“Há uma obsessão pela fama na televisão”
O jornalista, escritor e actor recusa-se a estar parado. Está a gravar uma telenovela e vai lançar um novo romance. Fala sem tabus de uma vida intensa.
- Aos 88 anos, está prestes a lançar um novo romance e grava uma telenovela para a televisão. Não gosta do verbo parar, pois não?
- Não, parar é mau, como dizia o outro, parar é morrer. Estou a gravar uma novela que se chamada “Perfeito Amor”. Faço um personagem chamado José, pai do dono de um café chique, que passa o tempo a tagarelar com um outro reformado. É um personagem divertido.
- Há pouco tempo dizia que as telenovelas são muito fatigantes. O resultado final compensa o esforço?
- É um trabalho engraçado, embora seja muito dura. É precisa muita resistência dos actores e de toda a equipa técnica. Fazer uma novela é um contra-relógio, porque só é rentável economicamente se num intervalo muito curto forem feitos muito episódios. É um género interessante, que veio dar muito trabalho aos artistas portugueses. O desenvolvimento da ficção em Portugal foi das coisas que gerou mais empregos para os artistas e técnicos. É uma indústria em actividade permanente, e apesar de todas as críticas que possam fazer à ficção em Portugal, ela ganhou grande qualidade e hoje pode ombrear em qualidade técnica e artística com o Brasil, que é campeão das telenovelas. Aconteceu com a ficção de televisão mais ou menos o que se passou nos anos 50 com o cinema. Foi nessa época que se fizeram uma série de filmes que foram um grande sucesso.
- Há muita gente que considera que essa foi a idade de ouro do cinema português. Concorda com essa ideia?
- Foi ensaiado nos anos 50 um processo de produção contínua de filmes, nos estúdios da Tobis e da Lisboa Filmes. Concordo que foram anos de ouro. Não estou a falar em termos de qualidade, porque fora dessas anos fizeram-se produções muito interessantes, de outro estilo. Mas o chamado cinema comercial teve a virtude de incluir filmes de grande qualidade. Produziram-se filmes de grande sucesso. O público aderiu porque se usava uma linguagem simples e divertida. Eram filmes alegres e despretensiosos, para as pessoas esquecerem as amarguras do seu dia-a-dia.
- Como explica o fim abrupto dessas produções?
- Houve filmes rentáveis, como “A Vizinha do Lado”, “O Pátio das Cantigas”, “Cantiga da Rua”, a “Menina da Rádio ou “O Leão da Estrela”. Mas depois vieram anos de crise económica e a concorrência estrangeira era cada vez maior. Ainda se ensaiaram umas produções luso-espanholas mas que não tiverem sucesso. O cinema espanhol cresceu muito, mas o mercado era dominado pelo cinema americano. Era a época não da qualidade dos conteúdos, mas da qualidade das vedetas. Hollywood enviava para cá filmes baseados no nome das estrelas que neles participavam. Um filme com Tyron Power, Marlene Dietricht, Barbara Stanwyck ou James Fonda fazia as pessoas ir ao cinema mais para ver as vedetas do que para ver os filmes. Era como acontecia com o Vasco Santana e o António Silva no teatro de revista – as pessoas nem sabiam o nome dos espectáculos, chegavam à plateia e pediam um bilhete pelo nome dos actores.
- Começou a notabilizar-se nas festas do seu bairro, em Campolide...
- Nasci em Campolide, sou um alfacinha bairrista. Foi no Campolide Atlético Clube que me iniciei em várias actividades. Joguei basquetebol, fiz tiro e foi lá que aprendi a patinar e a nadar. Também foi neste clube que comecei a fazer uma vida de teatro. Fazia parte do grupo dramático e fiz algumas peças. Já tinha aquela fome de palco.
- Como aconteceu o salto para a rádio?
- Eu era o animador dos bailes que se faziam no clube. Nesse tempo, os clubes promovia bailes aos sábados, mas como nem sempre havia dinheiro para as orquestras, havia uns sócios beneméritos que emprestavam os seus ‘pick-ups’ e alto-falantes para se passarem uns discos. Como só havia um prato, era preciso parar a música para virar os discos. Um dia, por brincadeira, comecei ali a meter umas larachas, para entreter as pessoas enquanto se virava o disco. E foi assim que eu fui parar à Rádio Luz, em 1938, uma estação que tinha saído da Graça para Campolide.
- Isso ainda como amador?
- Sim, éramos todos amadores, ninguém ganhava um tostão. Apresentávamos discos, aquilo era dizer o que se tinha acabado de ouvir e o que se ia ouvir a seguir. Entretanto, em 1939, rebentou a II Guerra Mundial. Nessa altura, as estações de rádio viviam com muitas dificuldades e começaram a vender-se aos dois lados do conflito. Era proibido fazer propaganda, mas as rádios usavam um subterfúgio, que era apresentar artistas alemães ou ingleses, conforme o lado que apoiavam. A Rádio Luz fez um acordo com os alemães, mas como eu era anglófilo não aceitei essa ideia e transferi-me a custo zero para o Clube Radiofónico de Portugal, depois para a Rádio Peninsular e a Voz de Lisboa. Depois fui convidado a ir fazer um programa ao Rádio Clube Português, onde acabei por entrar para o quadro de locutores do Rádio Clube Português. Tudo isto foi meteórico.
- O seu início de carreira na rádio coincide com o cumprimento do serviço militar. Como é que conciliava as dias coisas?
- Estive quatro anos na tropa. Tinha 19 anos quando fiz primeiro ciclo de artilharia em Coimbra, em Santa Clara e depois o segundo ciclo em Vendas Novas. A seguir fiz a recruta de aspirante de oficial miliciano e fui colocado em Lisboa, na artilharia 3. Nessa altura sentíamos que podíamos a entrar na guerra a qualquer momento. No final, quase toda a gente do meu curso foi enviada para os Açores, antes da cedência da base das lojas.. Como eu era um dos mais bem classificados, fiquei a tirar um curso de artilharia anti-aérea em Cascais, com material novo que nos tinha sido vendido pelos ingleses. Corri as várias baterias de artilharia que havia na zona de Lisboa até 1944. Estava ainda no Rádio Clube Português e apareceu uma oportunidade de concorrer para locutor da Emissora Nacional. Fui prestar provas, mas tinha de sair da tropa para conseguir entrar. Por sorte, a guerra começou a inclinar-se para o lado dos aliados e consegui sair em 1945, mesmo a tempo de tomar posse na Emissora Nacional. Foi uma fase em que a sorte me acompanhou. Na altura era tenente miliciano, mas estive lá tanto tempo que estava a ver que ainda acabava em general... (risos).
- Sim, comecei por fazer apresentação de programas de cabine mas depois fiz reportagem, desporto, fiz teatro radiofónico, enfim, fiz de tudo.
- A sua estreia como relator de futebol nasce de um acaso. Como apareceu essa oportunidade?
- Há muita coisa na vida que nos acontece por acaso. Eu gostava muito de futebol e ia sempre ver os jogos aos domingos à tarde. Quando entrei para a Emissora Nacional comecei a colaborar num programa chamado “Rádio Desporto” que era do jornalista que fazia os relatos de futebol, o Quádrio Raposo. Nunca pensei fazer relatos, mas houve um dia em que ele tinha ido fazer a cobertura de um campeonato de hóquei em patins a Montreaux e não consegui voltar a tempo de fazer o relato de um Benfica – Futebol Clube do Porto. A Emissora não podia falhar esse relato e como eu era um pau para toda a obra vieram ter comigo e disseram-me que tinha de ir fazer esse jogo. Comecei por dizer que não, que eles deviam estar malucos, mas lá fui, um bocado inconscientemente, mas também, admito, com o desejo secreto de experimentar. Fui e fiquei. Ganhei o gosto por aquilo. Mais tarde, em 1951, passei a ser eu a fazer relatos na Emissora Nacional. O primeiro trabalho que tive foi ir cobrir os Jogos Olímpicos de Helsínquia.
- Mas todos sabiam que era um sportinguista ferrenho?
- Nunca escondi isso, mas sempre fui uma pessoa isenta. Tenho ali uma águia que me foi dada pelo Benfica pela minha isenção nos trabalhos desportivos. Veja bem como eles tinham consideração por mim. Nunca me foi difícil desligar o emblema. Claro que por dentro tinha alguns desgostos em relatar certos golos ou certas derrotas, mas consegui sempre ser independente. De tal maneira, que tive sempre mais problemas com adeptos do Sporting do que com adeptos de outros clubes. Eles esperavam que eu fizesse as coisas ao sabor do clube, chegaram a dizer que eu era verde por fora e vermelho por dentro. Mas nunca tive problemas de maior.
- Em 1947 tem a sua primeira incursão no cinema e logo ao lado de Amália Rodrigues. Como recorda essa experiência?
- O filme “Capas Negras” foi a primeira experiência cinematográfica dos dois. Curiosamente, privámos muito durante a rodagem, mas nunca fizemos cenas juntos. Mas já a conhecia e éramos amigos. Eu nessa altura era um grande frequentador da noite, ia aos espectáculos, ao teatro, ao cinema e às casas de fado. Apresentava espectáculos em todo o país e em muitos deles a Amália fazia a segunda parte. Acompanhei-a em todo o país e lá fora em vários espectáculos para emigrantes.
- Começa também a escrever na imprensa desportiva...
- Fui convidado para ir para o Record, jornal do qual acabei por se director, durante cerca de 11 anos. Gostava imenso da feitura do jornal. Era o tempo em que não havia offset, era tudo feito com chapas de chumbo. Durante muitos anos, paginei o record na tipografia do Diário Popular, onde também era impresso o jornal A Bola. Havia uma grande camaradagem com o Vítor Santos e outros colegas.
- Não havia a tentação de copiarem as notícias uns dos outros?
- Havia, sim. Às vezes fazia-se uns segredos, deixámos uns buracos em aberto ou púnhamos umas notícias falsas para disfarçar. Eram umas malandrices, mas só a nível interno, porque quando íamos para o estrangeiro trabalhávamos com se pertencêssemos todos ao mesmo jornal. Tínhamos de nos ajudar uns aos outros para garantir o envio do trabalho. Era muito complicado, nesse tempo não havia telemóveis nem faxes, nem telefotos. Era preciso arranjar um fotógrafo em cada país, e eles revelavam as imagens numa aflição. Tínhamos que ir numa correria entregar as fotos ao aeroporto e pedíamos muitas vezes aos passageiros para as levarem em mão. Era um sistema complicado, que exigia um grande esforço. Faço sempre questão de fazer um louvor especial ao desenvolvimento tecnológico, que nos facilitou muito a vida. Não se avançou muito em termos de criatividade e qualidade do jornalismo, mas deu-se um grande salto a nível tecnológico.
- Como era fazer jornalismo no tempo da ditadura, com a censura à perna?
- Nos jornais desportivos não se notava tanto, a não ser nalguns artigos de opinião. Onde se notava mais era na televisão. Na rádio, quando estava na Emissora Nacional, a censura já era feita internamente. Nesse tempo havia o jornalista que fazia a notícia e depois havia um locutor que a lia. Quando os papéis chegavam à nossa mão já traziam a censura feita. Quando eu senti mais esse peso foi quando produzi um programa de televisão, o “Curto Circuito”. Fazia espectáculos no Monumental e na segunda parte do programa tínhamos sempre uma vedeta internacional. Convidei muitos artistas que eram malditos politicamente, por exemplo os brasileiros do tempo do Gilberto Gil, o Caetano ou a Maria Bethânia.
- Como se contornava esse controlo?
- Havia duas censuras: primeiro, a Inspecção Geral de Espectáculos fazia a vigilância das canções e dos textos. Lembro-me que trouxe uma vez um cantor espanhol muito conhecido para actuar no programa. Ele chegou cá com dez canções, para podermos seleccionar as que seriam tocadas no programa. Conseguimos escolher quatro, mas depois a censura cortou tudo e ele não pode cantar nenhuma. Era um cantor conotado com uma certa área política e por isso foi recusado. Em caso de dúvida os censores cortavam tudo, para não lhes acontecer como na ‘Tourada’ do Fernando Tordo, em que não perceberam a letra e deixaram aquilo passar. Havia depois um outro censor, que era o que estava na sala de montagem. Por causa deles, aquilo era um drama, estávamos até de manhã a montar um programa.
- Nem sequer eram pessoas especialmente cultas?
- Não, eram velhos coronéis do Exército, uns tipos reformados que gostavam de copos. Tinham medo de perder o tacho e por isso eram mais papistas do que o papa. Como não percebiam as coisas, na dúvida cortavam. Por isso é que o teatro de revista desempenhou um papel importante. A revista escrevia as coisas sem maldade política, quem a punha era o actor, não no dia do ensaio geral para a censura, mas no dia da estreia. Às vezes bastava mudar a entoação para dar um significado diferente às palavras.
- Esteve como repórter na guerra colonial. Como recorda essa experiência?
- Sim, fui mandado para Luanda, onde fiz uma série de reportagens, logo a seguir aos primeiros acontecimentos de 1961. Foi complicado. Havia uma grande desorganização, era uma guerra em que o quartel-general fechava ao fim de semana. Como Luanda era praticamente uma cidade de retaguarda havia muita conversa de xaxa, parecia a guerra do Solnado. Mas nós éramos da Emissora Nacional, a rádio do Estado, e sabíamos até onde podíamos ir. Não valia a pena andarmos ali armados em D. Quixote para sermos despedidos no dia seguinte. Podíamos não dizer o contrário da verdade, mas também não podíamos ir contra o que eles queriam dizer. Não dizíamos que era azul uma coisa que era preta, mas também ninguém diria que era preta.
- Chegou a conhecer Oliveira Salazar?
- Só estive uma vez numa cerimónia pública onde ele estava. Mas nunca conversei com ele. Já os presidentes da República, conheci vários deles. O marechal Carmona, por exemplo, era um tipo porreiríssimo. Depois conheci o Craveiro Lopes, que era uma pessoa seríssima e o Américo Thomaz. Fiz também várias viagens com o Marcello Caetano.
- Quando aconteceu o 25 de Abril, sentiu-se perseguido por ser uma pessoa tão popular no tempo da ditadura?
- O 25 de Abril aconteceu numa noite em que estava a fazer do Record. Saí da tipografia, no Bairro Alto, eram 5h00. Meti-me no carro e passei à porta do Rádio Clube Português, que já estava ocupado pelas tropas. Mas não dei por nada e vim para casa dormir. Foi a minha empregada que me acordou de manhã, a dizer que tinha havido um golpe de estado. Nos primeiros tempos não tive grandes problemas, mas depois comecei a ter chatices no Record. Comecou a haver uma dinâmica de ambições pessoais e de traições, todos queriam lugares. Depois fui para o Campeonato do Mundo de Futebol, na Alemanha, e as coisas complicaram-se quando voltei, em Setembro. Acabei por ser preso no dia 25 de Setembro de 1974 por causa de uma denúncia falsa que fizeram contra mim. Inventaram que eu ia vestido de padre dentro de um carro funerário, com um caixão cheio de metralhadoras. Uma história rocambolesca, mas vieram deter-me de madrugada quando eu estava de férias em Colares, a tratar das minhas intentonas revolucionárias, que consistiam em ter um soninho porreiro.
- Quanto tempo esteve preso?
- Estive em Caxias três meses, sem acusação formada. Foi assim à balda, à portuguesa. Não fui acusado formalmente e estive dois meses incomunicável. Foram tempos terríveis, nem gosto de falar nesse assunto, foi uma desilusão em relação a muitas pessoas.
- O que fez depois de sair da prisão?
- Fui posto em liberdade em Dezembro e, ingenuamente, fiquei convencido de que, já que estava provado que não tinha nada a ver com políticas, poderia fazer a minha vida normal. Mas o que aconteceu é que ninguém me dava trabalho. Aguentei até Agosto de 1975 sem fazer nada e decidi ir-me embora. Fui para o Brasil. Parti sem emprego. Aos 54 anos, casado e com duas filhas, resolvi partir à sorte. Cheguei lá e, através de anúncios de jornais, tornei-me relações públicas de um banco que se destinava sobretudo aos imigrantes portugueses. Pouco depois, fui convidado pelo grupo Espírito Santo para ser Relações Públicas do banco que eles estavam a montar no Brasil. Entretanto, os meus amigos da rádio Globo – que eu conhecia muito bem mas que não quis contactar para procurar um emprego quando fui para o Brasil – descobriram que eu estava lá. Convidaram-me a fazer dois programas por semana na Globo sobre o futebol português. Vim a Portugal várias vezes ao serviço da Globo, para fazer relatos desportivos, quando os campeonatos deles estavam parados. Os jogos das equipas portuguesas faziam parte do totobola de lá. Ainda fundei o jornal “ Portugal Esportivo” e colaborei com outro jornal luso-brasileiro.
- Quando decidiu regressar a Portugal?
- Em 1981, seis anos depois de ter partido, resolvi retomar a minha posição em Portugal. Ainda tinha a minha agência de publicidade, que nunca chegou a fechar e estava a ser gerida por uma comissão administrativa. Em 81, as coisas começaram a melhorar e os elementos dessa comissão foram ao Brasil pedir-me que regressasse e acabei por concordar em voltar. O país já não estava a confusão do tempo em que eu saí. Estávamos numa fase de recuperação e de equilíbrio, as pessoas estavam mais serenas.
- Sente que foi prejudicado por ser um símbolo de uma época?
- Fui. Depois de cá estar outra vez, houve pessoa que, por uma questão de princípios se esforçaram sempre por não me facilitar a vida. Mas eu fiz o funeral simbólico dessa gente e está tudo resolvido. Nunca pertenci a partido nenhum e não estou nada arrependido.
- Mas retomou rapidamente uma carreira de várias actividades em paralelo...
- Sim, comecei a trabalhar na Rádio Renascença, com o Ribeiro Cristóvão e o Alves dos Santos. Criámos um sistema de transmissões desportivas que eu importei do Brasil. Fiz também umas coisas na RTP, dirigi um curso de locutores desportivos na RDP. Enfim, rapidamente retomei a minha actividade, mas dediquei-me sobretudo à minha agência de publicidade, que esteve a trabalhar até ao ano 2000.
- No Brasil escreveu dois livros. O que quis contar?
- Sim , um deles chamava-se “Até na prisão fui roubado”. Eu comecei a escrever esse livro na prisão. Era uma espécie de diário e todos os dias escrevi um capítulo. Um dia, mais perto da data da libertação, os tipos que controlavam a prisão confiscaram tudo o que as pessoas tinham e fiquei sem o livro. Tentei recuperar esse material, mas só consegui reaver parte do manuscrito através do meu advogado, já eu estava no Brasil. Mas entretanto eu já me tinha comprometido a escrever o livro e recriei essa vivências. Quando me chegaram os papéis originais, já o livro estava publicado em Portugal. Chegou a haver uma edição no Brasil, de mais de 30 mil exemplares, mas nunca recebi esse dinheiro. Entretanto, fiz outro livro sobre a minha vivência no Brasil, chamado “Português sem Portugal”, onde inclui partes do que consegui recuperar do que escrevi na prisão de Caxias.
- Em Portugal publicou, em 2002, o livro “Ficheiros Indiscretos”. É um livro de memórias?
- Sim, quer dizer, não gosto muito dessa designação porque acho pretensioso. Associo os livros de memórias às grandes figuras da história. Mas enfim, são memórias. Depois resolvi experimentar um romance, e escrevi “Os Abutres”. Gostei da experiência porque descobri que um autor está a criar as personagens e, às duas por três, elas parece que pertencem à vida real, até procuram interferir no nosso trabalho.
- A seguir escreveu “Ninguém Morre Duas Vezes”, que fala do tema da toxicodependência. Porquê este tema?
- Eu acho que qualquer novela, a par da história mais suave, deve ter uma tema que possa ser útil à sociedade. Escrevi a pensara nalguns toxicodependentes jovens que conheci quando fiz a pesquisa para o livro. Falei com muitos jovens que hoje são arrumadores de automóveis. Alguns conseguiram sair do buraco, outros nem por isso. Escrevi sobre a entrada da droga nas escolas. Os cartéis acham que a escola é um alvo fácil, julgam que é melhor arregimentar uns quantos estudantes para distribuir a droga, o que é muito perigoso.
- Vai lançar um novo livro, com um título curioso: “Jovem Riquíssima e Além Disso Viúva”. Qual é o tema?
- Comecei por pensar em fazer um romance sobre as jovens que querem ser vedetas à força, e muitas vezes esquecem os cursos para entrarem nos castings, a ver se chegam aos Morangos com Açúcar. Mas isso tinha para mim alguns inconvenientes, era capaz de ser arrastado para casos concretos e isso eu não queria de maneira nenhuma. É uma história de raparigas que vêm da província para Lisboa, em que duas das personagens são lésbicas.
- O que pensa sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo?
- Eu acho que as pessoas devem ter a opção que querem. Eu sou absolutamente liberal nessas questões, acho que os homossexuais devem ter os mesmos direitos que as outras pessoas. Mas tenho uma posição específica sobre o casamento, acho que não preciso as pessoas casarem para viverem em comunhão, para isso existe a união de facto. O casamento em si envolve uma ligação de dois sexos. Também não tenho nada contra a adopção, mas não me parece certo que uma criança possa ter duas mães ou dois pais. A criança tem de ter mãe e pai. Enfim, é que eu acho, pode ser uma visão errada da minha parte.
- Pegando na ideia original que teve para este último livro, acha que existe hoje uma sede demasiada de protagonismo e de sucesso rápido nas novas gerações?
- Há uma obsessão pela fama, fama essa que também é usada como montra para outras opções na vida. Há uma espécie de prostituição especial. As pessoas de quem dependem esses empregos utilizam as pessoas para obterem delas outras vantagens. Criam-se sonhos e ilusões que depois acabam por ruir estrondosamente e liquidam a vida das pessoas. De cada cem raparigas ou rapazes novos que aparecem, lançados de repente como estrelas, só cinco ou seis é que ficam, os outros vão desaparecer. Que é feito deles? Alguns ainda conseguem safar-se a tempo e voltam a estudar, mas é um problema muito complicado.
- Como vê o jornalismo que se faz em Portugal?
- Hoje o jornalismo é feito de uma forma muito diferente. A tecnologia mudou tudo. Quando me convidam para ir a colóquios ou congressos de estudante eu faço sempre um apelo a que os jovens não percam a identidade como pessoas. Se as pessoas se encostam demasiado aos computador, acontece o que se passou na publicidade – os computadores substituem a criatividade. Tirem todo o proveito da tecnologia, mas demonstrem que são mais inteligentes do que o computador. O jornalismo tem uma componente indispensável que é ter alma. Quem não gosta do que faz, nunca poderá ser jornalista. O computador não tem alma, é uma máquina. É como aquelas pessoas que cantam, que têm uma bela voz e são muito afinadinhas, mas não conseguem passar para o lado do público. É preciso ter chama
e gostar-se da profissão
- Acompanho o futebol com uma grande tristeza por ver que se transformou num pântano. O que vejo é uma grande promiscuidade ente o futebol e a política, gente sem escrúpulos, falta de coragem para reformar , as condescendências parvas, as arrogâncias, o fazerem-se as asneiras só para se mostrar quem é o tipo que manda. Depois há tipos que se perpetuam no lugar, ficam lá anos. E depois também olho para os jogadores e enfim, eu percebo que o profissionalismo é hoje uma coisa importante e irreversível, mas é preciso que eles gostem do jogo, e que tenham algum respeito pelos adeptos que vão ao estádio. Por exemplo, vi agora estes dois últimos jogos do Sporting e os gajos parecia que estavam a fazer um grande frete. Mas o mal é geral, agora os jogadores caem e fazem logo uma grande fita. Há o vício do truque e da batota.
- Ainda se entusiasma a ver um jogo de futebol?
- Quando é bem jogado gosto. Sou freguês dos jogos ingleses, que, de uma maneira geral, ainda entusiasmam. Eles jogam razoavelmente, estão ali para cumprir as suas obrigações, respeitam quem paga bilhete. Em Portugal, não percebo, se calhar é um problema de falta de cultura.
- E a selecção nacional?
- Eu sou amigo do Queiroz, mas acho que ele cometeu um erro logo desde o início. A primeira coisa que ele fez foi destruir tudo o que o treinador anterior tinha feito. Isto ás vezes resulta, e é evidente que estávamos a terminar um ciclo, com jogadores a acabar as suas carreiras, que era preciso substituir. Mas estamos numa fase de qualificação e era preciso pensar em garantir a qualificação e depois é que se pensava numa nova equipa. O Queiroz devia ter mantido a espinha dorsal do grupo que foi criado pelo Scolari. Não devia ter feito tantas experiências, só depois de estar qualificado. Ele está a confirmar ser uma pessoa muito organizada, sabe muito bem trabalhar à secretária, mas não sabe trabalhar no banco. O banco é a tal alma, a inspiração do momento, o feeling, e isso ele não tem.
- Qual a equipa que mais o encantou nestes anos todos que leva a ver futebol?
- A equipa bestial que Portugal levou ao terceiro lugar no Mundial de 66. Quanto aos clubes, destaco dois momentos: a fase dos cinco violinos do Sporting, em que se jogava um futebol fabuloso e a do Benfica dos anos 60, com o Eusébio, o Augusto, o Costa Pereira, o Coluna, que também tinham um jogo excepcional. O futebol faz-se de ciclos, agora estamos a viver o ciclo do Futebol Clube do Porto, mas isto há-de mudar.
- Viveu um episódio dramático na sua família, com a morte do seu neto e do seu genro num acidente de viação. A sua filha criou uma associação de apoio aos pais em luto. Acha que foi a melhor forma de tentar ultrapassar essa dor?
- Acompanho com muito orgulho essa actividade da minha filha. É bom que estas experiências sejam transmitidas as outras pessoas, ajudam a combater a dor. Ela encontrou uma boa solução para a sua vida, casou-se outra vez, e tenho um neto dela.
- Correu quase o mundo todo em reportagens. Ficou algum destino por visitar?
- A China, gostava muito de ter lá ido, e também a Austrália. De resto conheci quase tudo. Cada terra tem os seus encantos. Aqui na Europa, por exemplo, gosto muito de Londres, há ali qualquer coisa que me encanta. Mas há uma cidade que eu disse um dia que se saísse de Portugal era para lá que ia. Chama-se Rio de Janeiro e vivi lá durante seis anos, em Copacabana. Só esse bairro tinha um milhão de pessoas.
- Há alguma actividade que tenha ficado por fazer?
- Nunca fui pessoa de fazer projectos. Acredito naquela história de que a sorte bate à nossa porta pelo menos uma vez na vida. É preciso é que as pessoas estejam em casa para abrir a porta. Considero que sou um homem feliz. Faço sempre uma comparação pela inversa, há tanta gente infeliz. Há pouco tempo estive doente e andava abatido, mas depois olhava as pessoas à minha volta e via tanta gente pior do que eu que pensei logo que não tenho razões nenhumas de queixa.
- O facto de ser mais velho também faz com que tenha visto desaparecer as pessoas da sua geração. Como é que lida com essas ausências?
- Esse vazio é um bocado dramático. Por muito que conheçamos gente nova, nunca conseguimos compensar a perda. Na vida há sempre uma prateleira que não consegue repor. A saudade fica sempre. Eu sei que a morte é inevitável. Ás vezes também penso nisso. A minha preocupação é dar trabalho às pessoas, gostava de morrer rapidamente, sem sofrimento, quando chegar a minha hora. Mas digo-lhe uma coisa, tenho muita pena de ter morrer um dia, porque eu gosto muito de viver.
PERFIL
Artur Fernandes Agostinho tem 88 anos e uma carreira de 71 primaveras na rádio, imprensa, televisão, publicidade, teatro e cinema. Começou numa rádio de Campolide e sempre se habituou a fazer várias actividades, de actor a jornalista. É casado, tem duas filhas e um neto. Neste momento está a gravar uma telenovela.
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