“Houve ricochete, a bala bateu e fugiu”

Só não fui atingido por não haver ângulo que o permitisse. Corri para a viatura, e só parámos depois de uma curva.

05 de junho de 2016 às 15:00
Manuel Augusto Lopes Foto: D.R.
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Por força do destino, quando pouco faltava para voltar a casa com a obrigação militar cumprida, como soldado artilheiro da especialidade de transmissões, colocado na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas, embarquei em maio de 1961 para Angola no ‘Vera Cruz’, fazendo parte da Companhia de Artilharia 118.

Na hora de avançar para o mato, ao passar por Caxito e Ambriz, vi campos totalmente queimados. Das palhotas só restavam as paredes e havia fumo aqui e ali, o que levava a concluir que tudo fora incendiado no dia anterior ou no mesmo dia, antes de os donos se infiltrarem na mata. Deixavam só o que não podiam levar, inclusive cães, cabras e haveres domésticos!

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Ambrizete tinha praia e era agradável, parecendo fugir ao lastimável ambiente de guerra. O pouco tempo que lá passámos deu para apreciar a localidade, mas também para saber que os mosquitos atacam forte quem apanham descuidado ou mal protegido, nomeadamente a dormir. Daí o paludismo.

Colocados a seguir em Bessa Monteiro, a cerca de 100 quilómetros, para proteger o posto administrativo e três lojas, montámos defesa para o tempo necessário, que foi de largos meses! Sofremos as primeiras baixas em patrulhamento e ao longo do tempo mais foram acontecendo. Não posso dizer quantas, mas a perda de algumas pessoas notava-se na companhia. Ao pensar naquilo que passámos, entre fome, sede, doença e sustos, muito me admiro de estarmos sempre prontos para avançar, dia ou noite, com chuva e sol, sem pensar como seria o regresso à base.

LARANJA ARMADILHADA

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Numa das vezes em que nos deslocámos de Bessa Monteiro a Ambrizete para abastecimento, a coluna, que se resumia a três viaturas, parou num sítio com laranjeiras que tudo nos dizia estarem abandonadas. Pensando assim, desci da Unimog para colher uma laranja e matar a sede, mas dei por mim debaixo de fogo cruzado. Só não fui atingido por não haver ân-gulo que o permitisse. Corri para a viatura, em andamento, alcancei o taipal de trás e só parámos depois de uma curva onde já não havia azar.

Mais tarde, no mesmo percurso, uma mina destruiu parcialmente uma GMC, primeira viatura de uma coluna mista, e não deu mais para avançar. Houve que suportar o tiroteio durante longo tempo, e dada a posição em que me instalei, sob a proteção da viatura, estava a notar que projéteis de arma ligeira picavam o chão à minha frente. Nisto, há um que dá uma pancada de tal ordem no meu capacete que me atirou ao chão. Sem perder tempo, apanhei-o e voltei a colocá-lo na cabeça. O meu colega Barros, que estava ao lado, disse: "Lopes, que sorte a tua!". Sem perceber o que queria dizer, olhei para ele, que esclareceu: "O capacete...". Apalpei com a mão direita uma amolgadela vincada. Houve ricochete, a bala bateu e fugiu, sem haver mais estragos!

Quando fomos substituídos estivemos uns tempos acampados em Baca, povoação deserta a cerca de dez quilómetros, e mais tarde fomos colocados na zona de Malanje (Marimba e Tembo-Aluma), com maior tranquilidade, e já sem sobressaltos. Ali ficámos até se completar o tempo para regressar às origens.

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Ficaram saudades dos amigos! Não da guerra, que destruiu muito ser humano e deixou muita família destroçada, desnecessariamente.

 

Manuel Augusto Lopes

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Comissão  

Angola (1961-1963)

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Força  

Companhia de Artilharia 118

Atualidade

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Tem 77 anos, é casado e tem quatro filhos e quatro netos. Vive em Rendo, no Sabugal

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