FERNANDO MEIRELES É O ÚNICO DO PAÍS

Júlio Pereira ou Pedro Caldeira Cabral são alguns dos músicos que recorrem à arte de Fernando Meireles. Há outros que constróem guitarras portuguesas, ele é o único que faz sanfonas

29 de fevereiro de 2004 às 00:00
FERNANDO MEIRELES É O ÚNICO DO PAÍS Foto: José Manuel Simões e Carlos Barata
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“Enquanto no estrangeiro me olham como se eu fosse um pequeno tesouro nacional, aqui estão perfeitamente a marimbar-se para o que faço, se existo ou não. As pessoas com responsabilidades governamentais não sabem olhar para os meus instrumentos, percebê-los, compreender a sua importância.” Quem o diz é Fernando Meireles, músico, investigador e artesão, o mais afamado construtor de guitarras portuguesas e o único que se aventurou na arte de recriar um instrumento medieval, a sanfona.

“De todas as tarefas que desempenho a que me dá mais prazer é construir instrumentos. Comecei a fazê-los porque os tocava, mas agora toco-os por os fazer. Se não os tocasse e investigasse, nunca teria atingido o nível que atingi.” Nomes como Júlio Pereira, Pedro Caldeira Cabral ou Amadeu Magalhães não abdicam de tocar com peças que possuem a marca de fabrico artesanal deste jovem de idade incerta que nasceu em Penafiel e vive em Coimbra, onde tem um ateliê no edifício da Associação Académica.

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“Não tenho qualquer tipo de dificuldade em sobreviver da minha arte. Este 'know how' criei-o sozinho, cresci sem a ajuda de ninguém. A partir do momento em que os meus instrumentos começaram a ser considerados, fui bater à porta das câmaras municipais com uma proposta que visava a criação de uma pequena escola de construção de instrumentos. Infelizmente, isso nunca foi avante.”

Autodidacta, dedica-se à sua arte de forma isolada, pois “não há outra maneira” de se ser músico tradicional em Portugal. “Não existe um ensino com qualidade e os conservatórios de música ignoram totalmente os instrumentos portugueses. Nos concertos que tenho dado no estrangeiro com o meu grupo, os Realejo, acabamos sempre por participar em 'workshops' onde contamos a nossa triste história.” Há revolta nas palavras, vivas e apressadas, conscientes de uma realidade que urge modificar. “Anda toda a gente em busca do lucro fácil, da política de terra queimada, mas isso não tem futuro.”

Padrões ancestrais Meireles deu início à sua arte no final dos anos 80, por mera curiosidade e como tentativa de responder às necessidades de uma nova vaga de músicos com outras exigências que não propriamente o folclore. O artista, então na posse de um cavaquinho que desafinava na escala, desmontou-o com o objectivo de o afinar. “Aquilo correu bem e às tantas a malta começou a fazer-me encomendas. Quando percebi, já estava metido nisto.”

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Sem saber contabilizar quantos instrumentos já fez, todos à mão, passa muito tempo a investigar e a construir segundo padrões ancestrais, tendo começado a fazer violinos – “o instrumento mais estudado, nomeadamente no que se refere aos grandes construtores do século XVI, XVII e XVIII”. Há medida que foi criando, foi evoluindo, percebendo melhor falhas e 'nuances', construindo peças únicas.

O segredo, revela ao Domingo Magazine, “está na escolha dos materiais, nas dimensões da caixa de ressonância e no acabamento”. As técnicas são, sem excepção, as antigas, utilizando principalmente os pinhos nórdicos e da Flandres, o pau-santo e o mogno. Curiosamente, a principal característica da construção está na cola, feita à base de gelatina “que mais ninguém usa”, e nos vernizes de resina e de goma laca, particularidades que tornam os instrumentos especiais.

Em Portugal pouca gente usa estes métodos, “essencialmente por serem muito demorados”: “Se quiser envernizar um instrumento com goma laca ou com um verniz desse género preciso de pelo menos 15 dias, enquanto se for à pistola bastam 5 minutos.” Com o tempo e com a evolução do instrumento os vernizes vão cristalizando, transformando-se em valiosas características de ressonância.

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Despertar sensibilidades Meireles também cria guitarras portuguesas, bandolins, concertinas, violas toeiras e sanfonas, “instrumento que me dá um prazer muito particular a fazer”. Sendo o único construtor deste instrumento em todo o país, Meireles teme que, no futuro, não haja nenhum artesão apto para dar continuidade à sua arte. “Desde o século XVIII até aos nossos dias ninguém fez sanfonas. No futuro vai seguramente acontecer que ninguém as continue a fazer.” Diz que não inventou nada, que se limitou a pesquisar e a repescar as técnicas ancestrais, mas está convencido que “isso devia ser aproveitado. Num país que atravessa tantas dificuldades, nomeadamente com precariedade de emprego, acho que o meu trabalho representa uma porta aberta para minimizar estes problemas. Digo isso porque no meu ateliê passa muita gente nova que descobre que era isto que gostava de fazer”.

O artista-artesão afirma a sua disponibilidade, “desde que as entidades mostrem interesse nisso”, recordando que, em 1995 e 1996, deu um curso “do qual saíram vários jovens aptos a construir guitarras portuguesas, cavaquinhos e bandolins. Sanfonas é que não, porque é um instrumento bastante complexo para principiantes”.

Não sendo um instrumento com muita visibilidade, as noções sobre ele são escassas. “De qualquer modo, para fazer uma boa sanfona é preciso habilidade e um conhecimento profundo das técnicas de construção e dos materiais. Porque senão o instrumento toca mas desafina. O importante é escolher e aplicar bem os materiais, talhar as peças com perfeição e deixá-lo tão lindo por dentro como por fora.”

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Por ano, Fernando Meireles faz, no máximo, seis instrumentos. Os mais valiosos são precisamente as sanfonas que demoram “pelo menos quatro meses a terminar. Os materiais utilizados custam cerca de 750 euros, o que, somando tudo, atingiria os quatro mil euros”. Contudo, “como as pessoas que têm interesse nestas coisas não são muito abonadas”, o valor da venda é bastante inferior.

A primeira sanfona que construiu remonta ao final da década de oitenta. “Quando tinha a ideia esquematizada meti mãos à obra. Os meus amigos, que nunca tinham visto tal instrumento, não percebiam o que eu estava a fazer. Constou até que eu tinha pirado.”

“As minhas guitarras portuguesas são muito consideradas, até porque, de facto, eu faço-as muito bem”, diz, sem modéstia, Fernando Meireles. “O segredo está em ter conseguido encontrar as dimensões correctas da caixa, pois a volumétrica é factor essencial para que este instrumento” - e que exprime de forma mais profunda o sentir português – “soe mais puro”.

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Existem duas versões da guitarra portuguesa, a de Lisboa e a de Coimbra, oriundas de duas escolas diferentes, com duas formas de se tocar e técnicas de construção distintas. Meireles não faz guitarras de Lisboa porque as vê como “instrumentos mal dimensionados” e com uma caixa “demasiado grande”: “Um dia, quando fizer uma guitarra de Lisboa, vou mexer na caixa de ressonância para a redimensionar”, explica, acrescentando que a “faria menor e com o mesmo volume em toda a zona da escala”.

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