Fim-de-semana na Serra

Neve a sério em Portugal só aqui, na Serra da Estrela. Entre Dezembro e Março, a região torna-se uma espécie de Algarve de Inverno. Todos os anos há novos chamarizes para turistas. Eles agradecem e são cada vez mais.

19 de dezembro de 2004 às 00:00
Partilhar

Na ideia de aproveitar os últimos três dias de férias, Paulo Anjos lançou-se à estrada, a caminho do ponto mais alto de Portugal, na companhia da mulher, dos dois filhos, ainda muito pequenos, e dos sogros. Alugou um chalé de montanha, um novo empreendimento nas Penhas da Saúde, a 1500 metros de altitude, e esqueceu o stresse do trabalho e o trânsito de Lisboa. Queria mostrar aos pequenos o que é viver no frio, ao toque da neve: “No ano passado, fomos à Eurodisney. Foi muito divertido e eles deram-se muito bem com o frio. Achei que a Serra da Estrela era uma boa alternativa, para gastar os últimos dias de férias que me restavam”.

Pelo alojamento pagou 550 euros. Acrescidos do que gastou em gasolina, refeições e outras despesas ocasionais, as mini férias de Paulo Anjos irão custar-lhe cerca de mil euros. Confessa não se arrepender, mas admite que ainda é um valor muito elevado. “Os miúdos estão a adorar, sobretudo, o mais pequeno que nunca tinha visto neve. Mas se pensar bem, no ano passado, eu e a minha mulher pagámos três mil euros por uma semana em Punta Cana, com tudo incluído. Se formos a ver bem, três dias na serra é caro.”

Pub

Os chalés de montanha foram uma das muitas sugestões que Paulo Anjos encontrou na Internet. A moradia onde ficou instalado tem quatro quartos, sala, cozinha e duas casas de banho. “Oferece excelentes condições”, refere. Foi destas bonitas casas de madeira que, todas as manhãs, Paulo e a família partiram à descoberta do resto da serra. “Sabe muito bem irmos passear na neve. Ontem, fomos ao Sabugueiro e a outras aldeias da zona. O nosso destino de amanhã é visitar o mini-zoo, em Gouveia. E depois, partir de novo para a confusão de Lisboa.”

Apesar dos mil euros, Paulo Anjos considera que “a Serra da Estrela pode ser encarada como um destino de férias dos portugueses”. Mas – admite - “ainda é necessário aproveitá-la melhor a vários níveis, desde mais espaços de animação a melhor comércio e restaurantes”.

Ao lado dos chalés de montanha, encontra-se o hotel Serra da Estrela. Pintado de amarelo e com uma arquitectura típica, este local pode ser uma alternativa a quem prefere a comodidade de não ter de arrumar ou cozinhar. Numa unidade como esta, por uma semana, cada casal desembolsará 287 euros, pelo que as pequenas casinhas de montanha ficarão mais acessíveis, uma vez que têm três quartos.

Pub

REGRESSAR À MONTANHA

Após onze anos longe da Estrela, onde vieram durante onze Carnavais consecutivos, André Pinto e Sofia Branco regressaram à serra para mostrar aos filhos “o quanto a neve é bonita”. Saíram do Porto às 9h15. Não foi preciso madrugar porque, justificam, “agora as estradas são outras e o trânsito está muito melhor”. Demoraram pouco mais de duas horas e, ao chegar, ficaram surpreendidos com o profissionalismo da Guarda Nacional Republicana.

“Antigamente, existia apenas uns ‘pica-chouriços’ da neve, que nem sabiam comandar o trânsito. Agora, não. Eles sabem o que estão a fazer. Isto está mesmo muito melhor”, constata André Pinto. Habituado a viajar para países quentes, a neve da serra exerce quase uma função rejuvenescedora para o casal portuense.

Pub

“Antes de casar, vínhamos cá sempre. Sabe bem regressar e sentir este frio, que é único aqui em cima. É mesmo frio.” O filho mais novo, Diogo Pinto, de seis anos, nunca tinha tido contacto com a neve. Enquanto atira bolas à irmã, Tatiana, três anos mais velha, o rapaz grita: “A neve é das melhores coisas para brincar.”

Com um orçamento bem mais modesto do que o de Paulo Anjos, no fim-de-semana na serra, os Pinto não esperam gastar mais de 250 euros. Para dormir, escolheram a estalagem Santa Bárbara, a cerca de dez quilómetros de Seia, mas dizem que “já não falta oferta de alojamento por estas paragens”. Sofia Branco promete regressar mais vezes à Estrela e garante: “Não a trocava pela Serra Nevada”.

Há muito tempo que Maria João Catalão e José Marques não viam as paisagens brancas da Estrela. A trabalhar como gerente do ‘call center’ do Turismo de Portugal, esta mulher de 35 anos deslocou-se várias vezes à serra em trabalho, como guia-intérprete.

Pub

Decidiu regressar, durante o fim-de-semana, para mostrar a neve ao filho de sete anos, Gustavo. Na opinião da perita no assunto, “a serra podia estar mais bem aproveitada”. E especifica: “Precisámos de um posto de socorro e mandaram-me para Manteigas”.

Críticas à parte, José Marques, que também já conhecia as montanhas de outras aventuras, nota, no entanto, que “a oferta a nível de alojamento está muito melhor. E há mais infra-estruturas, como a estância de esqui. Os restaurantes são muito bons. Almoçámos num aqui perto da torre que tem ‘self-service’ e é, realmente, bom”.

Conhecedora das unidades hoteleiras da zona, a profissional de turismo procurou um sítio para ficar que equilibrasse qualidade e preço. “Ficámos no hotel Belo, em Belmonte. Estive em vários e este pareceu-me o mais acessível. Tem um preço razoável – 63,5 euros por noite – para as condições que oferece.”

Pub

Depois do que encontrou, Maria João Catalão acredita que “a serra pode ser um excelente destino de férias, pois é dos poucos sítios em Portugal – às vezes, o único – onde se pode ver neve. Além das aldeias históricas, que estão todas aqui próximas, e das diversas rotas turísticas”. Quanto a beleza paisagística, o casal sugere o Minho e o Douro.

Atraídos pela neve, os Costa chegaram ao cume da serra, após quatro horas de caminho de jipe. Vieram “essencialmente para mostrar a neve”. Saíram cedo de Sintra e irão regressar no mesmo dia. Sem direito às tão desejadas férias, esta será apenas uma visita ‘relâmpago’.

A família é numerosa e os quatro filhos, entre os cinco e os dez anos, encontram-se em total estado de euforia, tão típica das crianças perante a novidade. O casal já conhecia a Serra da Estrela, mas desde que teve filhos é a primeira vez que vem: “Tivemos de esperar que eles crescessem. Já andávamos há algum tempo para lhes mostrar a neve”. Impressionados pelas baixas temperaturas dos termómetros e pela beleza da paisagem branca, a Serra já cativou a família Costa. Para matar saudades de uma visita que irá, confessam, “saber a pouco”, esperam regressar já na semana da passagem de ano. “Andamos a sondar, mas é quase certo.”

Pub

COMO APRENDER A ESQUIAR

O grande atractivo da serra e que está a provocar a mudança no turismo da Estrela é a Estância de Esqui, em plena montanha, e o Skiparque, uma pista de piso sintético, em Manteigas. Na primeira alternativa, aprender a esquiar ou a fazer ‘snowboard’ em grupos de cinco a 12, com direito ao material, custa 34 euros por duas horas ou 155 por uma semana de ensinamentos. Em classes particulares, o preço para uma ou duas pessoas é de 30 euros.

O aluguer de material também tem uma tabela de preços, dependendo do número de peças a requisitar. O Skiparque, em Manteigas, estreou na semana passada uma nova oferta para os que vão para a neve e não conseguem parar de esquiar ou preferem aproveitar os dias noutras actividades.

Pub

Até às 23.00, por 25 euros, têm direito a quatro horas de esqui e mais uma hora e meia de aula. A oferta destes espaços não fica pela neve. Existem vários programas de passeios pedestres de a jipe, bem como outros desportos, como a escalada, o ‘rappel’, o ‘paint-ball’, canoa, entre outras modalidades mais radicais.

Depois de subidas íngremes e envoltos num nevoeiro demasiado intenso, quer para quem sobe pela Covilhã, quer pelo lado do maciço central, atinge-se o ponto mais alto de Portugal. No século XIX, D. João VI mandou construir uma torre em pedra para completar os dois mil metros de altitude. Em dias de céu limpo, deste ponto consegue-se avistar desde serra da Boa Viagem, na Figueira da Foz, até à serra dos Gredos, em Espanha.

A dois passos daqui existe um edifício comercial onde a campanha de marketing da região de turismo ainda não parece ter tocado. Neste centro comercial, queijos da serra, presunto, enchidos, doçaria, casacos, gorros e luvas de pele, mas também equipamento para a neve enchem as 20 lojas.

Pub

Quem entra é invadido pelo marketing tradicional dos vendedores: “Não quer provar um pedacinho de presunto?”. O espaço é pouco acolhedor e está longe de convidar a ficar, apesar do frio no exterior.

Rodrigo Santos, um rapaz de 18 anos natural do Sabugueiro, a aldeia mais alta de Portugal, trabalha numa das lojas de produtos regionais há seis anos. Tempo suficiente para constatar as mudanças nas atitudes dos portugueses que visitam a Estrela: “Existe muita diferença. Os clientes de hoje preocupam-se mais com a qualidade e não com a quantidade. Antigamente, o preço era o mais importante. Só que, comparado com o ano passado, nota-se que as pessoas têm menos poder de compra”.

Existe algo que, na opinião de Rodrigo Santos, nunca muda: “Os turistas procuram sempre a neve e a diversão”. No ano passado, diz, “havia mais neve. As estradas chegaram a estar oito dias fechadas”.

Pub

300 MIL PARA VER O PÃO

Abriu as portas em Setembro de 2002 e está a ser um dos maiores sucessos nacionais. De acordo com dados da Região de Turismo da Serra da Estrela, em dois anos, o Museu do Pão já recebeu 300 mil visitas, o que o torna um dos mais visitados do País.

O êxito deve-se, considera Laura Quaresma, directora pedagógica, ao facto de “ser um sítio que agrada a todos, desde as pessoas mais simples aos mais letrados”. É um retrato da história do pão em Portugal, com documentos originais que resultam de quase dez anos de recolha. A sala do Ciclo do Pão, onde estão exemplificadas as 14 etapas do processo, é “onde as pessoas mais se revêem”.

Pub

Existe ainda um ateliê reservado às crianças, uma mercearia onde se vende produtos tradicionais, sobretudo pão e broa, um restaurante com ‘buffet’ à escolha, assim como uma agradável biblioteca-café. Até 30 de Março, a sala de arte do museu apresenta ainda uma exposição ‘sui generis’: ‘O Caminho dos Reis de Portugal’, uma mostra de 34 bustos dos reis que governaram o país, durante 900 anos. Tudo em massa de pão, elaborada pelos artistas da instituição.

BOA MESA NAS ALTURAS

A cerca de sete quilómetros do Skiparque de Manteigas, a caminho da Guarda, existe um restaurante onde vale a pena parar para saborear algumas delícias da gastronomia da zona, o Vallecula. Situado numa pequena casa de pedra, mesmo junto ao pergaminho de Valhelhas, este espaço prima pela decoração, vinhos da região, mas sobretudo, pela ementa. Galo no Vinho, Coelho com Castanhas, Pato à Província, Feijoca Serrana acompanhada de enchidos, Javali de Montaria, Costeletas de Borrego de Lameiro com Carqueja são os pratos fortes da casa. A acompanhar um bom tinto da região de Pinhel ou da Covilhã. Para sobremesa, Fernanda Barros, a cozinheira do Vallecula aconselha peras bêbedas, cocktail de frutos secos ou, entre outras iguarias, pudim de ovos. O preço médio por refeição é de 15 euros. O restaurante encerra às segundas.

Pub

O ALGARVE DE INVERNO

A serra da Estrela está a deixar de ser um sítio onde, como diz o povo, “o diabo perdeu as botas”. As unidades hoteleiras estão a crescer e existe cada vez mais propostas de animação para passar uma boas férias no frio gelado. Segundo Jorge Patrão, presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela, em cinco anos, triplicou o número de quartos. “Actualmente, temos cerca de cinco mil camas em hotéis classificados.”

A Turistrela, a empresa que tem a gestão da recém-melhorada Estância de Turismo, espera um acréscimo de 30 por cento no mercado, para este ano. “Mesmo em crise e quando a procura no alojamento registou uma queda de 14 por cento, por exemplo, no Algarve, aqui espera-se um aumento na ordem de 4,5 por cento”, sublinha Jorge Patrão.

Pub

O responsável pela Região de Turismo da Serra da Estrela refere ainda que “os números positivos são o resultado do caminho de qualificação da oferta”. É que – defende – “a Serra das Estrela está para os portugueses no Inverno como o Algarve está no Verão”.

O próximo passo é o acesso à serra em telecabinas, que irão entrar em funcionamento em 2006. “Os projectos estão feitos. Alguns encontram-se mesmo em conclusão. São muito importantes, para que o ar lá em cima seja o mais puro possível, evitando assim que as pessoas tenham de subir à serra de automóvel, o que é altamente poluente”, conclui. Jorge Patrão acredita que estão a conseguir criar um novo destino de turismo: “Existe um produto novo. Há uma antiga e uma nova Serra da Estrela”.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar