Francisco Moita Flores: É aqui que escrevo
O bloco de notas A4 acompanha-o por todo o lado. Mas é na mesa do pátio de tradição árabe, no centro da casa, que Francisco Moita Flores encontra a tranquilidade necessária para escrever a peça de teatro sobre Luísa de Gusmão que está prestes a terminar.
De esferográfica na mão (é incapaz de escrever ficção no computador), escreve desenfreadamente, por impulso e sem preocupações de linguagem. O silêncio do monte alentejano que é o seu refúgio, só interrompido pelo vento e pelo balir de uma ovelha de quando em quando, garante-lhe isso: liberdade de pensamento.
A casa da Quinta dos Capelos, perto do Cerejal, na zona de Estremoz, pertence à família. Foi construída de raiz nos anos 90, numa propriedade onde até aí apenas havia um olival e uma criação de porcos. Não havia ali um edifício para recuperar, nem móveis para restaurar. Mas todo o projecto foi pensado ao pormenor para incorporar as tradições da zona e as memórias pessoais. Os tectos contém abóbadas feitas por um dos poucos homens que na zona ainda conhecia os preceitos medievais e as grades das escadas foram feitas à medida por um artesão, com domínio perfeito do ferro forjado. “Vimo-nos em papos de aranha para o encontrar, a técnica quase desapareceu. Mas queríamos construir deixando aqui as nossas memórias todas. As do Alentejo e as da família”, explica Moita Flores.
A ideia do pátio de inspiração árabe e da casa aberta em U, virada para a serra, era ponto assente. A concretização do projecto ficou a cargo de um arquitecto local. “Depois há coisas que são marcas do meu percurso. “Os sinos pendurados no pátio são iguais aos que envolvem os templos budistas e vieram do Oriente, por onde viajei muito em trabalho. Descobri que o budismo tinha muito a ver com a minha formação de raiz franciscana. E como não podia trazer um Buda, porque não sou budista, trouxe os sinos”, explica. Da passagem pela Polícia Judiciária ficaram-lhe os cuidados com a segurança. Os vidros que dividem a casa do pátio são blindados e toda a zona é vigiada por câmaras de vigilância - a que pode aceder a partir do computador - com um sistema de alarme ligado à GNR.
Os anos de polícia também lhe deixaram outras marcas. “Recorri muito ao xisto da região. Mas ignorei os mármores. Talvez porque contactei muito com salas de autópsias”, confessa enquanto passeia pela casa. A pintura é a nota dominante nas paredes. Numa das salas, além de muitos caixotes de livros ainda empilhados, há inúmeros quadros por emoldurar e telas à espera de espaço. “A pintura é o meu hobby há mais de 20 anos”, desculpa-se. Há obras de Eduardo Alarcão, Noronha da Costa, Luís Filipe Abreu, entre muitos outros autores. As paredes do refúgio estão já quase totalmente preenchidas.
A escultura também está representada nos anjos de Rogério Timóteo, estrategicamente colocados de frente para a porta de entrada. “Em vez de um azulejo a dizer ‘Seja bem-vindo quem vier por bem’, optámos por um anjo de braços abertos”, brinca o investigador. A quinta, que durante todo o ano está a cargo dos caseiros, é também um ponto de encontro de familiares e amigos. Nela se celebraram já datas importantes como as bodas de ouro dos pais de Moita Flores e o baptizado da filha.
UMA PAIXÃO PARTILHADA
Filomena Gonçalves partilha a paixão do marido pelo refúgio alentejano. “Gosto muito de chegar ao fim do dia e jantar na mesinha do pátio. Ouvem-se os chocalhos dos rebanhos que voltam para os redis e as cores do céu são particularmente agradáveis”, diz. “Esta paisagem transmite-me uma enorme ternura. Eu não sou daqui, mas não posso deixar de concordar que o Alentejo é uma coisa que entra na alma e já não se apaga”.
A CAVALARIÇA DOS PETISCOS
A cozinha da casa foi pensada para finais de tarde e noites prolongadas. A enorme mesa central de madeira convida ao petisco e não falta uma garrafeira com mais de cinco mil vinhos, que os filhos se encarregam de não deixar envelhecer, quando por ali vêm com os amigos. O candeeiro é uma criação do escritor, que adaptou várias lanternas de cavalariça a uma roda de madeira.
Francisco Moita Flores é fã incondicional do clube de Alvalade. Na festa de inauguração da casa da Quinta dos Capelos, em 2001, a bandeira do clube ocupou um lugar de destaque. E não há contemplações quando chega a hora de uma partida de matraquilhos: o escritor só joga com o equipamento riscado.
COELHA PASCOAL
Moita flores nunca gostou de ter animais em casa. Mas a filha Matilde convenceu-o a adoptar um. A coelha Pascoal é agora a mascote da família.
FRANCISCO MOITA FLORES
Profissão: escritor e guionista, investigador e actual presidente da Câmara de Santarém (independente, eleito pelo PSD)
Idade: 53 anos
Local: perto de Estremoz, Alentejo
Companheiros de refúgio: A mulher, a actriz Filomena Gonçalves, a filha de nove anos, Matilde, e a coelha Pascoal são os mais assíduos. Nas férias, juntam-se-lhes o pai, os dois filhos mais velhos e os três netos.
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