JÁ NÃO SE FAZEM GÉNIOS

A esperança de que os filhos do banco de esperma dos prémios Nobel fossem geniais caiu por terra. Afinal, eles são pessoas como outras quaisquer, de inteligência normal

20 de setembro de 2002 às 16:02
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Apesar de estapafúrdia, a ideia parecia arrojada e até concretizável. Criar uma legião de crianças superdotadas por inseminação artificial com o esperma de personalidades brilhantes ou até dos vencedores do Nobel? Genial! O resultado seria um grupo de bebés com uma inteligência superior à da maioria das crianças. “Tal pai, tal filho?”

Nos anos 70 um magnata norte-americano foi protagonista de um louco burburinho a nível internacional. Qual professor Lampadinha, Robert Graham tinha um projecto megalómano: criar génios. O projecto tinha (a sua) lógica. Com o esperma de premiados pelo Nobel (e de algumas outras personalidades brilhantes), foram inseminadas várias mães que, durante nove meses, transportaram nas suas barrigas potenciais génios. (De referir que, além de muitos recusarem, outros até seriam já bastante "velhos" para fins reprodutivos pelo que só quatro ou cinco acederam em participar). Havia muitas dúvidas quanto ao sucesso do projecto mas, só até 1999 - quando o banco de esperma do milionário Graham fechou as portas -, tinham sido “produzidos” 240 bebés.

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Em finais de Agosto, a segunda criança a nascer, fruto desta experiência, completou 20 anos. É a única a quem se conhece a identidade. Será Doron Blake o que se esperava dele, ou seja: um génio? A resposta deita por terra todas as expectativas. Não, Blake é uma pessoa como outra qualquer.

Desde que veio ao mundo, foi encandeado por holofotes e projectores, que fizeram dele, desde os primeiros tempos de vida, um (potencial) herói. Ao estilo do filme The Truman Show - em que Jim Carrey interpretava a figura central de uma novela real onde todos os seus passos são seguidos por milhões de espectadores -, também Blake foi “presa” óbvia da imprensa e de muitos curiosos. Aos seis anos foi submetido a um teste de inteligência e os resultados foram, de certo modo, animadores. O teste apurou um Q. I. (Quociente de Inteligência) de 180 e, como qualquer valor acima de 130 é considerado excepcional, as esperanças no sucesso do projecto ainda incendiavam a opinião pública. Mas, feitas as contas, isso não queria dizer grande coisa. Na comunidade científica não há sequer consenso sobre que aptidões podem ser susceptíveis de avaliação de inteligência. E, mesmo que houvesse, que critérios garantiriam que o Q. I. as traduz fidedignamente?

Polémicas à parte, Blake foi crescendo. E, dê lá por onde der, não consta que alguma vez se tenha mortificado por não ter cumprido as elevadas expectativas em seu redor. “Acho essa ideia de produzir bebés génios meio maluca”, comentou recentemente, em entrevista. E mais. “Nunca fiz nada de especial e não creio que a inteligência seja uma característica capaz de tornar uma pessoa melhor do que outra.” Cresceu, é estudante de religião, apaixonado pelo taoísmo, fanático de Harry Potter e não come carne. Cresceu. E aprendeu. Que a fama tem um preço e, já que não o largavam, ele havia de ganhar com isso. O assédio dos jornalistas virou fonte de rendimento e, agora, por cada entrevista cobra 1530 euros (cerca de 300 contos). Se quiserem também os depoimentos da sua mãe, Afton Blake, uma psicóloga bizarra, então aí o preço aumenta. Génio? Ou genioso?

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Onde param os outros bebés?

Não é conhecida a identidade dos doadores e dos bebés germinados pelo Repository for Germinal Choice. Mas David Plotz, jornalista de uma revista americana na Internet (Slate) já localizou 15 dessas crianças, com idades entre os sete e os 20 anos. Entrevistou mães e pais adoptivos, identificou sete doadores e a conclusão foi sempre a mesma: “Esses meninos e meninas não têm nada de bizarro ou qualquer traço que os transforme em supercrianças”, escreveu.

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