Ficam bem na fotografia
Nem só de crianças se fazem os álbuns de família. Fotógrafos registam cães, gatos e outros bichos a pedido dos donos.
"Amanhã, a Filomena vai fotografar um casal de namorados com o seu cão e gato. O rapaz vai aproveitar e fazer na altura o pedido de casamento", não resiste a contar Ana Margarida, uma das duas fotógrafas e donas da Patas e Focinhos, uma entre tantas empresas que se dedicam a fotografar os animais domésticos dos portugueses.
O resto da história conta melhor o próprio. E é assim: ele mora com a namorada há dois anos. A "família" – como diz aquele veterinário de 29 anos – integra também o ‘Baco’, um cão de raça cane corso, com dois anos, e a ‘Lucky’, uma gata europeia comum com um ano. Fizeram-se fotografar na quarta-feira numa sessão que custa 50 euros. Ele aproveitou e pediu em casamento a namorada, uma enfermeira de 27 anos. "Vai ser uma surpresa. Mandei imprimir duas t-shirts: a que vai vestir a gata tem uma declaração de amor, e a que vestirá o cão o pedido de casamento. Podia pedir-lhe que os nossos nomes sejam fictícios?". Sem nomes, então.
"Foi mais pelo amor aos animais do que à fotografia" que há três anos duas amigas resolveram abrir a Patas e Focinhos – "percebemos que havia falta deste tipo de serviço e tínhamos razão, porque hoje em dia há imensa gente a fazer o mesmo", conta Ana Margarida, que tem 29 anos e é agente de viagens. A sócia, Filomena, de 37 anos, é professora de inglês. As duas têm em casa uma gata europeia e duas ratazanas domésticas. Convém explicar que uma ratazana doméstica é "um pouco mais pequena do que a ratazana comum; é uma espécie de ‘Ratatouille’ (o filme da Pixar com ‘Remy’, o roedor gourmet)".
As empresas de fotografia de animais domésticos competem na internet com as de casamentos, crianças ou grávidas fotografadas, como o foi Demi Moore para a ‘Vanity Fair’. Uma sessão pode custar entre 50 a 150 euros, conforme integre uma série de fotografias ou um book, como o dos manequins.
Para Ana Margarida, fotografar animais domésticos é uma ‘espécie de hobbie’, no caso lucrativo – "temos os fins de semana ocupados e se mais tempo houvesse, mais faríamos".
Fez este sábado oito dias que fotografaram ‘Bumma’, que tem bicos de papagaio e que por isso "saiu da sessão estafada". Rute Russo é a dona desta pitbull de 11 anos. Comprou por 50 euros uma sessão de 60 fotografias na praia da Fonte da Telha, em Almada. "Isto é uma experiência e também uma recordação. Ela está comigo desde que nasceu. É mais do que um cão, é da família; é uma irmã, uma amiga, uma filha", diz a administrativa, de 30 anos.
Sobre os donos
"Acabamos por ficar amigas de muitas das pessoas fotografadas. Da Sara e do Pedro, por exemplo, que têm uma puig preta, chamada ‘Big’, que fotografamos há três anos, quando abrimos a empresa. Quando a ‘Big’ engravidou fotografámo-la e depois, mais tarde, voltámos a fotografá-los, à ‘Big’ e ao resto da família quando nasceu o filho da Sara e do Pedro, o David", conta Ana Margarida.
E conta ainda histórias de fotografias que são tiradas porque os cães estão doentes ou velhinhos e "não vão durar muito tempo". E entre todas estas histórias, a do ‘Mojito’ – "a mais triste história de todas" – um boxer que fez uma sessão fotográfica um mês antes de lhe diagnosticarem leishmaniose visceral. "Tivemos o book pronto um dia antes dele morrer."
Fátima Silveira é professora de ballet do Colégio Planalto, em Lisboa. Aos 52 anos é também a dona da Foot Prints, onde prefere fazer fotografia a gatos e ter por perto os donos deles porque estes são "mais descontraídos do que os donos dos cães".
Uma vez, Fátima fotografou uns cooker spaniel num campo de malmequeres. A história que conta ilustra o perfil dos donos dos cães: "Eles querem estar sempre na foto e estão preocupados com o cão como se ele fosse uma criança. Tive uma dona de um cooker spaniel com diversos títulos que ficou chocada quando lhe sugeri a fotografia no mesmo local onde tinha fotografado os outros cães da mesma raça. Disse-me que o cão ia sujar-se todo e preferiu o estúdio. Pensei que se o cão não ia ao campo, ia o campo ao estúdio e andei a colher flores silvestres. A dona ficou aborrecida."
A Foot Prints tem um ano de vida aquém do esperado: "As pessoas não estão a aderir, não por não terem dinheiro mas por estarem a poupar nos gastos."
Que o diga Christina Palhim, que em 2007 uma reportagem da estação pública de televisão apresentava como proprietária do único estúdio para animais do País. Note-se que em 15 anos de profissão, Christina fotografou a ponte do Corgo, os edifícios da Vodafone em Lisboa e Porto, a recuperação do Cristo Rei, em Almada, a barragem do Tejo Internacional e, claro, vários animais de estimação, como os cães da Carolina Patrocínio. Na altura, há três anos, quando a crise ainda andava com patas de gato, assinou parceria com a Lifecooler. "Já então as pessoas compravam o voucher e optavam mais por coisas pragmáticas, como a tosquia ou o banho, em vez da sessão fotográfica." Christina, que tem 49 anos, diz que é agora a "altura complicada em que está tudo parado". "O último trabalho que fiz foi no final de 2012. Eram dois gatos, ou melhor um e meio. Um deles nunca se deixou mostrar. E a fotografia ficou assim."
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