conta Luís Andrade, de 75 anos, neto de Apolinário e atualmente à frente da loja Fotografia Algarve – em conjunto com a irmã, Maria Alcide, e os dois filhos, Miguel Ângelo e Vítor Hugo Andrade, os sucessores.

Luís começou a ajudar o pai no laboratório ainda estudante de liceu, aos 13 anos. "A retocagem das fotos demorava, na era analógica, imenso tempo e eu, com 18, 20 anos, que queria andar nos bailaricos e de roda das saias das meninas tinha que estar no laboratório com o meu pai até às três, quatro da manhã a revelar fotografias", brinca um dos representantes da terceira geração da família Andrade. José Damasceno teve um filho – também fotógrafo, mas que morreu sem descendência – e Apolinário teve sete: todos fotógrafos. Três dos seus netos e dois bisnetos também lhe seguiram as pisadas.

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"O primeiro estúdio do meu pai era um estúdio ao ar livre, tipo barracão, para que a luz entrasse com alguma intensidade, num tempo em que não havia projetores – quando eu nasci, a grande maioria das casas não tinha sequer eletricidade – e o estúdio era num quintal da casa. Só em 1954, a família comprou uma casa com projetores e iluminação eletrónica, altura em que a fotografia de passe já não se sujeitava à marcação nem à dependência de o sol estar ou não encoberto", continua quem aproveitou a ‘estadia’ em Angola – na guerra do Ultramar – para fotografar tudo o que por lá se passava.

"Além de militar, fui operador de cinema em África, era o chamado repórter de guerra, chefiei o laboratório fotográfico do quartel-general", recorda Luís, que já de lá tinha voltado quando se deu o 25 de Abril. É precisamente a imagem que tirou da multidão que se juntou em Tavira naquele dia que elege como uma das mais marcantes que captou, ele que antes da revolução chegou a queimar negativos com receio da PIDE.

Naquele tempo, os fotógrafos "tinham uma ligação direta com a comunidade. Sinto pena de uma arte que está a desaparecer, embora – com a ajuda dos meus filhos – me tenha adaptado ao digital, assim que ele apareceu. Mas lembro-me do tempo em que as pessoas não tinham máquina e nós é que eternizávamos os momentos importantes, como os casamentos. O que é certo é que, daqui a pouco, temos que começar a fotografar os divórcios, que até casamentos já há poucos", diz meio a brincar meio a sério Luís, que tem a certeza que nem Damasceno nem Apolinário iam achar "graça nenhuma" às selfies que hoje enchem as redes sociais.

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