Jodie Foster regressa ao terror psicológico
Há três anos Jodie Foster era uma mãe enclausurada entre quatro paredes, a tentar desenvencilhar-se de ladrões que lhe assaltaram a casa à procura de uma fortuna escondida, sempre sob a ameaça de ver a vida da filha (que a acompanhava no tormento) esfumar-se diante dos seus olhos.
A ‘Sala de Pânico’, esse thriller que a lançou novamente para o domínio do terror psicológico, sucede ‘Flightplan - Pânico a Bordo’, a estrear em Portugal na próxima quinta-feira.
As semelhanças entre os dois filmes não se ficam pelo nome. Um e outro colocam-na em idêntica posição de fragilidade enquanto personagem. E se no primeiro a actriz que guarda dois Óscares da Academia na estante tinha os pés bem assentes no chão, agora a acção decorre no ar. O medo, percebe-se desde início, encontra-se acima das nuvens.
A acção decorre a 37 mil pés de altitude, num longo voo intercontinental entre Berlim e Nova Iorque. É aí que Kyle Pratt percebe que a filha desapareceu sem deixar rasto. Viúva há pouco tempo, inicia então uma busca frenética e desesperada por encontrá-la. O que terá acontecido? Será que a criança nunca chegou a embarcar? Nenhuma das hospedeiras se lembra de a ver e o seu nome não faz parte da lista de passageiros da companhia responsável pela viagem, levantando outra questão: será tão misterioso desaparecimento obra da tortuosa imaginação de uma mulher dilacerada pela dor?
Tudo leva a crer que a menina jamais colocou os pés dentro do avião, mas tanto o piloto como o co-piloto não querem pôr em causa a palavra de Kyle. Assim, além das dúvidas e tormentas que invadem a alma de uma mãe encurralada e à beira da loucura, surgem os dilemas relativamente à credibilidade que os outros passageiros possam ter para resolver um mistério sem fim à vista.
O drama aumenta a cada milha, e com a aproximação à ‘cidade que nunca dorme’ a claustrofobia daquele espaço exíguo torna-se cada mais insuportável.
Jodie Foster conhece como poucas actrizes essa sensação, transmitida também ao espectador em ‘Sala de Pânico’ e, de forma muito mais sublime, no incontornável ‘O Silêncio dos Inocentes’. A película onde desempenhava o papel de Clarice Starling, investigadora do FBI às voltas com um tão charmoso quanto terrível ‘serial killer’, acaba mesmo por ficar agarrada à sua pele. Passaram 14 anos desde então mas hoje, apesar da participação noutros géneros, do western em ‘Maverick’ ao drama em ‘Nell’, poucos se lembrarão dela noutro desempenho.
O reputado produtor Brian Grazer, responsável pelo patrocínio (leia-se investimento) de obras como ‘Uma Mente Brilhante’, ‘8 Mile’, ‘Dentro de Garganta Funda’ e ‘Cinderella Man’ sabe disso, daí tê-la convidado para o papel principal em ‘Flightplan - Pânico a Bordo’.
Contudo, a escolha do elenco não se fica pela actriz de 42 anos com talento para personagens complexas, a atravessarem dramas interiores. No rol dos eleitos estão também Peter Sarsgaard, Sean Bean, Kate Beahan e Erika Christensen – esta última representa mesmo a tentativa de fazer o filme chegar a duas gerações distintas de cinéfilos, dado tratar-se de uma jovem que apesar de contar apenas 23 anos, muito tem dado que falar em Hollywood nos últimos tempos.
Apesar de muito mais velho, Robert Schwentke pretende seguir-lhe os passos. O realizador alemão assina aqui o seu primeiro filme norte-americano, apostando forte na tentativa de romper com as fronteiras germânicas e, tal como no trajecto do avião onde decorre toda a acção, aterrar por uns bons tempos do outro lado do Atlântico.
Aos 37 anos e já treinado neste género de películas, ou não tivesse dirigido ‘Tattoo’ em 2002 – uma espécie de ‘Seven’ em versão independente –, é bem provável que consiga tão ambicioso intento. É que Schwentke tem dois novos filmes em fase embrionária: ‘The Deep Blue Goodbye’ e ‘Runaway Train’, ambos financiados pelos muitos milhões de dólares das grandes produtoras da sétima-arte. Pelo menos para ele, a viagem pelos céus com Jodie Foster neste ‘Flightplan - Pânico a Bordo’ já valeu a pena.
FOSTER NO REINO DO MEDO
'OS ACUSADOS' - 1988
Sarah Tobias é vítima de violação e pede a ajuda de uma advogada para a defender em tribunal contra os três agressores. Baseado numa história verídica que envolveu a comunidade portuguesa nos EUA, o filme foi muito badalado.
'O SILÊNCIO DOS INOCENTES' - 1991
Jonathan Demme realizou de forma magistral esta película sobre a ligação entre uma jovem investigadora do FBI e um ‘serial killer’ que lhe pode dar pistas relativamente a outro assassino. Jodie Foster ganhou o Óscar pelo desempenho.
'SALA DE PÂNICO´- 2002
Fechada numa divisão da sua própria casa e à mercê de três assaltantes, Meg Altman e a filha procuram escapar da morte quase certa. O filme marcou o regresso da actriz ao suspense após alguns anos a experimentar outros géneros.
Não se amedronta com facilidade, acompanha a carreira de Jodie Foster e ainda se lembra do seu desempenho como investigadora do FBI em ‘O Silêncio dos Inocentes’.
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