Joaquim de Almeida: "Não me dou com atores, são chatos" (COM VÍDEO)
É um homem feliz com a carreira que escolheu e que o levou para fora do País há quase 38 anos. Uma vida fora do comum
- Nasceu em Lisboa, a 15 de março de 1957, mas saiu cedo do País. Como é que decidiu ter essa aventura?
- Em 1975, o Conservatório fecha por falta de verbas, tinha acabado o segundo ano, e a única maneira de estudar seria entrar num grupo de teatro. E a minha ideia sempre foi fazer cinema...
- É aí que parte para Viena?
- O meu pai tinha um dinheiro que nos dava quando acabávamos o liceu para comprar um carro. Disse-lhe que preferia fazer uma viagem, queria ir à procura de um sítio para estudar. Comecei a dar uma volta, a ideia era ir ter com o meu irmão, que estava a estudar em Liverpool. É claro que nunca lá cheguei. Estive em Itália, fui até à Jugoslávia, e acabei na Áustria...
- E ficou lá um ano…
- Quando cheguei telefonei ao Victorino d’Almeida. Fomos almoçar, e ele disse: ‘Porque é que não ficas lá em casa?’. Arranjou-me emprego e acabei por ficar, casei com a minha primeira mulher, a Andrea, que era húngara. Ela tinha uma bolsa para a Juilliard, em Nova Iorque. E foi assim…
- Teve sempre o apoio familiar?
- Tinha sido expulso (risos) de muitos liceus e para os meus pais era mais ‘olha, agora este quer ser ator’. Até que, quando estava na Áustria, os meus pais vieram visitar-me. Tinha 18 anos e o meu pai perguntou-me o que queria fazer e disse-lhe ‘quero ser ator’. Como a Andrea ia para Nova Iorque, o meu pai disse: ‘Vou ver no que te posso ajudar’. Fez as contas, e disse ‘dou-te tanto durante quatro anos’. Não dava para muito, mas dava para pagar a escola, porque o Strasberg era caro…
- Chega a Nova Iorque em 1976...
- Em outubro. Fui estudar, primeiro inglês, seis horas por dia.
- Ao mesmo tempo, ia tendo pequenos papéis no teatro…
- Ao fim de estar lá quatro meses, inscrevi-me no Strasberg. Entretanto, comecei a trabalhar em bares porque o dinheiro não dava para tudo…
- Como foram esses tempos, até surgir o primeiro papel…
- Foram três, quatro anos. Comecei a fazer teatro independente, que não era pago, para ganhar experiência. Foi assim que uma casting diretor da Paramount me viu numa peça de teatro. Fomos beber um copo a seguir e ela disse: ‘Não gostei muito da peça, mas achei piada ao que fizeste, porque é que não vens falar comigo?’. Fui vê-la e disse-me para ir ver uma série de agentes, a quem ela tinha telefonado de antemão. A primeira agência mandou-me para duas audições no mesmo dia, para o filme ‘O Soldado’ e para um anúncio da Cadbury Chocolate. Saí de lá com o anúncio e o filme. E a partir daí, como se diz, ‘it’s history’. No ano a seguir ao ‘O Soldado’, tive já um grande filme…
- ‘Honorary Consul’, com o Richard Gere, Michael Caine…
- Aprendi muito a ver o Michael Caine trabalhar, e com o John Mackenzie, um realizador escocês, que tinha muita paciência. Eu era inexperiente. Demo-nos bem e funcionou. Mas mesmo aí continuei a trabalhar no bar…
- Como foi começar a contracenar com grandes estrelas?
- O Michael Caine… primeiro tínhamos de fazer a cena do rapto. Ele ainda não tinha chegado e fizemos a cena com um duplo. Achava o duplo enorme, não tinha a ideia de que o Michael Caine era grande e diziam-me que ele era ainda maior. O Michael Caine tem um metro e noventa e tal. Ele tinha na altura 53 anos, eu 25. Olhava para ele, aquele ator já com muita experiência, com uma certa idade…
- Mais ou menos a sua idade agora…
- Estou nos 55 e às vezes vejo-os a olhar para mim com aquele… com o mesmo ar. A vantagem de certa idade é que agora, quando vou fazer de artista convidado em séries de TV, há um certo respeito por uma pessoa que fez cinema durante muitos anos…
- Antes de ter os primeiros papéis, alguma vez lhe passou pela cabeça voltar para Portugal, desistir?
- Não. Nessa altura vinha a Portugal uma vez por ano. Não me passava pela cabeça. Nova Iorque até tinha perigo, mas era uma cidade cheia de energia. Com vinte e tal anos adorava Nova Iorque e nunca fiz a mínima ideia de voltar para Portugal.
- Em 2005 obteve a nacionalidade americana...
- Não obtive antes por preguiça...
- Mas em 2005 porquê?
- A minha carta verde era para a vida, mas na fronteira disseram-me que a minha fotografia já não se parecia comigo, e não parecia. Tinham-me avisado uma vez e disseram ‘agora é a última vez, se não muda a carta verde não entra’. Para estar a mudar a carta verde, vou pedir a nacionalidade. Foi muito fácil. Deram-me estatuto de pessoa pública, nem sabia que havia...
- O que mudou?
- Agora é mais simples, não tenho de estar a explicar onde estive, quanto tempo é que estive. Agora chego e é: ‘Welcome home’. Continuo a sentir-me muito português, não me sinto minimamente cidadão americano, se bem que voto lá. Nunca votei em Portugal, saí de cá aos 17 anos, nunca me recenseei. E estávamos com o Bush no Governo e era mais um voto Obama.
- É um apoiante de Obama?
- Com certeza!
- Trabalhou com Harrison Ford, Gene Hackman, Kim Basinger, Antonio Banderas, Benicio del Toro, Kiefer Sutherland… Quem são os seus melhores amigos no mundo da representação?
- Sou um outsider em Hollywood, não vou às festas. Os meus amigos dentro do negócio são mais diretores de fotografia, realizadores. Sou amigo de alguns atores que entraram comigo em alguns filmes. Com o Richard Gere, ele tinha uma namorada brasileira, que era a Silvinha Martins, e dávamo-nos mais. Com o Banderas dei-me durante algum tempo. Mas passa…
- Porquê?
- Para já, eu vivia em Nova Iorque e passo muito tempo fora, porque a minha carreira tem sido muito também na Europa. No ano passado fiz dois filmes no Brasil e criei uma série de amigos. Já conhecia o José Wilker, até de Nova Iorque, do restaurante O Pão, um português ao pé de minha casa. Não me dou muito com atores, são um bocado chatos, falam muito deles próprios. Que é que estou a fazer, porque sou obrigado (risos), não sou de dar muitas entrevistas…
- Como é que a vida de ator influencia a vida familiar?
- Quando quis ter filhos, foi a seguir ao problema da sida, tinha 33 anos. Quando a sida apareceu em grande ficámos todos cheios de medo, porque tínhamos uma vida... Naquela altura não se pensava na sida, tinha de se mudar o estilo de vida. Resolvi ter filhos em Portugal. Os meus filhos são portugueses, de mães portuguesas. Tinha a certeza de que acabaria os meus dias aqui, não digo que vou acabar em Portugal, um gajo sabe lá onde vai morrer…
- Tem dois filhos (Ana, 10 anos, e Lourenço, 19 anos). Como é a vossa relação?
- É uma relação à distância, mas sou um pai muito presente. Com o Lourenço falo quase todos os dias no Skype. Ele está na Escócia, em Glasgow. Com a Ana falo pelo menos três vezes por semana. Há muitos pais que se calhar vivem cá com os filhos e estão menos tempo com eles.
- Gostava que algum deles seguisse a sua carreira?
- Nem por isso. As pessoas dizem o gajo teve uma carreira boa, fiz dinheiro, mas muitas pessoas não fazem. Felizmente, em Portugal, a televisão deu toda uma nova vida a uma geração de atores. Mas agora estamos a passar uma crise em que não há dinheiro para o teatro, para o cinema… Não se consegue viver do teatro, nunca se conseguiu viver do cinema. E temos agora uma geração fantástica. Trabalhei com vários jovens que são bons. Há uma série de novos atores que estão a tentar.
- Recebe pedidos de ajuda?
- Recebo, encontro-me com eles, dou conselhos…
- Pode contar algum exemplo?
- O Francisco [Froes], que fez aqui os ‘Morangos’, a Leonor Seixas, a Benedita [Pereira], estão lá vários. Escrevi cartas de recomendação para terem vistos, alguns conseguiram, o Francisco está à beira de conseguir a carta verde. Tem muito talento e gosto muito dele. Por exemplo, a Daniela [Ruah] tem a vantagem de ter passaporte norte-americano…
- Tem dupla nacionalidade, nasceu em Boston…
- E estudou na escola americana, não tem sotaque a falar inglês. Mas para outros é mais difícil.
- Como vê a Daniela?
- Encontrei-a exatamente neste restaurante, há muitos anos. Foi o Luís Silva, que era dono da Lusomundo, que me apresentou. Dei-lhe conselhos para ir estudar, foi para o Strasberg, como lhe disse, e depois apresentei-a à minha manager. Fez um contrato de sete anos, a série anda bem, está a ganhar bem, mas o problema não é o ganhar. A série acaba, e depois? Devia tentar fazer filmes nas férias, mas é difícil. Ela está bem, precisa é de não ficar queimada de estar tantos anos naquela personagem, o que acontece muito em televisão, mas como ela é muito nova é capaz de não suceder.
- Com que realizadores e atores gostava de trabalhar?
- Sei lá… Este ano pensei que ia para a República Checa fazer um filme com o Morgan Freeman e acabou por não acontecer, estava entusiasmadíssimo… Nunca sei responder quem é o ator que mais gosto, por exemplo o Daniel Day-Lewis é um ator extraordinário, o Michael Caine continua a ser excelente, o Christian Bale… Quem é que não gostaria de trabalhar com a Meryl Streep? Depois, há aquelas giras, e que são boas atrizes...
- Contracenou com a Kim Basinger, um dos símbolos sexuais de Hollywood…
- Trabalhei agora, já com ela mais velhota (risos), tem 53 anos. Foi engraçado... Fui-me apresentar e ela disse: ‘Segunda temos de trabalhar e vamos ter de estar nus’. Logo na primeira cena tínhamos de nos beijar e essas coisas, somos profissionais, faz-se e acabou. Trabalho é trabalho. Agora, quando tinha trinta e tal anos e trabalhava com atrizes giríssimas… Ninguém é feito de pau… Um gajo excitava-se (risos). Hoje, com 55, tudo bem. Agora estive num filme brasileiro e tinha de estar metido na cama com uma atriz de 29 anos e nus e um gajo, digo outra vez, não é feito de pau...
- São cenas mais complicadas?
- Com a Kim Basinger não foi complicado de maneira nenhuma, já fez tantos filmes em que esteve nua. É profissional, tem muitos anos de experiência.
- Como é que a crise afeta o dia a dia de um ator?
- Cada vez nos querem pagar menos. Dizem que gastam o dinheiro todo com os outros, com os atores de vinte milhões...
- Cada vez mais vemos grandes atores passarem do cinema para a televisão…
- Adorava conseguir uma série de 13 episódios, porque cinco meses no ano… É fantástico.
- Os seus cachets também estão a ser diminuídos…
- Sim, mas depois são aumentados na televisão. Perdes de um lado, ganhas do outro.
- É um homem rico?
- Já estou a trabalhar há muitos anos. Tenho uma casa lá, uma cá, tenho dinheiro no banco. Não posso dizer que não, sobretudo para Portugal. Agora, não sou nada comparado com certos políticos portugueses que se encheram aí. Ganhei bem a minha vida e continuo a ganhar.
- Parte do seu pecúlio também tem a ver com a televisão, tem entrado em muitas das principais séries dos EUA…
- Nas séries televisivas há o ‘top of the show’. Eu não trabalho para o ‘top of the show’, trabalho acima. Se querem pagar, faço, se não querem, não faço. Mas o dinheiro das séries não é feito nas participações, é quando és regular, porque no primeiro ano ganhas tanto, no segundo aumenta…
- Mas tem feito, sobretudo, participações…
- Sim, porque nunca quis fazer regular, agora é que começo a estar mais aberto.
- Mais de 24 episódios não…
- Não, porque são dez meses do ano, não sei quantos anos, a fazer a mesma personagem. É duro, fica-se muito rico, mas não preciso de tanto dinheiro para viver bem.
- Quanto é que pode valer uma participação especial?
- Depende do tempo que se está lá. É tudo relativo. Por exemplo, nos ‘Sopranos’, no último ano, o James Gandolfini estava a ganhar um milhão por episódio.
- Qual foi o projeto em que lhe pagaram o maior cachet?
- Tem a ver com o tempo de trabalho. Normalmente, os filmes de estúdio são os que pagam mais. O maior cachet em relação aos dias que trabalhei deve ter sido o ‘Fast Five’ [‘Velocidade Furiosa’]. Estive em férias pagas. Estive em Porto Rico, na praia, um mês e tal, pagaram à minha namorada para lá ir. Trabalhei quatro dias em Porto Rico e quatro em Atlanta.
- Qual foi o projeto mais marcante para si?
- O que me mudou a carreira, que foi o ‘Bom-dia, Babilónia’, dos irmãos Taviani. Foi o meu primeiro papel principal importante. Há outros que me deram imenso prazer, como ‘El Rey Pasmado’. Há uns que marcam mais, outros menos. Há uns que não deram prazer, que o guião parece ótimo, atores ótimos e depois não resulta.
- Em muitos filmes nos EUA interpreta vilões. Já disse que gosta de fazer de mau da fita, mas não está cansado?
- Já estive, agora dá-me imenso jeito. Pagam bem e fazer o mau da fita é divertido. Nos EUA sou reconhecido na rua por ser o vilão e as pessoas adoram o vilão.
- Mas gostava de ter convites para outros papéis?
- Gostava, e tenho feito, mas são filmes independentes, que não saem cá.
- Em Março vai fazer 56 anos. Já pensa na reforma?
- Reforma não, reformado ando eu desde que comecei a trabalhar. Esta profissão é um bocado uma reforma. Estive anos e anos a fazer quatro filmes por ano. Tempo livre temos nós. Quero continuar a trabalhar até poder. Se fizesse televisão todos os dias começava a pensar na reforma a sério. E com o dinheiro que se faz na televisão, se trabalhar sete anos numa série não é preciso trabalhar mais na vida.
"ESTAVA FARTO DA CIDADE. RARAMENTE VOU A LISBOA"
Nos Estados Unidos, trocou Nova Iorque por Santa Monica, em Los Angeles, e em Portugal deixou Lisboa por Sintra. Uma decisão motivada por se sentir cansado da cidade.
"Estava farto de Nova Iorque, os invernos de Nova Iorque… Quando aluguei a casa na praia [durante as filmagens de ‘24’], comecei a pensar que podia viver ali, comecei à procura de uma casa, pus o meu loft à venda e olha, estava na Florida a filmar, a falar com o advogado, e vendi e comprei." Em Portugal, a decisão foi a mesma, depois de uma casa na Costa do Castelo, e de outra na rua do Quelhas, decidiu "finalmente" mudar-se para Sintra. "Estava farto da cidade. Raramente vou a Lisboa."
Joaquim de Almeida diz que agora gosta "das coisas mais calmas" e a leitura e a praia são duas paixões. "Gosto muito de ler, devoro livros. Estou em Santa Monica, na praia, com a idade cada vez saio menos, gosto mais de ler, e às festas cada vez vou menos", conta o ator, que tenciona continuar a dividir o seu tempo entre Santa Monica e Sintra.
"Gosto de estar o inverno lá. Agora gostava mais de estar cá nesta altura, mas não posso, quero continuar a trabalhar e preciso de lá estar. A minha filha tem dez anos. Daqui a uns anos a minha filha é teenager, não vai querer ficar em Sintra, vai querer ficar em Lisboa com a mãe porque tem de sair à noite. Depois, vão para a universidade e quero é estar na Califórnia, com os meus amigos, na praia, ou aqui. O verão aqui e o inverno lá", diz.
"ANDAM A CORTAR REFORMAS PARA PAGAR O BANIF?"
Atento à crise que Portugal atravessa, Joaquim de Almeida é muito crítico para com os políticos nacionais. "É desgastante continuar a ver que a Justiça não funciona", diz o ator, reclamando uma justiça à americana: "O Madoff apanha 150 anos. Se calhar alguns aqui deviam apanhar 150 anos. Andam a cortar as reformas para pagar o BANIF? Para pagar os milhões que os outros roubaram?", questiona Joaquim de Almeida, que confessa que fica "transtornado" com a situação.
"Os políticos têm telhados de vidro. E como têm todos telhados de vidro não querem pôr os outros em tribunal." Assim, diz, é preciso "alguém com tomates que ponha os responsáveis em tribunal". "O dinheiro desapareceu e os portugueses é que têm de andar a pagar o roubo? E eles nem sequer vão para tribunal? Não percebo. Temos um em casa com uma bracelete, e os outros parece que foram passar o fim de ano ao Brasil… É indecente". "Os políticos que estiveram no Governo do dr. Cavaco Silva são os mais corruptos, os que mais roubaram neste País", conclui.
NOTAS
NICOLAU
Nicolau Breyner "faz tudo e é um ator fantástico. Seria um excelente ator de cinema, se pudesse viver só de cinema".
2013
‘Tres60’ , ‘La Cage Dorée’, ‘Velhos Marinheiros ou o Capitão de Longo Curso’ e ‘Brasil Vermelho’ estreiam este ano.
NEGA 'CSI'
O ator recusou uma participação em ‘CSI’ porque iria chegar atrasado a Portugal, mas convite será renovado.
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