GUERRA DO GOLFO FOI HÁ DOZE ANOS
A 16 de Janeiro de 1991 as forças militares lideradas pelos EUA iniciavam o ataque aéreo ao Iraque, com o objectivo de libertar o Koweit e vergar Saddam Hussein. Algures em 2003, a história ameaça repetir-se.
A 2 de Agosto de 1990, as forças militares do Iraque invadiram o Koweit, pequeno emirato a sul das suas fronteiras, no Golfo Pérsico. Os dois países tinham partilhado um destino comum, sob o domínio do Império Otomano até ao fim da I Guerra Mundial, tendo, depois desta, permanecido sob domínio britânico. O Iraque tornou-se independente em 1932, algo que o Koweit só alcançaria em 1961.
A soberania do Koweit nunca foi bem aceite pelos iraquianos, facto agravado pela indefinição da fronteira e consequentes disputas entre os dois países. Apesar de o Koweit ter apoiado o Iraque na guerra contra o Irão, entre 1980 e 1988, a animosidade do vizinho do Norte não cessou, antes aumentou, após o termo daquela guerra. O Iraque acusava o Koweit de ter aproveitado esse conflito para explorar petróleo e construir postos militares em território iraquiano, bem como de dificultar a sua recuperação económica ao vender petróleo ao ocidente a baixo preço.
Saddam Hussein, presidente iraquiano, tinha alguns motivos para confiar na passividade americana face a uma acção contra o Koweit. Durante a guerra Irão-Iraque, os Estado Unidos haviam retomado relações diplomáticas com Bagdad, tendo mesmo apoiado o regime de Saddam.
A desproporção de forças e a surpresa fizeram com que a invasão, e posterior anexação do Koweit como 19ª província iraquiana, pouco mais tenham sido do que um passeio de quatro horas. De nada serviram as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, condenando a invasão.
ESCUDO E TEMPESTADE
A primeira preocupação dos EUA foi prevenir que o seu mais forte aliado na zona, a Arábia Saudita, fosse também invadido. Por isso, seis dias depois, chegavam a este país os primeiros aviões de combate americanos, iniciando a Operação Escudo do Deserto.
Nos meses seguintes assiste-se a uma intensa actividade diplomática, que culminará com o ultimato do Conselho de Segurança, para uma retirada incondicional até 15 de Janeiro de 1991. Passa-se então, em termos militares, à organização declarada da ofensiva. A Ope-ração Escudo do Deserto dá lugar à Operação Tempestade do Deserto e inicia-se uma extraordinária concentração de meios militares da coligação, que irá atingir os 660 000 soldados, contra os 300 000 que o Iraque mantinha no Koweit.
Os EUA enviarão 500 000 soldados, 1800 aviões e 100 navios de guerra, naquela que constitui a sua maior expedição militar desde a guerra do Vietname. A ofensiva militar processou-se em duas fases, sob o comando do general Schwarzkopf. Com início a 16 de Janeiro, e durante cinco semanas, a força aérea americana, coadjuvada pelas britânica, francesa e saudita, conquistou o domínio dos ares, à custa de mais de mil missões por dia.
Além de alguns ataques com mísseis a bases da coligação na Arábia Saudita, o Iraque lançou dezenas de mísseis sobre Israel, na vã tentativa de fazer este país entrar na coligação e, dessa forma, conseguir que os países árabes a abandonassem. Nem uma nem outra coisa se verificou.
CEM HORAS, MAIS DOZE ANOS
A ofensiva terrestre iniciou-se na noite de 23 de Fevereiro, depois de esgotado mais um prazo de 24 horas para a retirada iraquiana do Koweit. A penetração das forças de coligação em território iraquiano é facilitada pela desmoralização causada pelos ataques aéreos. Por seu lado, Saddam Hussein, já prevendo o pós-guerra, faz retirar as tropas com maior potencial de combate, a Guarda Republicana.
Talvez por receio das consequências, não usou as armas químicas e bacteriológicas de que dispunha e, a 26 de Fevereiro, ordena às tropas iraquianas que retirem, não sem antes incendiarem 730 poços de petróleo do Koweit. Nessa retirada, os soldados foram bombardeados tão intensamente que a estrada ficou conhecida por Auto-Estrada da Morte e muitos dos sobreviventes vieram a render-se a, imagine-se, jornalistas.
Às 8 da manhã de 28 de Fevereiro, cem horas depois de começar a ofensiva terrestre, era decretado o cessar-fogo, ainda que as operações tenham continuado pelo menos até 2 de Março. Chegava ao fim a guerra do Golfo. Entre os iraquianos, segundo os serviços secretos americanos, contavam-se 100 000 soldados mortos, 300 000 feridos e 60 000 prisioneiros, enquanto o número de civis mortos poderá ter atingido os 35 000. Os norte-americanos sofreram 148 mortos em combate, 407 feridos e 121 mortos por acidente ou doença. Os restantes Aliados sofreram pouco mais de uma centena de mortos e 600 feridos. Mas o fim da guerra não significou necessariamente a paz. Saddam continuou instalado em Bagdad, as populações xiitas do Sul e curdas do Norte, que se revoltaram, foram massacradas, e as sanções económicas impostas ao país tornaram a vida das populações ainda mais penosa.
A relutância do Iraque em aceitar as inspecções das Nações Unidas faz alimentar o receio de que continuem a possuir armas químicas ou biológicas, ao mesmo tempo que serve de desculpa aos senhores da guerra para apresentarem como inevitável uma nova ofensiva. É só uma questão de tempo.
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