Guilherme d'Oliveira Martins: "Viajar faz-nos melhores"

Presidente do Centro Nacional de Cultura escreve novo livro: ‘Na Senda de Fernão Mendes'.

27 de outubro de 2014 às 14:50
Foto: Mariline Alves
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Este livro [ed. Gradiva] reúne impressões das viagens realizadas pelo Centro Nacional de Cultura de 2006 a 2013, no âmbito do ciclo ‘Os Portugueses ao Encontro da Sua História’. Como surgiu a ideia para a obra?

Como tiro muitas notas, o meu editor entendeu que era bom fazer um livro de viagens que as reunisse. Acabei por encontrar coerência nos textos. Espero que ajudem as pessoas a ter a noção de que os portugueses estiveram em toda a parte e em que medida isso é importante hoje.

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O apelo da viagem é inerente aos portugueses?

O facto de sermos finisterra, o fim da Europa, deu-nos curiosidade para ir ao encontro de outras terras e de tirar consequências positivas disso. Sim, a viagem é um elemento fundamental na identidade portuguesa. É por isso que encontramos portugueses em todo o lado.

No último capítulo do livro faz humor com isso...

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Sim, falo de uma figura imaginária, uma personagem do Tintim chamada Oliveira da Figueira, que é um português que encontramos nos sítios mais diversos e inesperados.

A obra vive sob a égide de Fernão Mendes Pinto, a quem chama "um criador da literatura moderna"...

Quando a ‘Peregrinação’ foi editada, no início do século XVII, as pessoas inventaram o trocadilho ‘Fernão Mentes? Minto!’ Como se fosse relevante saber se foi o próprio Fernão Mendes o protagonista daquelas aventuras todas. Na verdade, a obra junta vários géneros literários e é profundamente inovadora. Estão lá, como em Miguel de Cervantes, os ingredientes do romance moderno.

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Ler um livro de viagens é uma forma de viajar?

Certamente que sim. Tanto nos relatos de viagens reais como imaginárias. Não podemos esquecer, por exemplo, que ‘A Volta ao Mundo em 80 Dias’ do Júlio Verne foi escrito para divulgar o tratado internacional que tinha acabado de impor a hora legal. Na Idade Média, e mesmo na Idade Moderna, não havia hora legal. Havia hora solar.

No prefácio escreve: "O viajar torna o viajante cosmopolita, torna-o mais desperto e atento." Viajar torna-nos melhores?

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Penso que sim. Tenho insistido, até pelo meu trabalho na UNESCO e no Conselho da Europa, na importância da cultura da paz. E o viajar, o ir ao encontro do outro, o compreender a diversidade, é fundamental. Não podemos esquecer que quando os portugueses avançaram para os Descobrimentos havia a ideia de que o mar desconhecido era lugar de monstros, trevas e ameaças. Os portugueses substituíram essa noção pela ideia de que a natureza é algo que vale a pena conhecer.

Nos Descobrimentos, os portugueses também evidenciaram uma tolerância que os distinguiu?

O sultão de Trenate [na Indonésia] dizia-me que os portugueses são ainda hoje profundamente admirados nas Molucas uma vez que, sendo mercadores ou missionários, tiveram uma relação de grande respeito pelas populações locais. E foram os portugueses que levaram para as Molucas o cravinho e a noz-moscada, que são hoje a grande riqueza daquelas ilhas.

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No livro relata episódios divertidos, como o da viagem a Minas Gerais, no Brasil. Perderam-se?

Foi uma aventura. A estrada desapareceu. Era um local para onde poucas pessoas vão. Nessa viagem, que foi literária – tinha como inspirador o Vitorino Nemésio –, verificámos que perdemos a estrada em Diamantina. O mesmo lugar onde Nemésio se tinha perdido. No fundo, refizemos a viagem dele, repetindo a experiência.

Só por isso valeu a pena?

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Por mais do que isso. Diamantina é uma cidade portuguesa no congelador. Como se se tivesse mantido igual ao longo dos séculos.

A obra permite ao leitor descobrir coisas que desconhecia ou de que já não se lembrava. Que a cidade de Bombaim foi dote de casamento de Catarina de Bragança, em 1661...

É verdade. Hoje a cidade foi rebatizada e chama-se Mumbai, mas a verdade é que a sua designação original, depois da presença dos portugueses, era Boa Baía. Que os ingleses, após o casamento de D. Catarina com Carlos II, entenderam foneticamente. Chamaram-lhe Bombaim.

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Fomos consigo até à Calle Maipú, onde viveu Jorge Luis Borges. Um dos pontos altos destas viagens?

Foi extraordinário. Fomos ao encontro de um dos maiores escritores do século XX, descendente de portugueses, até à Calle Maipú, onde viveu com a mãe, e fizemos os percursos que ele fazia na belíssima cidade de Buenos Aires.

Conseguiria dizer o local que mais gostou de visitar no contexto destas viagens, entre 2006 e 2013?

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É difícil dizer. A maior surpresa foi constatar o conhecimento que os japoneses têm de Portugal e o gosto pela nossa cultura. Dou um exemplo. Fomos a um hotel, onde, em todos os andares, havia fotografias de um Portugal dos anos 50 e 60. Uma companheira de viagem pensou que tinham feito aquela decoração para nós. Não era. Está lá sempre.

Na passagem pela Rússia foi bom lembrar a portuguesa Luísa Todi, que cantou para Catarina II no Teatro do Hermitage...

Durante cinco anos. Foi a cantora que mais tempo esteve como residente no teatro. A pedido de Catarina, a Grande. Tragicamente, Luísa Todi perdeu as joias que a czarina lhe dera de presente no desastre de Ponte das Barcas, em 1809. Uma fortuna extraordinária no fundo do Douro.

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Ou, ainda na Rússia, recordar os painéis de Graça Morais no metropolitano...

Levámos a Graça Morais nessa viagem, para evocar esse painel magnífico. Muita gente nos questionava: então, mas os portugueses na Rússia? Sim, sim. Desde muito cedo. O braço-direito do imperador Pedro, o Grande, chamava-se António Vieira. E há António Ribeiro Sanches, braço-direito, conselheiro de Catarina...

A quem destina este livro?

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Dedico-o aos meus sete netos, aprendizes de peregrinar. Relativamente ao público em geral, obviamente que o dedico a todos os portugueses. Há motivo especial de orgulho pelo facto de uma das características fundamentais do ser português é termos esta capacidade de compreender e de tolerar as diferenças.

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