Kika Magalhães: “Nem o Brad Pitt sabe o que fará a seguir”
Nasceu em Famalicão e vive em Nova iorque. Nos EUA dizem que “é uma estrela emergente”. Por cá ninguém a conhece
Um monstro cinematográfico para a posteridade", "uma estrela emergente" e "talento-revelação" foram apenas algumas das críticas com que a imprensa americana – nomeadamente as revistas ‘Esquire’, ‘Variety’ e ‘Rolling Stone’ – brindou a portuguesa Kika Magalhães, de 31 anos, depois do filme ‘The Eyes of My Mother’ estrear no Festival de Cinema Sundance, nos Estados Unidos. A atriz que em Portugal nunca conseguiu mais do que pequenos papéis está em Nova Iorque há quatro anos a lutar pelo sonho de Hollywood.
Estava à espera deste ‘surruru’ à volta do seu nome no festival Sundance?
Sempre achei que o filme era bom mas nunca pensei que escrevessem estas críticas sobre mim, nem de assinar contrato com uma das maiores agências dos EUA.
Como surgiu o contrato?
O filme passou quatro vezes no festival e passados dois ou três ‘screenings’ comecei a receber contactos de agências e managers interessados em trabalhar comigo e os produtores do meu filme disseram para esperar mais um bocado porque podia haver melhores agências e melhores managers. Esta manager acabou por me contactar e quando falei com os produtores, eles disseram: ‘tens de ficar com essa, é das melhores, assina já, assina já’.
O que distingue um bom contrato?
Neste caso o que pesou foi a agência, que trabalha com filmes e atores muito bons, um deles é o Ryan Gosling.
Foi difícil chegar aqui ?
Eu sou de Famalicão, que é uma cidade pequenina perto do Porto e só o facto de ter vindo para Nova Iorque já foi muito difícil. Sempre quis lutar pelos meus sonhos [emociona-se] mas nunca pensei que sonhos tão grandes se fossem realizar.
Era a menina que representava na casa da avó…
Sim, com os amigos. Tínhamos uma pequena câmara e fazíamos uns filmes palermas. Em Portugal, tentei novelas e fiz cursos de teatro mas nunca consegui nada.
Chegou a participar nos ‘Morangos com Açúcar’ que é considerada uma escola de atores em Portugal.
Sim, tive um papel pequenino na segunda série, andava à procura de um sapato.
Por que razão não lhe re-conheceram o talento em Portugal?
Acho que as coisas também acontecem por um motivo e se tivesse conseguido o reconhecimento em Portugal provavelmente não me teria esforçado tanto para vir para aqui. Mas confesso que nessa altura era muito nova e não tinha a mínima ideia do que representar era.
Mas não vai de Famalicão para Nova Iorque...
Estive quatro anos em Lisboa a estudar Ciências da Comunicação, a minha família queria que tirasse um curso. Depois mudei-me para Londres porque faltava alguma coisa na minha vida que eu não sabia bem o que era. Vivi numa casa ocupada, era mais viver a vida, foi o ano mais louco.
E depois de Londres?
Apaixonei-me e mudei-me para Espanha. Lá comecei a trabalhar como dançarina, mas não era go-go dancer, era performer.
Como foram os primeiros tempos em Nova Iorque?
A primeira vez que me mudei para Nova Iorque eu nem sequer sabia onde ia dormir. Fui para a escola Neighborhood Playhouse, tinha o visto de estudante, mas quando saí da escola foi mais difícil, porque tive que me fazer à vida e trabalhar imenso para conseguir o visto de artista. O mais complicado era provar ao governo que tinha trabalho como atriz para os próximos três anos. Imagino que nem o Brad Pitt saiba o que vai fazer nos próximos três anos.
Como pagava as contas?
Trabalhava em restaurantes a servir às mesas. Qualquer artista a não ser que tenha uns ‘papás’ ricos tem que trabalhar nos restaurantes.
E quando é que a sorte começou a mudar?
Há uma revista que se chama ‘Backstage’ que publica todas as semanas castings e lá falava de uma ‘open cal’ – que é um casting a que toda a gente pode ir, para um filme chamado ‘City of Gold’, produzido pelo Gus Van Sant. Na minha cabeça pensei: ‘se eu conseguir um papel com duas linhas vai-me ajudar imenso no visto’. No último casting telefonaram-me a dizer que eu estava a ser vista para um papel mais pequeno porque ainda tinha um bocado de sotaque mas quando cheguei lá o diretor viu-me e disse: ‘eu quero esta miúda mas é para o papel principal’.
Foi o primeiro sinal...
Depois conheci um produtor que me pediu para entrar noutro filme chamado ‘Tapestry’ onde trabalhei com o Stephen Baldwin e com o Burt Young. No ‘City of Gold’ era uma princesa que tentava sobreviver num país em guerra e no ‘Tapestry’ uma mulher de 40 anos, mãe de quatro e cheia de problemas no casamento.
No início teve problemas que a aceitassem?
O diretor era a única pessoa que me queria para o papel.
Porquê?
Por ser muito nova e estar a representar uma mulher muito mais velha. Mas depois mudaram de ideias… normalmente antes de entrar em filmagens os atores e os produtores sentam-se a uma mesa a ler o guião e depois de me verem gostaram muito.
O que tem de especial?
Talvez seja a minha paixão, talvez goste tanto de fazer isso que me transformo perante as câmaras. No ‘The Eyes of My Mother’ estávamos a noite toda a filmar, eu tinha fome, frio e sono mas assim que eles diziam ‘ação’ eu deixava de sentir essas coisas todas. No ‘City of Gold’, as condições não foram fáceis. Em produções de Hollywood a chuva e isso tudo é tudo feito e se calhar os atores estão é a apanhar água quentinha de uma máquina mas eu estive com o meu rabo numa poça de água quatro horas.
Sonha com Hollywood?
Desde sempre. Sonho entrar em filmes ‘mainstream’, não quero criar mais expectativas porque já criei muitas no passado e nada aconteceu.
Foi-se abaixo?
Imensas vezes. Trabalhei nestes dois filmes independentes, pouco dinheiro a ganhar, muito trabalho. Muita gente diz: tens sorte, mas e o trabalho todo que tive até chegar aqui?
Estamos habituados a ouvir falar da Daniela Ruah em Hollywood.
A Daniela Ruah tem imenso talento mas imagino que o percurso dela tenha sido mais fácil, porque ela já tinha nacionalidade americana e isso abre muitas portas.
Como estão os seus pais a lidar com isto?
Eles nunca pensaram que o meu interesse pela representação fosse uma coisa séria.
Já precisou da ajuda deles para sobreviver?
Sem eles não conseguia. Sempre quis ser eu a pagar as contas mas era impossível. Ter um trabalho num restaurante e ir a castings, como é que a pessoa conjuga? Estava sempre a ser despedida.
Agora, não vai ter tantas preocupações...
Neste momento não tenho muito dinheiro, vamos ver. A manager vai-me chamar para castings mas tenho de conseguir os trabalhos. Ela não me vai pagar só para ir a castings.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt