Lobisomem
‘O lobo de Wall Street' pode não ficar para a história, mas Scorsese continua em grande forma e mostra como ninguém o poder do dinheiro<font face="BentonSans-Light" size="2"><font face="BentonSans-Light" size="2"></font></font>
Não será com ‘O Lobo de Wall Street' que Scorsese ficará para a história do cinema. Mas esta sua última longa-metragem obriga, pelo menos, a pensar sobre o papel e o valor do dinheiro.
Era Voltaire que aconselhava a que não pensássemos que o dinheiro resolve tudo, senão acabaríamos a fazer tudo pelo dinheiro. É essa vertigem, esse sugador voraz e ávido, que ‘O Lobo' retrata.
O filme baseia-se numa história real, a de Jordan Belfort, um jovem de classe média que quer ser um potentado de Wall Street. E consegue. Pelo meio acontece tudo o que Sófocles descreveu: o dinheiro faz com que os homens deixem as suas casas e transforma em desertos as cidades. Belfort, como ele próprio afirma, bebe mais do que um peixe, consome mais drogas num dia do que toda a Manhattan num mês e tem mais sexo numa semana do que o praticado numa coelheira num ano inteiro.
O EFEITO DO DINHEIRO
Só que o dinheiro, como tem sido investigado, tem outros efeitos sobre os seus detentores. Caso contrário não seria tão cobiçado. Projetamos no dinheiro tantas características mágicas - por exemplo, falamos dele como um ser vivo/sagrado ("fazer dinheiro"; "multiplicar dinheiro"; "o dinheiro cresce") - que ele pode mesmo tomar traços alquímicos, transformando os fracos em poderosos e os mal-amados em populares. Aliás, está amplamente demonstrado que lidar com dinheiro (lidar no sentido literal, como apenas contar notas) reduz a frustração resultante da interação social menos positiva e pode mesmo diminuir a dor física. Imagine-se o resto.
A massa, o cacau, a pasta, ativa exatamente a mesma área cerebral que a cocaína e a paixão, comportando-se, portanto, como uma droga, o que pode levar à ambição de querer mais dinheiro só pelo dinheiro. Não é droga, loucura, morte como o ingénuo slogan dos anos 60, mas sexo, dinheiro, droga como a neurociência indica.
Belfort adequa-se completamente a uma passagem de um livro da brasileira Elvira Vigna em que consta: "Ele podia meter o pau dele em qualquer buraco, só porque podia. Ele fazia porque podia. Assim simples. Assim capitalista. Assim quanto-mais-melhor. Assim burro." Numa entrevista, essa escritora explicava que esse excerto diz respeito a uma atitude cumulativa e destrutiva, logo burra: "Você quer mais capital e o acumula enquanto pode porque pode. Não porque queira ou porque precise. Mais um carro, mais uma casa de veraneio, mais um avião ou mais uma boceta." Porque pode. Esta distinção é fundamental para entender os Belforts deste mundo: não porque queira ou precise, mas porque pode - não há desejo ou necessidade. Há apenas poder. E isso basta-lhes. Ora, um ser humano sem necessidades nem desejo talvez não seja um ser humano mas antes e simplesmente um Lobo. Lá isso Scorsese consegue mostrar. D
RESUMO
A história verídica do corretor da bolsa de Nova Iorque Jordan Belfort, que passa do sonho americano à pura ganância empresarial. No final dos anos 80, Belfort passa de ações de pouco valor e dos ideais de justiça para a corrupção. O sucesso e a fortuna na juventude deram ao fundador da corretora Stratton Oakmont a alcunha de Lobo de Wall Street.
Título ‘O lobo de Wall Street' Intérpretes Leonardo DiCaprio, Margot Robbie em exibição nos cinemas
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