Loja encerrada (ou talvez não)
“A Carolina, desde que nasceu o Gui (o segundo rapaz), entende que lhe é devida uma irmã para brincar”
De vez em quando estou sentado no banco de um parque, com os miúdos a brincar nos escorregas e nos baloiços, e nesses breves momentos de respiração em que a felicidade de três crianças parece reduzir à insignificância todos os males do mundo, sinto-me (é um pensamento modesto) como Deus depois de ter feito céus e terra: olho para aquilo que eu e a minha espécie de Eva criámos e acho tudo muito bom. E não só bom – completo. Parece-me que está bem assim. Que aqueles três fazem sentido juntos. Que encaixam na perfeição.
Ora, esse pensamento tem como consequência prática um outro, menos dado à metafísica: eu entendo que já contribuí para a proliferação da espécie e para o futuro de Portugal, que não há-de ser por causa dos meus espermatozóides que a Segurança Social vai ao fundo e a reforma recua para os 60 anos, e que, portanto, já chega de filhos. Como se costuma dizer nesta terra, por mim, encerrei a loja. Só que tenho um problemazinho: a minha Eva insiste em manter a loja aberta.
A minha Eva, que se chama Teresa, quer ter mais um filho. Mais especificamente, quer ter mais uma filha. Mais especificamente ainda, quer ter uma filha chamada Rita, que a minha filha chamada Carolina já baptizou por antecipação. Eu, pelo meu lado, tal como Deus ao fim de sete dias de intenso trabalho, só quero sossego. Mas estou a braços com uma conspiração feminina cá em casa.
A Carolina, desde que nasceu o Gui (o segundo rapaz), entende que lhe é devida uma irmã para brincar. E faz comícios em forma de ilustração, insistindo em desenhar o nosso agregado familiar com seis membros, onde inclui a Rita imaginária. Ora, a minha excelentíssima esposa interiorizou de tal forma a reivindicação que se não formos um dia para o quarto fazer o quarto ela ficará para sempre com aquela sensação de lhe faltar alguma coisa na vida.
Eu bem lhe digo: "Teresinha, os nossos pais vivem a 200 quilómetros, nós já não sabemos para onde nos virar." E ela concorda com este argumento. Não temos, de facto, para onde nos virar. Cada vez que precisamos de ir às compras enchemos dois carrinhos de supermercado, um com comida, o outro com os três filhos. Mas isso – que é tanto – de súbito parece transformar-se em quase nada diante da visão beatífica do raio da Rita, que consegue o prodígio de me pôr a cabeça em água sem sequer precisar de nascer. É obra.
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