Made in China

As frases xenófobas de Alberto João Jardim e a crise no Vale do Ave são a ponta de um icebergue de mal-estar. No país dos brandos costumes, há portugueses de olhos em bico com a invasão de roupas e bijutarias chinesas. Viagem ao coração das ‘Chinatowns’.

10 de julho de 2005 às 00:00
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Um grupo de ciganas anafadas, atreladas a volumosos sacos de plástico, acotovela-se em fúria à caça dos ténis da moda no ‘Tony’s Calçado’, um dos cem armazéns chineses da Varziela, o parque industrial de Vila do Conde. A cinco euros o par, elas nem se dão ao trabalho de regatear. Vão vendê-los pelo triplo do preço na feira mais próxima. “Uma pechincha”, cochicham entre si.

As mãos gananciosas apoderam-se dos modelos mais vistosos, deixando de lado os que apresentam defeito ou cores fora da estação. Depois de tanto vasculharem, as prateleiras parecem ter sido varridas por um tufão, mas Tony Wang, um chinês de aspecto frágil que gere o amplo estabelecimento de revenda, limita-se a esboçar um sorriso esfíngico. São muitos anos de paciência oriental em cima dos ombros.

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A empregada portuguesa parece ter aprendido as suas lições ‘zen’, pois limita-se a passar o chão com uma esfregona, de cabeça baixa. Sem refilar. O telemóvel topo de gama de Wang, adormecido no balcão, não pára de tocar. Ele atende, desliga, envia SMS, atento às irrequietas feirantes. Com o aparelho ‘high tech’ colado à orelha, a língua afia-se, num chinês cerrado. Sai, por fim, para a porta do armazém, na movimentada Rua 7, onde há mais rede.

Durante longos minutos acerta os pormenores de mais um carregamento de calçado proveniente da China. As ciganas saem, entretanto, carregadas de ténis, dirigindo-se até ao barracão da frente num alegre lufa-lufa. Vão à caça de mais pechisbeques a preço de saldo. Wang acena-lhes à distância, depois de desligar o telemóvel. “O material é todo importado do meu país. Se viesse de Itália não podia vendê-lo por 5 ou 8 euros”, resume o empresário de 40 anos, num português esforçado, revelando que de dois em dois meses recebe novas remessas.

Wang não quer perder o passo acelerado ditado pelas tendências da moda. “É por isso que tenho aquela montanha de caixotes empilhados nas traseiras”, acrescenta, apontando para o arranha-céus de caixas e embrulhos. Em tempos, Wang suou estopinhas às mesas de um modesto restaurante chinês no Porto. Numa longa marcha de vinte anos acabou por se tornar num influente empresário deste ‘el-dorado’ oriental, mais conhecido como ‘Chinatown do Norte’. A chave do seu sucesso poderia vir escrevinhada num desses bolinhos chineses da fortuna: “A longa viagem começa por um passo.”

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DE OLHOS EM BICO

Qualquer semelhança com as ‘Chinatowns’ que pintam os filmes de Hollywood, de ruelas labirínticas carregadas de fumo denso e cheiros exóticos, estátuas de dragões e templos budistas ao virar da esquina, é mera coincidência.

Na Varziela, o que há de mais cinematográfico são os vistosos caracteres chineses, pintados nas paredes dos armazéns ou as lanternas vermelhas, penduradas em frente aos portões de metal. Pelas ruas descaracterizadas, típicas de uma zona industrial, grupos de vestes humildes que depenicam o arroz chau-chau das tigelas, cruzam-se com ‘yuppies’ de gravata a condizer com o cromado dos seus carros topo de gama - a sociedade sem classes de Mao Tsé-Tung há muito se tornou numa velharia ideológica.

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Estima-se que vivam por aqui cerca de 400 imigrantes, que dormem em barracões improvisados a que chamam de lar. É só acordar, lavar os dentes, passar os olhos pelo Jornal Sino - o único da comunidade chinesa - e dar dois passos até ao local de trabalho. A maioria, no entanto, faz o trajecto de carro entre o Mindelo e esta terra de ninguém. É difícil compreender porque escolheram a Varziela para plantar a sua embaixada não oficial em Portugal.

“Talvez porque esteja estrategicamente colocada entre o aeroporto e o Porto de Leixões de onde vêem os nossos produtos importados”, explica o empresário Nuno Zhu. Nascido em Portugal há 21 anos, herdou da mãe, Lina Yang, o espírito de negócio e o vício do trabalho. “Começo às dez da manhã e só saio à meia-noite. Nem aos domingos descanso. Há três anos que não tenho férias”, confessa.

Como recompensa, a sua empresa de ‘import-export’ vai de vento em popa. Só no ano passado, importou 300 mil peças de tops, calças e blusas, escoando-as para feiras e lojas chinesas de todo o país. “A nossa política de preços é agressiva. Temos uma margem de lucro muito pequena, mas nem toda a roupa é chinesa. Há muito material português”, explica o empresário, numa linguagem de gestor profissional.

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Há três anos, pagava 1500 euros por mês pelo armazém de 700 metros quadrados. Com a invasão dos concorrentes orientais a renda subiu exponencialmente nos últimos três anos. Os seus lucros acompanharam as despesas e recentemente Zhu alugou mais um armazém, com mais do dobro do tamanho. É onde costuma ter o Mercedes preto de vidros fumados estacionado à porta. “Dá uma imagem de respeitabilidade”, admite.

Este cenário de prosperidade contrasta com o espectro de depressão e desemprego que se vive no Vale do Ave. A poucos quilómetros de distância, as fábricas de têxteis fecham as portas ou deslocalizam-se para o extremo oriente. Patrões e sindicatos apontam o dedo aos chineses. “Somos o bode expiatório da crise que se vive no vestuário”, declara o jovem empresário, indignado.

Ele assistiu às recentes manifestações anti-chinesas mesmo à porta dos seus armazéns mas o clima de insatisfação não o impressionou. “É só um punhado de pessoas com interesse em nos esmagar. Não representam a população”. Embora compreenda as queixas, não considera estar a fazer concorrência desleal. Até porque também se sente chamuscado pelas labaredas do dragão.

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“A avalanche dos têxteis tem sido desmedida. É impensável que continuem a entrar milhares e milhares de peças de roupa na Europa. Vivemos uma situação em que os chineses já fazem concorrência entre si”, concede. “Mas a China é uma oportunidade de negócio. Não uma ameaça.” Zhu, que respira uma confiança atípica dos jovens da terceira geração de imigrantes, já adoptou todos os chavões do capitalismo.

BELAS PERNAS DE RÃ

No norte do país, onde residem quatro mil imigrantes chineses, circulam clandestinamente panfletos e cartazes a preto-e-branco de letras garrafais. A mensagem não deixa ambiguidades: “Boicote. O comércio e os produtos chineses. Ao comprar produtos chineses está a contribuir para a falência do comércio e da indústria nacional. Concorrência desleal. Desemprego e miséria.”

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Embora tenham o patrocínio do PNR, partido de extrema-direita, são um dos sinais evidentes de desconforto até agora escondido por camadas de verniz social. Na Varziela não há historial de confrontos entre as duas comunidades, mas à hora de almoço, por exemplo, é visível a separação territorial. Portugueses para um lado, chineses para o outro, evitando-se os cumprimentos de ocasião.

“Não estamos de costas voltadas”, garante Chow y Ping, dirigente da Liga dos Chineses em Portugal, embora reconheça que o clima esfriou entre os dois povos. “A culpa talvez seja da liberalização do comércio têxtil e do calçado em Janeiro deste ano.” As estatísticas dão-lhe razão: em 2004, houve um aumento de 413 % de importação de calças chinesas e 247 % de tecidos de linho. E nos últimos quatro meses, entrou na Europa mais 700 % de calçado, enquanto os preços caíram 28 %. “Esse é um problema que os governos têm de resolver entre si. Os chineses que cá trabalham limitam-se a fazer os seus negócios”, justifica. “E até empregamos cinco mil portugueses nas nossas lojas e armazéns.”

Há 40 anos a viver no Porto, este chinês de baixa estatura é um dos mais respeitados filhos do Império do Meio e a chave para qualquer recém-imigrado poder singrar no País. Os seus avós, provenientes de Zhenjiang, zona oriental da China, foram os primeiros chineses a chegar ao Porto, na década de 30.

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Poucos anos depois, os seus pais abriram o primeiro restaurante chinês, à entrada da Ponte D. Luís. O resto da família foi chegando a conta-gotas, um dos ‘modus operandi’ usado pelos errantes chineses. Hoje, Chow é dono de um pequeno império de quatro restaurantes e uma loja de antiguidades na Boavista, onde vende Budas em jade e jarrões tailandeses.

Não é propriamente a típica loja dos 300 - entre a clientela há abastados chineses do norte. “Em tempos, pensámos em criar no Porto uma ‘Chinatown’ como a de Nova Iorque, mas isso seria um erro, pois iríamos fazer aumentar a discriminação”, declara. Embora não haja guetos oficiais, à noite é fácil tropeçar num chinês em qualquer esquina da cidade. É vê-los a cantar um qualquer êxito de pacotilha num ‘karaoke’ - diversão cada vez mais comum nos bares da Invicta - ou a apostar os euros ganhos durante o dia na roleta do Casino da Póvoa do Varzim.

“O jogo é a perdição do nosso povo”, suspira Nuno Zhu, que só entra no casino para jantares de convívio. Nos tempos livres prefere atacar um prato de pernas de rã, língua de pato ou pata de galinha com os pauzinhos nos dedos, três das especialidades do restaurante ‘King Tu’, em Santa Catarina. São iguarias na China. Os ‘chop-suey’ de gambas estão guardados para europeus menos exigentes. “Gostaríamos de ter um hotel e uma escola para a comunidade chinesa.”

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As ideias ainda não passaram do papel, mas se já existem agências de viagens, supermercados e empresas de construção civil, não será difícil concretizá-las. Até porque os imigrantes chineses, bem como os guineenses, são os que apresentam maior taxa de natalidade em terras lusitanas.

TRABALHO DE FORMIGUINHA

300 quilómetros mais a sul, o Martim Moniz, em Lisboa, é outra das zonas com mais chineses por metro quadrado. Na sinuosa Rua da Palma ou no Centro Comercial Martim Moniz, os indianos perderam terreno para estas formiguinhas incansáveis, que andam de um lado para o outro com caixotes às costas ou separam as pilhas de sacos de roupa provenientes dos armazéns da Varziela. O cabelo em desalinho faz adivinhar uma minguada noite de sono mas os seus sonhos mais secretos têm o tamanho da muralha da China.

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Alguns deles vivem no Martim Moniz há décadas, mas não sabem mais do que meia dúzia de palavras na língua de Camões. As lombadas dos dicionários Português-Chinês, à vista nas prateleiras, estão à mão para lhes resolver os casos mais bicudos. Não vá um negócio promissor falhar por falta de comunicação.

A atarefada Wang Zhi Yan é a única chinesa no multi-étnico centro comercial a arriscar umas poucas frases. “É difícil aprender português”, justifica enquanto circula de um lado para o outro atrás do balcão atafulhado de chinelas, brincos, colares, malas e pulseiras. A luz amarelada acentua-lhe os traços profundos de cansaço no rosto.

Aos 43 anos, não tem ilusões. Só vai descansar no dia em que as pernas cederem. “Tenho de trabalhar para os meus três filhos poderem comer e estudar”. Custa a perceber como pode ter lucro quando vende cada peça de bijutaria, feita por si à mão, a um euro e meio. Num supermercado, os mesmos produtos não custam menos de cinco. “Ter de vender rápido. Se não dá, lixo”, dispara com o habitual pragmatismo oriental.

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A chinesa de sorriso melancólico já perdeu conta às empregadas, que vão e vêm, sem deixar rasto de saudade.

“As portuguesas trabalham num ritmo muito lento. Não dar assim”, critica. Há 21 anos a viver no nosso país, Yan confessa não entender a mentalidade dos ocidentais, que se queixam demais e trabalham de menos. “Vocês terem muitas regalias. Estar sempre insatisfeitos. Porquê se têm tudo?”

Ao fim do mês, a chinesa não leva para casa mais de 500 euros, muito pouco para as mais de 70 horas semanais passadas na exígua loja de bijutaria, em ritmo acelerado. Só deixa os músculos descontrair quando faz a sua viagem anual até Zhenjiang - de onde são naturais 80% dos chineses a trabalhar em Portugal.

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Mas não aspira voltar à terra onde foi feliz. “Preferia que os meus pais viessem viver comigo nos Anjos. Mas o SEF não conceder visto”, diz antes de ser interrompida por mais um freguês apressado. “É um euro. Ser barato.” Pelo menos enquanto a recessão pesar sobre a cabeça dos portugueses, ela não se poderá queixar por falta de clientes. Tudo é a um euro na loja de Yan. É pegar ou largar.

LEGAL OU ILEGAL?

Preços irrisoriamente baixos, lucros mínimos, trabalho de sol a sol. A receita de condimentos orientais deixa muita gente de olhos em bico. Como é que eles conseguem manter um negócio sem falir? Esta é a pergunta mais ouvida entre pequenos empresários. “Graças às estruturas familiares. A família trabalha toda no mesmo ramo. Isso baixa-lhes os custos, podendo assim vender mais barato”, teoriza Carlos Monjardino, Presidente da Fundação Oriente, um dos poucos ocidentais que não se intriga com a misteriosa capacidade de labor e de aforro do povo chinês. E acrescenta: “E uma vontade férrea de vencer na vida a qualquer preço. Se for preciso, trabalham de 24 em 24 horas, com margens mínimas de ganhos.”

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Verdade ou mito, o que é certo é que desde o ano de 2000 o número de trabalhadores vindos da China triplicou. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) contabiliza nove mil chineses, mas os números não oficiais apontam para quase o dobro: 15 mil. Chow y Ping desvaloriza as contas aritméticas: “Só em Espanha vivem dez vezes mais chineses. Por eles, continuariam a trabalhar por lá mas as autoridades espanholas não perdoam. São muito exigentes com os vistos”, explica.

Embora haja duas mil lojas, 500 restaurantes e 300 armazéns de revenda com franquia chinesa espalhados pelo país, os comerciantes chineses confessam que Portugal está longe de ser uma terra de oportunidades. Então porque escolhem o nosso país para viver e trabalhar de sol a sol? Chow explica o enigma com meia dose de crueza: “Cá o nível de vida nem sequer é muito diferente do da China. Portugal só atrai imigrantes porque tem as fronteiras abertas”, garante. “Se as fechar, adeus…”.

O fluxo fronteiriço dos últimos anos tem dado muitas dores de cabeça à polícia de ambos os países: suspeita-se do tráfico de mão-de-obra ilegal em larga escala. “O cenário não é catastrófico”, desdramatiza Carlos Monjardino. Quando era Governador de Macau, recorda-se do pânico das autoridades portuguesas, que temiam uma invasão de cidadãos macaenses com dupla nacionalidade. “Depois da passagem ex-possessão portuguesa para domínio chinês, em 2000, isso acabou por não se verificar.”

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A explicação nada teve de transcendente: apesar do passaporte, os jovens macaenses preferiram destinos mais aliciantes como Inglaterra, já que dominavam melhor a língua. “Vivemos num contexto global. Teremos que nos habituar ao convívio com culturas diferentes.”

O PECADO DAS MENINAS

Nos últimos anos, a procura de bilhetes de avião de Lisboa para Pequim em classe executiva também não têm parado de aumentar. A China tornou-se num filão apetitoso para qualquer empresário português de ambições globais. “Os portugueses só conseguirão singrar com o nosso apoio. Sozinhos têm poucas hipóteses”, adverte Chow, dirigente da Liga dos Chineses em Portugal. A sentença não é uma ameaça velada.

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O ICEP revelou que um terço das cem empresas portuguesas a operar na China, são ‘joint-ventures’ luso-chinesas. E o número tende a crescer. Só assim, os investidores estrangeiros conseguem contornar as barreiras burocráticas e linguísticas no mercado que mais cresceu nos últimos 20 anos. A Liga tem organizado seminários, que são autênticos manuais de instruções para os nossos ‘yuppies’.

Mas ainda há quem caia nas armadilhas culturais do costume. Chow Y Ping revela , em tom irónico, o que não se deve fazer em terras do oriente: “Podem-se fazer bons negócios sem ter de se meter com raparigas na rua ou ir a casa de meninas. Lá, isso não é muito bem visto.”

A China não é um qualquer paraíso sexual de terceiro mundo. A discrição continua a ser lei sagrada para os filhos de Confúcio. Não é por um remoto acaso que os índices de criminalidade nas ‘Chinatowns’ portuguesas são tão baixos como os preços das blusas cem por cento de algodão. “Embora viva fechado em pequenos bairros, o imigrante chinês não dá dores de cabeça às autoridades. Ele não quer pôr em risco a sua permanência no país. Os chineses são um povo reservado, humilde. O trabalho é a sua verdadeira riqueza. É por isso que são tão disciplinados”, revela Carlos Monjardino.

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Mas nem sempre a harmonia ying e yang reina nestes bairros. As rivalidades nos negócios são motivo de vinganças e represálias, que muitas vezes não são notícia nos jornais. “Pode haver ajustes de contas entre eles. Mas acabam por resolvê-los à sua maneira.” Este código de honra de rituais quase secretos faz especular sobre a existência de máfias chinesas em comunidades como as do Martim Moniz ou Mindelo.

Terão as poderosas lojas de crime de Xangai, Hong Kong e Macau galgado as fronteiras de Schengen e assentado arraiais na ponta mais ocidental da Europa? “Não acredito, o nosso país não tem dimensão e muito menos riqueza para que elas floresçam”, defende Monjardino. Um sinólogo, que prefere manter o anonimato, discorda da tese do Presidente da Fundação Oriente. “Pode não haver tríades organizadas, mas há importantes cabecilhas a viver em Portugal…”. E mais não diz porque tal como reza a filosofia chinesa, sábios são aqueles que conhecem os limites da própria ignorância.

DOIS PAÍSES, DOIS SISTEMAS

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As brigadas de Inspecção-Geral das Actividades Económicas (IGAE) são visita assídua aos armazéns de Porto Alto, na Margem Sul, uma versão em miniatura da ‘Chinatown’ de Vila do Conde. Só na última rusga, em Maio, apreenderam 36 mil artigos dos grossistas chineses, entre eles ténis e calças com marcas falsas ou camisolas sem etiquetas.

Nem todos se habituaram ao jogo do gato e do rato das autoridades portuguesas. É o caso de Lin, um dos comerciante que vive na comunidade chinesa do concelho de Benavente. “Não querer dizer nada”, argumenta antes de se esquivar para o interior do seu carro, num arrazoado de línguas intraduzível. Por vergonha ou desconfiança, recusa-se a falar de assuntos extra-comerciais.

A passagem dos inspectores do IGAE deixou sequelas por aquelas bandas. Em segundos, Lin desaparece numa nuvem de fumo pelo asfalto. Uma fuga em grande estilo que parece corroborar a teoria de que os chineses são tão bons a gerir segredos como os seus negócios…

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Do outro lado da estrada, o armazém de Chen Liao, estabelecimento de revenda com 500 metros quadrados, orgulha-se de ser “o primeiro realmente chinês”. E o maior do sul do país. A única atracão é a fachada, a mesma do Pavilhão Chinês da Expo’98. Mística e megalómana, à boa maneira dos novos-ricos provenientes do oriente. Não muito longe, amontoam-se caixotes partidos e bugigangas enferrujadas, entre uns poucos carros estacionados.

Lá dentro, comerciantes apressados enchem os carrinhos de compras com rádios a pilhas em miniatura, molduras ‘kitsch’, roupa de bebé ou canetas fluorescentes, produtos tão baratos como inúteis que irão encher as prateleiras das lojas de 300 da Grande Lisboa. Como é da praxe, são obrigados a levar pelo menos seis produtos idênticos ou a gastar no mínimo 25 euros. “Muito barato”, repete incessantemente a empregada asiática.

O tilintar da caixa registadora faz de banda sonora. É a única chinesa à vista. O patrão está fora. “Viaja pela China, em negócios”, garante evasivamente, sem perder o sorriso amarelo. “Sem ele, não temos autorização para falar.” Uma barreira de silêncio ergue-se à sua volta. “A nova geração de imigrantes não compreende muito bem a acção dos inspectores” explica Chow Y Ping. “Olha para a fiscalização como uma ameaça”, acrescenta.

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De traços orientais mas de coração cem por cento lusitano, o jovem empresário Nuno Zhu é uma excepção. Com a tranquilidade estampada no rosto, ele fala português, chinês, inglês e vive com um pé em cada continente. Um cidadão do mundo que há muito que percebeu que a guerrilha de preços é a pedra no sapato nas relações entre os dois povos. E se a ferida não for resolvida a tempo, pode transformar-se numa gangrena.

“Por quanto tempo os portugueses vão pensar que os chineses são uns tipos que se metem em qualquer negócio com febre do lucro fácil? E os chineses, quando deixarão de queixar-se que os portugueses são demasiado medrosos nos investimentos?” interroga-se. Zhu não tem soluções milagrosas debaixo da manga. Só anseia por um pouco de paz. Mas ela ainda parece uma miragem. É verdade que nas últimas semanas a China deu um grande salto em frente, prometendo limitar as exportações de dez categorias de têxteis para União Europeia.

Mas as multinacionais do Velho Continente continuam a mudar-se em massa na direcção do oriente - onde mão-de-obra e custos de produção são muito baixos - e nos tempos que se avizinham dificilmente alguém seguirá o adágio pacifista de Confúcio: “não façam a guerra, façam bolinhos”. A batalha comercial irá continuar a fazer vítimas, danos colaterais e abertura de telejornais.

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AS DIATRIBES DE JARDIM

No discurso de encerramento de uma festa tradicional, Alberto João Jardim, Presidente do Governo Regional da Madeira, manifestou-se contra a proliferação do comércio chinês na ilha.

O autarca defendeu que “Portugal já está sujeito à concorrência de países de fora da Europa”, havendo ainda “os chineses que estão a entrar por aí dentro, os indianos a entrar por aí dentro e os países de Leste a fazer concorrência”. E face a um sinal da plateia que se referia à presença destes imigrantes, Jardim perguntou: “Está-me a fazer sinal porquê? Estão aí chineses? É mesmo bom para eles ouvirem porque eu não os quero aqui”.

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O Alto-Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas repudiou as declarações, considerando-as “claramente ofensivas e discriminatórias”.

O IMPÉRIO CONTRA-ATACA

Para contrariar a invasão de têxteis e calçado chineses, alguns empresários portugueses tentam vingar no mercado oriental. Duas das mais importantes empresas têxteis portuguesas admitem subcontratar na China a produção de peças de vestuário menos competitivas.

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Com a concorrência dos produtos chineses a ameaçar 40 mil postos de trabalho em Portugal, Maconde e Riopele encaram como inevitável encomendar fabricos e artigos a parceiros chineses ou indianos, como forma de reduzir os custos de produção. A Maconde está em negociações com três empresas chinesas para acertar o estabelecimento de uma periferia para a subcontratação do vestuário.

Duas destas empresas estão sediadas em Pequim e outra em Xangai, e foram seleccionadas de uma lista de 10 candidatos. Os contactos foram iniciados há um ano. Para os responsáveis da Maconde o estabelecimento de parcerias com empresas chinesas não significa o encerramento da fábrica em Portugal.

Entretanto, a Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos, vai desenvolver acções de promoção e marketing em países como a China. O investimento previsto é de 10 milhões de euros nesta grande acção que procura alargar a base exportadora do sector e diversificar o destino das exportações portuguesas de calçado.

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CARLOS MONJARDINO: "CHINESES ACHAM-NOS POUCO AMBICIOSOS"

No Martim Moniz as lojas chinesas já superaram as indianas. Qual o segredo para a expansão oriental?

Os chineses têm uma maneira de funcionar baseada na economia familiar. Como eles vivem e têm negócios em família, têm custos mais baixos do que um comerciante português. O trabalho para eles tem um significado muito diferente do que para um português. É-lhes incutido que têm de vencer na vida de qualquer maneira. Para um europeu, é um exagero. Mas eles não se sentem tão bem protegidos a nível social. Têm de trabalhar mais para poupar mais e ter um final de vida melhor.

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Eles conseguem alcançar de facto esses objectivos?

Normalmente, sim. Um europeu não consegue perceber até onde vai a capacidade de poupança de um chinês. Nós achamos que os negócios deles são tão desprezíveis que não dá para eles terem margens de lucro e muito menos para fazer poupanças. Mas dá. Porque o trabalho é feito com muito esforço. Os chineses não se limitam a trabalhar oito horas por dia. Se for necessário, trabalham de 24 em 24 horas para manter o negócio. Tenho um exemplo: o meu alfaiate chinês. Posso chegar ao estabelecimento dele à meia-noite e estará sempre disponível. Este comportamento é fruto das dificuldades que eles tiveram.

Ultimamente, têm-se levantado vozes de receio por causa da liberalização do comércio de têxteis, em 2005. Fala-se em invasão…

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A entrada da China na Organização Mundial de Comércio foi mal avaliada. Não se ponderou o extraordinário crescimento da sua economia, nem a falta de controlo do Estado chinês sobre esse crescimento. São muitos milhões de pessoas a querer singrar. É complicado pará-las, sem haver problemas sociais. Estamos num mundo cada vez mais global. Não há volta a dar.

Todos sabemos que os produtos chineses são baratos mas não primam pela qualidade…

A relação preço/qualidade compensa. Há produtos baratíssimos que podem durar o mesmo que outros mais caros. Comprei há 5 meses uma escova eléctrica que me custou 90 cêntimos. Ainda funciona.

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Com o desemprego a crescer no Vale do Ave vão também aumentar as manifestações de xenofobia?

A Europa vai ser obrigada a ter imaginação para resolver o problema. A nossa sociedade tem de se tornar mais solidária. Não pode estar de costas voltadas.

Existe a ideia de que a comunidade chinesa é endógena e desconfiada em relação aos portugueses. É verdade?

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É verdade. Não se integram. Criaram bairros para viver - não lhes queria chamar guetos - porque não são pessoas que se abram com muita facilidade a alguém que não seja chinês. Independentemente dessa característica que lhes é inata, eles não nos entendem bem. Não percebem a nossa língua, a nossa maneira de viver... Isto não significa que não gostem de nós nem do nosso país. Acham apenas que somos um bicho raro, com muita falta de ambição.

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