INIMIGOS PÚBLICOS Nº1
Faustino Cavaco, Vítor Jorge, Tojó ou Celé. As suas motivações foram diferentes e os seus crimes também. Mas a dimensão dos danos fez deles demónios aos olhos da Polícia e dos cidadãos. Celé foi apenas mais recente criminoso a assustar Portugal
Nasceu Osvaldo Anildo Silves Ferreira Vaz, mas a tendência para o crime cedo o baptizou como ‘Celé’. Condenado pela primeira vez aos 16 anos, por roubar carros e malas por esticão, estreia-se a matar no ano seguinte, num tiroteio entre ‘gangs’, na Cova da Moura, Damaia. Os limites estavam ultrapassados definitivamente. ‘Celé’ estava num caminho sem volta, o caminho do crime.
A partir daí sentia-se capaz de tudo e isso era suficiente para viver. Roubar, traficar droga e matar eram para ele como que tarefas domésticas, tal a facilidade com que as executava. A fama cresceu proporcionalmente à gravidade dos crimes. Chamavam-lhe o ‘Mata Polícias’.
No final de Outubro acabou o sonho de um jovem que um dia ambicionou dominar o Mundo pelo poder de fogo da sua Six Sauguer. Numa operação do Grupo de Operações Especiais (GOE), ‘Celé’ foi alvejado com 42 tiros de pistola-metralhadora, um número que, por si, justifica o estatuto de inimigo público no 1 e coloca o ‘Mata Polícias’ entre os mais famosos criminosos portugueses de sempre. Neste grupo incluem-se, entre outros, nomes como os de Zé do Telhado, Faustino Cavaco, Vítor Jorge, Tó Jó e Luís Miguel Militão.
O primeiro fora-da-lei português a atingir a projecção nacional foi Zé do Telhado, uma figura sobre quem até hoje é quase impossível distinguir a verdade da lenda. E muito porque grande parte da sua vida foi contada por Camilo Castelo Branco – nos quatro volumes de ‘Memórias do Cárcere’ –, que a terá ouvido da boca de um companheiro de prisão.
Seguindo as pisadas do pai e do irmão mais velho, Zé do Telhado assumiu o comando de uma perigosa quadrilha de ladrões - que não olhava a meios para atingir os seus fins. Foi preso a 31 de Março de 1859, mas com o apoio do advogado Marcelino de Matos, cedido por Camilo Castelo Branco, Zé do Telhado acabou por ser julgado por um só crime de morte, o de um elemento do seu bando.
O fim da primeira República e a chegada de António Salazar ao poder, logo depois, transformaram a sociedade portuguesa e abriram caminho a um novo tipo de crime, o político. Neste campo, o criminoso português mais célebre é Rosa Casaco, antigo chefe da brigada da PIDE, que assassinou o general Humberto Delgado e a sua secretária, em 1965. Condenado à revelia, após o 25 de Abril de 1974, a quase oito anos de prisão, por crimes de falsificação, descaminho e destruição de documentos e por ter pertencido à polícia política, Rosa Casaco é o único funcionário da PIDE, ainda vivo, que foi condenado e nunca cumpriu qualquer pena. Está exilado em Espanha.
Ultrapassado o período conturbado do pós-revolução e chegada a integração na União Europeia, Portugal assiste entre 1986 e 1987 a dois dos mais mediáticos crimes nacionais de sempre, protagonizados por Faustino Cavaco e Vítor Jorge. O primeiro, juntamente com mais cinco reclusos, evade-se da Colónia Prisional de Pinheiro da Cruz, perto de Grândola, a 28 de Julho de 1986. Até consumar a fuga, o grupo mata três guardas prisionais e, nos quatro meses seguintes, deixa o País em pânico. Nos primeiros 15 dias de investigações são capturados quatro fugitivos, um já sem vida. Ficam a faltar os irmãos Faustino e Clemente Cavaco. Depois de meses de trabalho, uma equipa de 12 agentes da PJ consegue finalmente, a 24 de Novembro, pôr termo à fuga, prendendo Faustino Cavaco, um dos mais temidos criminosos portugueses.
Ainda Portugal recuperava dos meses de agitação provocada pelo paradeiro incerto dos irmãos Cavaco quando Vítor Jorge entrou para o grupo de inimigos públicos no 1. Sob o impulso de combater uma sociedade podre, este bancário sem antecedentes criminais matou, nas últimas horas de 1 de Março de 1987, sete pessoas na Praia do Osso da Baleia. Entre elas, a mulher, 36 anos, e a filha mais velha, 17. À mais nova, 14, poupou-lhe a vida no último instante.
Influenciado ou não pela abertura das fronteiras decretada pelo Tratado de Maastricht, em 1992, um ‘serial killer’ ao estilo de ‘Jack, o Estripador’ assassinou cinco prostitutas em Lisboa e na Margem Sul do Tejo e, mesmo sem rosto – continua por desmascarar –, tornou-se uma das principais figuras do crime nacional.
Igualmente brutal foi o duplo homicídio cometido a 12 de Agosto de 1999, em Ílhavo. De uma geração muito influenciada pela televisão e pela Internet, Tó Jó, 24 anos, assassinou os próprios pais, ao que tudo indica na sequência da prática de rituais satânicos.
Motivações diferentes,s relacionadas com a ambição e a ânsia de luxúria, Luís Miguel Militão, que no ano passado liderou a chacina de seis empresários portugueses, mortos e enterrados num bar de Fortaleza, no Brasil. Os portugueses odiaram--no, os brasileiros também. Foi condenado a 150 anos de prisão, 30 efectivos.
Os casos Alves dos Reis e Dona Branca
Alves dos Reis foi um dos mais brilhantes falsários de sempre. Fascinado com o potencial do continente africano, e explorando a fundo as fraquezas de uma sociedade dominada pelos jogos de interesses e influências, Artur Virgílio Alves dos Reis engendra um plano para colocar em circulação milhares de notas de 500$00 falsas. Com inteligência e imaginação, Alves dos Reis consegue iludir empregadores e empregados, empresários e polícias, até fundar o seu próprio banco, o ‘Angola e Metrópole’.
Durante dez meses, põe a circular mais de 300 mil contos, faltando apenas chegar ao comando do Banco de Portugal para completar o engenhoso plano e apagar as provas do crime.. A 5 de Dezembro de 1925, estava a um pequeno passo de atingir o seu objectivo e a estratégia parecia infalível. No entanto, à boa maneira de Hollywood, um mero comentário de um caixa de uma casa de câmbios do Porto sobre a quantidade de notas de 500$00 envolvidas nos negócios de Alves dos Reis bastou para aniquilar um dos mais brilhantes crimes organizados de todos os tempos.
Igualmente requintado foi o crime de D. Branca, a ‘Banqueira do Povo’, célebre por emprestar dinheiro a juros exorbitantes, a pessoas de todas as classes. Do início dos anos 70 a 1984, a ‘velhinha’ lisboeta amealhou uma fortuna calculada em mais de 17 milhões de contos, abalando toda a estrutura bancária nacional e até provocando algumas convulsões políticas. Alves dos Reis e D. Branca estão entre os maiores criminosos portugueses de sempre, sem nunca terem utilizado uma arma.
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