História horrível

Durante 24 anos, Josef Fritzl manteve em cativeiro a sua filha Elisabeth e três dos sete filhos em comum. Em exclusivo, a Domingo faz a pré-publicação da obra de Nigel Cawthorne, uma investigação sobre o ‘monstro’ de Amstetten.

02 de novembro de 2008 às 00:00
História horrível Foto: d.r.
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À tona do número 40 de Ybbsstrasse, uma típica casa dos subúrbios austríacos, tudo tranquilo. Nas traseiras, nas profundezas de uma cave, aprovada como previdente abrigo nuclear, Josef Fritzl, pilar da comunidade, engenheiro electrotécnico reformado e proprietário de um considerável património, escavou um cemitério de vivos. O bom homem de família de Amstetten, uma pequena cidade pitoresca de 23 mil habitantes, era, na verdade, um monstro, e a respeitável casa de família, uma casa de horrores.

Durante 24 anos, até Abril deste ano, Fritzl manteve em cativeiro a sua filha Elisabeth, hoje com 42. Sabe-se agora que não foi a primeira vítima - nos últimos anos de vida da sua mãe, Josef fechou-a num quarto e cobriu a janela com tijolos para se vingar dos espancamentos de que foi alvo. Ao completar a maioridade, Elisabeth foi drogada, arrastada para a masmorra e violada continuadamente. Da relação incestuosa, encetada quando Elisabeth tinha apenas 11 anos, resultaram sete crianças. Uma delas acabaria por falecer três dias depois do seu nascimento. Durante quase um quarto de século, ela e três dessas crianças viveram num inferno sem janelas, privados da luz do dia e outras trivialidades do mundo real. As crianças nunca respiraram ar fresco, apartados de qualquer contacto com a sociedade em geral. O carcereiro, um homem que ora brincava com eles ora os aterrorizava, era a única pessoa que tinham visto.

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A todos, Fritzl contava que a filha Elisabeth, a sua preferida, fugira para ingressar numa misteriosa seita religiosa em Agosto de 1984. Nos vinte e quatro anos que decorreram desde então, não foi vista pela família nem pelos amigos. Escrevera-lhes, apenas, a mando do pai, confirmando a sua obscura tese. Incapaz de lidar com a maternidade, Elisabeth teria deixado três bebés à porta da casa da família, implorando aos pais que tomassem conta deles. Ele e a esposa Rosemarie adoptaram um e acolheram oficialmente os outros dois.

Aos 73 anos de idade, Fritzl percebeu que a situação não podia continuar. No final de 2007 começou a preparar o fim do jogo. Pretendia encenar a libertação de Elisabeth neste último Verão, mas antes que pudesse pôr o seu plano em prática, a sua filha/neta Kerstin adoeceu gravemente. Sábado, dia 19 de Abril de 2008, a jovem de 19 anos deu entrada no hospital. Sete dias depois, Elisabeth aparece nas ruas de Amstetten. Foi vista com o pai e dirigia-se ao hospital, para visitar a filha doente. Acabaria por confessar todo o horror, perante o choque de todo o Mundo.

A casa dos Fritzl foi incluída no itinerário de um autocarro de turismo que agora aí faz uma mórbida paragem. Um dístico na vedação do jardim sintetiza a pavorosa dúvida: 'WARUM? Hat es keiner gemerkt?' ('PORQUÊ? Será que ninguém reparou?').

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PRÉ-PUBLICAÇÃO 'CASA DOS HORRORES':

' Elisabeth era a mais bonita das filhas de Fritzl quando se tornou vítima do monstruoso pai. Com uma aparência tipicamente austríaca, evocativa das ilustrações de contos infantis – maçãs do rosto salientes, olhos grandes e um sorriso inocente –, sempre foi a menina dos seus olhos. O que começou como um excesso deliberadamente cruel de disciplina e castigo tornou-se uma fixação sádica: Fritzl começou a agredir sexualmente a filha indefesa.

Contou mais tarde à polícia que Fritzl a violava sem aviso, no carro e em caminhadas pela floresta – mesmo na cave. Quando Elisabeth se tornou mais velha e começou a mostrar os primeiros sinais de se tornar mulher, Fritzl tornou-se assustadoramente possessivo em relação à filha.

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Em 1978, quando Elisabeth acabara de fazer 12 anos, Josef Fritzl pediu licença ao departamento urbanístico para converter a cave num abrigo nuclear. Isto não era invulgar durante os anos da Guerra Fria.

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A 28 de Agosto de 1984 começou o pesadelo subterrâneo de Elisabeth. Elisabeth diz que o pai a agarrou por trás e a fez perder os sentidos com éter. Quando voltou a si, viu-se algemada a um poste metálico, permanecendo assim nos dois dias seguintes. Diz que de seguida o pai a prendeu com uma trela de metro e meio, que lhe permitia chegar ao lavatório improvisado ao canto mas que lhe cortava todos os outros movimentos. O abrigo fora já transformado em prisão.

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Confrontado com as provas, Fritzl confessou ter aprisionado a filha:

– Sim – admitiu à polícia –, fechei-a, mas só para a proteger das drogas. Era uma criança difícil. Embora admitindo tê-la violado repetidamente, negou as acusações da filha, de a ter acorrentado à parede da cave e mantido 'como um animal', afirmando ter sido amável para com a segunda família que mantinha na cave. Admitiu que as crianças eram seus filhos, fruto de incesto com a própria filha, o que os testes de ADN subsequentes confirmaram. Contudo, a polícia não compreendeu por que razão ele decidira que três das crianças – Lisa, 16 anos, Monika, 14 anos, e Alexander, 12 anos – viveriam no piso superior com ele e a mulher e iriam à escola, enquanto os outros três – Kerstin, 19 anos, Stefan, 18 anos, e Felix, 5 anos – ficariam lá em baixo, na prisão subterrânea. Interrogado sobre essa decisão, Fritzl disse que teve medo que o ruído e os gritos levassem à sua descoberta.

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– Adoeciam e choravam demasiado na cave para o meu gosto – afirmou.

(...)

Josef Fritzl pouco adiantou para explicar a brutal violação e encarceramento da filha e os horríveis maus-tratos infligidos a pelo menos três dos seus filhos. Contudo, afirmou--se vítima do seu passado nazi – e nisto pode haver um fundo de verdade.

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Nascido em Braunau am Inn, na fronteira bávara, a apenas 136 quilómetros de Amstetten, Hitler passou a maior parte da infância em Linz, a menos de 48 quilómetros da cidade natal de Fritzl.

Fritzl era filho único. A sua mãe, Rosa, sofria de deficiência e ele cresceu praticamente sem pai, já que Franz Fritzl estava no exército. Os amigos da escola relembram um rapaz tão pobre que os outros pais davam comida à mãe de Fritzl. Ela vivia sozinha, depois de se ter divorciado de Franz, um acontecimento escandaloso na pequena e tradicional cidade austríaca.

– Sempre valorizei muito a disciplina e o bom comportamento – afirmou. – Admito-o. O meu comportamento vem da minha geração; sou da velha escola. Cresci durante o tempo dos nazis, o que implicava disciplina e autocontrolo, e admito que isso se apoderou de mim até certo ponto.

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– O meu pai era um inútil; nunca assumiu responsabilidades e não passava de um falhado que sempre traiu a minha mãe – afirmou Fritzl. – Quando eu tinha 4 anos, ela pô-lo, e muito bem, fora de casa. Depois disso, eu e a minha mãe deixámos de ter contacto com este homem, que não nos interessava. De súbito, passámos a ser só nós dois.

– A minha mãe era uma mulher forte; ensinou-me disciplina e controlo e os valores do trabalho árduo – afirmou Fritzl. Mandou-me para uma boa escola aprender uma boa profissão.

Tem-se especulado sobre a possibilidade de haver algo pouco saudável na relação entre ambos. – É um disparate completo dizerem que a minha mãe se aproveitou sexualmente de mim – afirmou Fritzl. – A minha mãe era respeitável, extremamente respeitável. Amava-a sem limites. A minha reverência por ela era total. Contudo, isso não significa que houvesse mais alguma coisa entre nós. Nunca houve e nunca teria havido.

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Contudo, quando lhe perguntaram se alguma vez fantasiara uma relação com a mãe, respondeu: – Sim, provavelmente... Mas era um homem muito forte, provavelmente tão forte como a minha mãe, e, consequentemente, era capaz de controlar os meus desejos.

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Entre 1969 e 1971, Fritzl trabalhou para a Zehetner, uma empresa de materiais de construção em Amstetten, onde o descreviam como 'trabalhador inteligente e bom técnico'. No entanto, já nesse tempo mostrava tendência para a perversão sexual. Teve o primeiro encontro desagradável com a polícia aos 24 anos, depois de uma queixa de atentado ao pudor. A polícia relatou que Fritzl passou desse delito à violação de pelo menos duas mulheres em Linz, onde trabalhava na década de 1960.

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Só uma das vítimas apresentou queixa. Em 1967, Fritzl foi declarado culpado de violação e condenado a 18 meses de prisão. Os detalhes sobre a acusação de violação em 1967 foram entretanto eliminados dos registos. Sob a lei austríaca, como parte do processo de reabilitação, os detalhes de condenações anteriores são eliminados ao fim de dez anos. Contudo, outra vítima, que afirmou ter tido demasiado medo na altura para apresentar queixa, deu a cara depois de Elisabeth ter emergido da sua masmorra, afirmando estar '100% segura' de que foi Fritzl quem a violou, em Setembro de 1967, quando tinha 20 anos.

– Nunca vou esquecer aqueles olhos. Senti os lençóis serem puxados para trás. Disse-me, 'Se fazes um ruído, mato-te.' Então violou-me na minha própria cama.'

O autor Nigel Cawthorne respondeu à domingo via e-mail:

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'DIFÍCIL FOI TER QUE LIDAR COM DADOS TÃO ASQUEROSOS SEM FICAR DEPRIMIDO'

É mais conhecido pelos seus livros sobre sexo. O que o fez escolher esta história em particular?

Escrevo por dinheiro. No dia em que a história de Fritzl estoirou nos jornais, o editor ligou-me a perguntar se conseguia escrever um livro sobre o caso. Disse que sim. No dia seguinte, chegou o cheque, juntamente com um contrato em que me comprometia a redigir a obra em cinco semanas. Entreguei-a meio dia antes do prazo só para dar nas vistas. Mas fico contente que goste dos meus livros sobre sexo. Divirto-me muito a escrevê-los!

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Quando pegou definitivamente na história e como correu todo o processo de investigação?

Foi-me pedido que fizesse apenas um trabalho de corta e cola, a partir de notícias dos jornais. Não havia razão para ir àÁustria.Todos os jornalistas do Mundo já lá estavamenão havia qualquer hipótesede conseguir uma entrevista com os protagonistas – Fritzl, a filha Elisabeth ou algum outro familiar. O que a polícia disse fora largamente reportado e as pessoas de Amstetten já estavam fartas de perguntas. Então, como explico no livro, sentei-me na minha cave em Bloomsbury e vagueei por recortes de jornal e entrevistas televisivas. Hoje em dia, com a internet, é possível aceder a todo o tipo de fonte on-line. O problema foi ter demasiado material, e não pouco. Foi um trabalho colossal reunir isto tudo.

Um dos aspectos mais assustadores é o facto de nunca ninguém se ter apercebido de algo errado. Ficamos com a ideia de que poderia acontecer com qualquer um de nós. Sente isso?

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Explico na obra que, devido ao legado da II Guerra Mundial, a Áustria tem uma cultura particularmente sigilosa. As pessoas não se imiscuem na vida e nos quintais dos vizinhos, talvez por medo do que possam encontrar. No entanto, coisas terríveis acontecem em pequenas terras também em Inglaterra. Durante 20 anos, Fred e Rose West torturaram, mataram e violaram pelo menos 13 jovens raparigas – incluindo a sua própria filha – na sua casa em Gloucester, enterrando depois os restos mortais no subsolo da casa. Foi apenas quando uma outra das suas filhas, de 13 anos, contou a um colega de escola que fora violada que as autoridades começaram a investigar.

Durante o processo de reunião de notícias, o que mais o chocou e surpreendeu?

Como pai, choca-me que um homem possa tratar um filho seu desta forma. Em vez de zelar por ele, destruiu por completo a sua vida. E o mais surpreendente é o facto de Elisabeth ter sobrevivido a todo o terror sem enlouquecer. É uma mulher extraordinariamente forte.

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Foi mais difícil compilar todo o material ou ter que escrever sobre um caso tão assustador?

Como só tinha cinco semanas para completar o livro e estava a atingir o limite, tive que pesquisar e escrever em simultâneo. O mais difícil foi, de facto, ter que lidar diariamente com dados tão asquerosos sem ficar deprimido.

Lamenta não ter encontrado ou descoberto algo? Alguma ponta solta que gostasse de ter explorado mais?

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Quando o caso chegar a tribunal mais dados serão conhecidos. Nessa altura, espero que o editor me deixe fazer uma nova edição para completar a obra.

Que ‘personagem’ mais o atraiu como escritor?

Elisabeth Fritzl é, sem dúvida, a protagonista da história. É admirável a sua enorme coragem. Também não nos conseguimos desligar dos seus filhos - especialmente o pequeno Felix, cujas primeiras reacções ao mundo exterior foram espantosas.

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Que feedback tem hoje de todas estas pessoas sobre as quais escreveu?

Só sei o que leio nos jornais. Quando o processo em tribunal estiver concluído, calculo que queiram enterrar a história. Mas, claro, eu estaria disponível para me encontrar com a família, se esta quisesse ver mais sobre a sua história narrado.

A certa altura compara a situação de Elisabeth com a de Natascha Kampusch, também ela vítima de cativeiro. Natascha revelou-se igualmente uma rapariga muito forte. Hoje apresenta até um programa de TV. Que futuro espera para Elisabeth?

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Só posso esperar que Elisabeth lide tão bem com a situação como Natascha. Ela e os seus filhos já sofreram o suficiente para várias vidas. O que necessita agora é de liberdade para gozar o resto da sua vida.

O que acha que levará as pessoas a ler este livro? Não é uma história de fácil digestão...

Mais de 90% dos livros sobre crimes reais são comprados por mulheres. Este é um livro para mulheres. Nenhum homem, espero eu, será capaz de se identificar com Josef Fritzl, mas acredito que muitas mulheres serão capazes de se identificar com Elisabeth e com a sua mãe. Ambas sofreram, a níveis diferentes, nas mãos de um bruto.

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Em mais de duas décadas o Mundo mudou imenso, como aponta no livro. E quanto ao Nigel? O que fazia quando Elisabeth foi enclausurada e qual foi para si a maior mudança?

Em 1982 era jornalista e escrevi o meu primeiro livro. Já escrevi 109. Nessa altura trabalhávamos em máquinas de escrever. Hoje em dia não há uma única fábrica no Mundo que produza máquinas de escrever. Há mais de vinte anos, um livro como ‘A Casa dos Horrores’ teria demorado meses, senão anos, até estar concluído. Hoje é tão fácil recolher informação – apesar de termos que vigiar muito mais as fontes. Com uma história destas, escrever num computador em vez de numa máquina significa que podes escrever e reescrever a teu bel-prazer.

GENEALOGIA DE UMA FAMÍLIA INCESTUOSA

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Hoje quase septuagenária, como o marido, Rosemarie estava de férias quando o caso rebentou. Muitos apontam-lhe o dedo, mas também ela sofreu na pele a brutalidade de Josef. Seguiu para um hospital psiquiátrico, juntamente com Elisabeth e os netos, onde recebem terapia. No passado dia 15, os especialistas garantiram que Fritzl está apto a ir a tribunal. O julgamento poderá começar já este mês. Na prisão, só teve uma visita: um amigo não identificado. Foi inundado com mais de 5000 cartas de ódio. Também recebeu 200 de... amor.

INSUSPEITO ABRIGO NUCLEAR

Inicialmente, apenas 20 m2 e 1,70m de altura. Era este o espaço reservado a Elisabeth e aos seus três filhos na cave de uma típica casa suburbana de três andares. Nas traseiras destacava-se uma imponente estrtura, como um abrigo nuclear dos tempos da guerra, autorizada pelos inspectores de construção em 1983. À medida que a família subterrânea foi aumentando, Fritzl obrigou a filha a escavar toneladas de terra de modo a expandir a área interior. Para este espaço sem luz natural transportou roupa, comida e electrodomésticos ao longo dos anos.

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