Ljubomir Stanisic: “Portugueses acham que sou exótico”
O chef de cozinha jugoslavo, que chegou a Portugal em 1997, já tem alma de português, mas avisa que, se a vida lhe correr mal, também ele sai do país. E Escolhia cozinhar em Angola ou na China
Nasceu em Sarajevo. Ljubomir Stanisic, 34 anos, será sempre jugoslavo. Em 1994, iniciou um curso de Química da Alimentação em Belgrado. Depois, fugiu da guerra percorrendo a Europa. Em 1997, chegou para ficar em Portugal. Tem três restaurantes ‘100 maneiras’ abertos em Lisboa.
"Trata-me por tu, não compliques" – disse o chef Ljubomir Stanisic logo no primeiro contacto, ao telefone. Razão pela qual a entrevista segue na primeira pessoa. E não acontece porque o próprio admite ser "autoritário", mas sim por uma qualidade sua: é genuinamente simpático. É uma pessoa emotiva. Tem sempre a seu lado a mãe, Rosa, para o compensar pela separação no tempo da guerra. Ljubomir não esquece a infância, ainda se vê de kalashnikov na mão. Hoje é possível vê-lo na televisão, com o programa ‘Papa-Quilómetros’ (no canal por cabo 24 Kitchen), a desvendar tradições gastronómicas.
A resposta escolhida surge a sublinhado
- Comecemos por um lado excitante: o sexo serve também de inspiração para a tua cozinha…
a) São desejos
b) Vejo sexo e cozinha em tudo à minha volta
c) O que há de mais natural senão sexo e comida?
- E agora o anticlímax: chegaste a espetar um garfo na mão de um cozinheiro brasileiro. Gritas muito na tua cozinha, és agressivo. Porquê?
a) A cozinha é um cenáriode guerra
c) Tenho traumas de guerra, por isso ninguém grita mais alto do que eu!
- Já que és muito emotivo, explica porque é que a tua mãe Rosa está sempre por perto?
a) É uma compensação emocional em relação à nossa separação, por causa da guerra
b) Até eu sinto falta da cozinha da minha mãe
c) Também tenho falta de mimos
- Serás sempre jugoslavo, como já disseste em várias entrevistas. Que memórias tens de infância?
a) Ainda me vejo miúdo de kalashnikov na mão
b) Não tive infância, cresci depressa
c) Vivo a infância dos meus filhos; essa passou a ser a minha também
- Já foste antes à falência. Conheces bem o peso de ficar sem nada. A restauração hoje enfrenta problemas graves. Qual é a tua situação?
a) Estou a ganhar bom dinheiro na restauração
b) Vou ter de rever em alta os preços do meu menu
c) Se tudo correr mal, também eu saio de Portugal. Vou para a China ou Angola, talvez
- Nunca quiseste fazer televisão mas foste parar ao Masterchef (RTP) e depois no canal por cabo 24 Kitchen, com ‘Papa-Quilómetros’. Que te aconteceu?
a) Gostei de me ver na televisão
b) A seguir ao desafio do Masterchef, achei interessante mostrar as tradições da culinária e dos produtos de várias localidades
c) Já me arrependi…
- Qual é o segredo para o sucesso dos teus pratos?
a) É como o pastel de Belém, não divulgo os ingredientes secretos
b) Aproveito o que este país tem de melhor. Já percorri Portugal de lés a lés para escrever o livro ‘Papa-Quilómetros’ e isso faz com que conheça os melhores produtos e tradições
c) Os portugueses acham que eu sou exótico
- A tua fama persegue-te, presumo. Quem é que te pede trabalho?
a) Há chefs famosos portugueses a quererem ser meus empregados
b) Já me bateram à porta ex--concorrentes do Masterchef
c) Jugoslavos pedem-me trabalho
d) Outra hipótese: jornalistas no desemprego pedem-me trabalho
- Em casa também cozinhas?
a) Sim, é em casa que faço as minhas experiências
b) Claro que não. Em casa deixo de ser cozinheiro
c) Se não estou no ‘100 Maneiras’, prefiro ir comer fora
- Para qual das personalidades políticas gostarias de cozinhar e de te sentares à mesa para jantarem juntos?
a) Jantava e explicava a Vítor Gaspar que estamos a sofrer na restauração
b) Não gosto de quem está no poder, convidava o líder socialista António José Seguro
c) Se for político, prefiro que seja mulher: Manuela Ferreira Leite
d) Outra hipótese: A política é uma p*** e vira para o lado que lhe der dinheiro. Como não frequento bares de alterne, prefiro cozinhar para os meus clientes!
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