História de um casamento por conveniência

Tsipras e Kammenos são diferentes em tudo. Menos na vontade de acabar com a tragédia grega.

01 de fevereiro de 2015 às 12:30
Foto: D.R.
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Água e vinho. Azeite e vinagre. Açúcar e sal. Alexis Tsipras e Panos Kammenos. Os líderes do governo que tomou posse na Grécia na segunda-feira passada – como resultado de uma coligação improvável entre o partido de esquerda radical Syriza e o partido conservador e nacionalista Gregos Independentes – parecem diferentes em tudo exceto na decisão de renegociarem a dívida grega (de 300 mil milhões de euros) e de afastarem a austeridade.

Com um número de deputados díspar – o Syriza obteve 149 lugares no parlamento enquanto o ANEL (abreviatura do partido que Kammenos fundou em 2012) apenas 13 –, os dois homens têm nove anos e muitos quilos de diferença. Aos 40, Tsipras é o mais jovem primeiro-ministro da Grécia contemporânea e é, indiscutivelmente, carismático e telegénico.

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O seu ar dinâmico convenceu os gregos a confiarem-lhe o voto apesar do tom radical do partido que dirige, uma coligação de esquerda que chegou a integrar o partido comunista grego e que se designa de Syriza desde 2004. Cultiva o ar descontraído, odeia gravatas (já disse que nem como primeiro-ministro o apanharão com tal acessório) e vive maritalmente com a mulher que conheceu na adolescência, Peristera Batziaka, de quem tem dois filhos. O mais novo chama-se Ernesto, por homenagem a ao guerrilheiro marxista argentino Che Guevara. Descreve-se como ateu e defende os direitos dos homossexuais e o casamento gay.

Aos 49 anos, Panos Kammenos

tem poucos atrativos físicos quando comparado com o parceiro de coligação. Cristão (é membro da Igreja Ortodoxa Grega), defende que a Igreja deve ter voz ativa no Estado e quer ver a taxa de imigração limitada (e reduzida a níveis "económica esocialmente sustentáveis", embora não explique o que entende por isso ou como tenciona alcançá-lo). Casado com Eleni Tzouli, tem cinco filhos e é assumidamente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

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No entanto, contra as expectativas, são estes homens que em menos de uma hora chegaram a acordo para governar o  país.

FAMÍLIA E EDUCAÇÃO

Como a maioria dos políticos gregos, nem Alexis Tsipras nem Panos Kammenos têm origens humildes. O primeiro nasceu no seio de uma família da classe média-alta, filho de um engenheiro civil que geria o seu próprio negócio de construção. Alexis chegou a trabalhar na área, mas por pouco tempo.

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Como o pai, licenciou-se em Engenharia Civil – em 2000, na Universidade

Técnica de Atenas – e fez uma pós-graduação em planeamento urbanístico, mas desde a adolescência que se interessava cada vez mais por política. No final da década de 80 juntou-se à Sociedade de Jovens Comunistas e aos 17 anos fez a primeira ‘ação revolucionária’: organizou a ocupação do liceu onde estudava para reclamar contra a reforma do sistema educativo. Entre outras reivindicações, reclamava o direito dos alunos de faltarem às aulas.

Quando, em 2004, se formou o Syriza – aliança de forças de esquerda – Tsipras era líder do Synaspismos, o maior grupo dentro da coligação (tinha conseguido a proeza aos 33 anos).

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A partir daí, a história escreve-se muito depressa: em 2012 a aliança tornou-se partido e alcançou 16% dos votos nas eleições de maio e quase 27% nas de junho. No ano passado, Tsipras foi candidato à presidência da Comissão Europeia (pelo Partido da Esquerda Europeia) e passou por Portugal para participar, com Mário Soares, numa conferência sobre os 40 anos do 25 de Abril. Em tudo isto, a sua popularidade não parou de aumentar, para o que muito contribuiu o facto de ter começado nos últimos tempos a suavizar o discurso e a procurar manter uma postura menos radical.

Curiosamente, também a popularidade de Kammenos tem-se mantido firme junto dos gregos, embora os analistas não consigam interpretar o fenómeno, dada a sua imagem de amigo do disparate. Adepto das teorias da conspiração, conhecido pelas declarações bombásticas e nem sempre refletidas que já lhe valeram processos judiciais, num dos seus momentos mais criativos atirou para o ar que os judeus pagam menos impostos do que os cristãos ortodoxos na Grécia (acusação sem qualquer fundamento).

Em 2013 foi obrigado a pagar uma indemnização de 30 mil euros ao irmão do ex- primeiro-ministro Georgios Papandreou, por difamação (acusou-o indevidamente de desvio de fundos). Mas o eleitorado vê nele um patriota e valoriza a forma enérgica como luta, contra tudo e todos, pelos interesses do país.

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O TERCEIRO MAIS RICO

Com ligações a um dos mais lucrativos negócios de produtos lácteos (a Fage S.A, que movimenta mais de 500 milhões de euros por ano), o líder do ANEL estudou Economia e Psicologia na Universidade de Lyon, Suíça, e chegou ao parlamento aos 28 anos, como deputado eleito pela Nova Democracia. Em 2011, quando o hemiciclo revelou as declarações fiscais dos políticos com assento parlamentar, descobriu-se que era o terceiro mais rico, atrás de Samaras (Nova Democracia) e de Venizelos (PASOK). Em 2010 teria auferido juntamente com a mulher 161 405 euros (dos quais cerca de 30 mil de honorários como advogado).

Com mais 55 mil euros em ações, Kammenos declarou ainda propriedades em Antas e Samos, três carros e um barco. Isto no mesmo ano em que Tsipras declarou um rendimento de 60 561 euros (o seu salário como deputado), uma propriedade em Ática e uma motorizada BMW (que entretanto trocou por um carro para transportar os filhos).

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Em 2012, expulso da Nova Democracia

por ter votado contra as medidas de austeridade exigidas pela troika, Panos Kammenos fundou o partido dos Gregos Independentes, que obteve 10,6% dos votos nas eleições de maio e 7,5% nas de junho. Nas últimas eleições conseguiu apenas 4,68% dos votos, o suficiente para que Tsipras o tenha desafiado a formar governo e, assim, diluir o vermelho do Syriza com o toque branco e azul do ANEL.

Ambos têm detratores: se uns temem a incontinência verbal de Kammenos ou que volte a contratar amigos para cargos políticos (foi atacado por ter recrutado o primo como colaborador); outros acusam Tsipras de ser narcisista e temem pela condução da política externa, já que, por não ser casado, dificilmente será bem recebido nos países mais conservadores. O seu encontro com o papa Francisco, em setembro, não teve outro objetivo que o de melhorar-lhe a imagem internacional. Mas defeitos e qualidades à parte, os dois homens prometem unir esforços para reduzir o desemprego (de 26%) e travar a onda de suicídios que, em números não oficiais, já soma seis mil mortos desde 2009.

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