Mais procura nos trabalhos de Verão

A crise empurra jovens e menos jovens para trabalhos sazonais. Restauração e apanha da fruta têm mais procura.

10 de junho de 2012 às 15:01
Trabalho temporário, Trabalhos de Verão Foto: Miguel Veterano Júnior
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Enquanto coloca o gelo picado e a dose de rum para fazer mais um mojito, Mariana Mourinho está preocupada com a tese de mestrado em Psicologia. Licenciada na mesma área e sem trabalho fixo, a jovem de 22 anos aproveita os momentos livres do trabalho num bar na praia de Armação de Pêra, para acabar os estudos em Lisboa.

"A minha folga é para ir às aulas", conta a algarvia, enquanto coloca uma ‘pitada’ de sumo de limão e um ramo de hortelã na bebida que prepara para os turistas estrangeiros deitados à beira-mar. São os clientes da concessão de praia e restaurante explorados pelos pais que a ajudam a pagar os estudos. Mariana trabalha entre Abril e Setembro e os pais pagam-lhe "um ordenado como a todos os outros empregados". Há vários anos que trabalha no negócio familiar durante o Verão. Agora está a juntar dinheiro para um estágio no estrangeiro.

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TURISMO DÁ EMPREGO

O sector turístico é o principal empregador no Algarve. E os bares de praia são os locais onde mais gente consegue trabalho durante o Verão. Este ano, há mais procura e aparecem pessoas de todas as idades. Muitos são jovens que estão no desemprego e têm a oportunidade de juntar dinheiro para o Inverno. Outros, mais velhos, também procuram o emprego sazonal.

Joe Waite, de 20 anos, filho de ingleses mas desde pequeno em Portugal, conduz um barco que faz esqui aquático e outras actividade de diversão com turistas e aluga motas-de-água e gaivotas numa concessão na praia da Galé, em Albufeira. "Começou por ser só um trabalho de Verão nas férias mas agora é mais do que isso. Deixei a escola e quando acabar o contrato de seis meses vou para o desemprego. Não consigo arranjar mais nada", lamenta. O negócio na praia ainda está fraco e consegue ter uma ou duas folgas mas, nos meses de Julho e Agosto, "é sem folgas e sem parar. É um trabalho cansativo, porque são muitas horas passadas ao sol, mas é bom para conhecer pessoas". Ganha uma média de 750 euros por mês, "o que não é muito para quem não trabalha no Inverno".

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Na mesma situação está Augusto Brito, apesar de ter mais 28 anos do que Joe. Trabalha há 11 anos num restaurante em Albufeira, apenas durante seis meses. Depois de passar o Verão, não consegue arranjar trabalho. "É complicado viver assim. O que economizo no Verão é para gastar no Inverno", confidencia o empregado de mesa. E para piorar a situação, nos dois últimos anos não lhe foi atribuído o subsídio de desemprego. "Como uma das minhas filhas e a mulher estão a trabalhar disseram-me que não tinha direito", lamenta Augusto, que ganha 500 euros por mês.

MAIS PROCURA

Com a crise à porta, os estabelecimentos vocacionados para os empregos sazonais têm sido mais procurados do que nos anos anteriores – e o difícil é arranjar lugar para todos os candidatos. André Guimarães, de 21 anos, está indeciso quanto ao rumo a seguir depois de uma breve passagem pelo curso de Direito. Candidatou-se a três bares mas só o chamaram para a praia de Carcavelos. Está há uma semana a atender às mesas e a custo tenta equilibrar a bandeja nos braços.

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Patrícia Tomás, de 22 anos, tem experiência em empregos sazonais: é o terceiro Verão em bares de praia e desta vez está a juntar dinheiro "para tirar a carta. Tenho sempre um objectivo para o dinheiro que faço a trabalhar no Verão. E não custa nada. Aproveito o facto de estar numa esplanada ao pé do mar para mergulhar antes de entrar ao serviço e à saída. As vistas são óptimas e agrada-me a agitação dos pedidos e das pessoas". Oito horas de trabalho rendem "de 600 euros para cima e compensam", garante a estudante de Organização de Empresas.

Alexandre Fernandes, de 16 anos, estreou-se o ano passado na apanha da fruta. "Resolvi ganhar dinheiro nas férias e como o meu primo tinha o contacto do dono da adega cooperativa da minha aldeia inscrevemo--nos para apanhar pêra. O trabalho era fácil, mas havia uma parte que não agradava ao pessoal mais novo e não muito alto: era preciso ir com um escadote apanhar as pêras que estavam no topo, o que era aborrecido, pois em cada árvore tínhamos de sair do escadote e mudá-lo para a árvore seguinte. Isto dezenas de vezes". Foram duas semanas, oito horas por dia, debaixo de "um sol abrasador" que dificultava a empreitada mas os 185 euros que ganhou compensaram o "cansaço". Mas os pomares onde trabalhou em 2011 – em Torres Vedras – não vingaram. "Nesta área não terei trabalho este Verão".

TRABALHO TEMPORÁRIO

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A procura por parte de jovens vê-se sem lupa nas agências de trabalho temporário. "Existe nesta altura do ano maior incidência nas contratações para projectos sazonais", explica Fábio Alves, da Go Work. Segundo este responsável, os sectores onde mais jovens são colocados no Verão "são a hotelaria, restauração e os contact centers". "Tem havido mais procura e curiosidade na agricultura por parte dos jovens, como por exemplo para a apanha da uva. A média de idades varia entre os 18 e os 23 e temos um peso cada vez maior de procura por jovens mais qualificados (mais de 30% licenciados)", explica.

João Coelho, de 24 anos, ouve frequentemente a pergunta: ‘Um homem baby-sitter?’ "Até ao ano passado, nunca tinha tido um emprego de Verão propriamente dito. Fiz uns trabalhos voluntários, mais para ajudar conhecidos. Portanto, o primeiro trabalho de Verão foi mesmo ficar a cuidar de duas crianças que estavam de férias escolares durante o dia, enquanto os pais trabalhavam. Apesar de a mentalidade ainda pender um pouco para achar que baby-sitting é coisa de mulheres, creio que há quem já comece a perceber a importância de uma figura masculina do processo de construção da individualidade da criança".

João é licenciado em Psicomotricidade e está a frequentar uma pós-graduação em Avaliação Neuropsicológica da Criança, pelo que este trabalho se adequa em tudo ao seu perfil e habilitações. A experiência do ano passado correu tão bem que vai repetir o emprego.

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"Muitas vezes, os horários chegam a 24 horas por dia, sendo que vamos mesmo de férias com as famílias. E depois, durante o fim-de-semana, atendemos pedidos de animações de aniversários ou de baby-sitting em festas de casamento, muito solicitadas nesta época". Um full-time pode render até 800 euros por mês.

"Sentimos uma maior procura relativamente ao ano passado e uma maior predisposição para abraçar novos desafios, nomeadamente em áreas funcionais distintas das que as habilitações académicas apontam, simplesmente porque há de uma forma espontânea a adaptação às leis da oferta e da procura de emprego", garante Fábio Alves da Go Work. É por isso que Rita Lopes, licenciada em Psicologia e assistente de bordo numa companhia aérea em dificuldades financeiras procurou rechear a conta a trabalhar como empregada de bar na praia da Torre.

"Aceitei este emprego de Verão para poder ir casar a Las Vegas com o meu namorado. Como esse casamento em Portugal não é válido, podemos fazer a experiência e ver se resulta", confidencia a jovem de 30 anos. A amiga, Rita Luz, de 28 anos, formada em Gestão Turística e Hoteleira, passou o último ano em trabalhos esporádicos de congressos e agarrou o desafio de trabalhar três meses no mesmo bar. "Este é um espaço que só funciona no Verão e tem a vantagem de que, além de empregadas de mesa, também dançamos com os DJ e podemos estar de biquíni, o que é óptimo. E trabalhamos para o bronze ao mesmo tempo que ganhamos dinheiro".

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Trabalha das 12h00 às 00h00 e ganha, tal como Rita Lopes, 750 euros por mês, a somar a cinco euros por cada hora extra. "Adoro trabalhar na praia porque ver tanta gente é sempre uma inspiração para o curso que tirei, de Joalharia Contemporânea", confessa Raquel Faria Lopes, que completa o trio. Com o dinheiro que poupar pondera "ir para o estrangeiro tentar trabalhar na área" em que se formou. "Aqui não consigo."

DINHEIRO E CURRÍCULO

Na Universidade Nova do Monte da Caparica distinguem-se os estudantes que fazem trabalhos de verão. Sentados no bar da D. Teresa, a esplanada mais animada do campus, Rui Lopes e Ana Morgado, ambos de 22 anos, estudantes de Engenharia do Ambiente, aproveitam uma pausa entre os exames para relaxar ao sol. Terminadas as aulas surge o tempo de ganhar dinheiro.

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"Sempre fiz trabalhos de Verão, estive na apanha da pêra-rocha e da uva, ganhava cerca de 30 euros por dia. Pagam mais aos homens, pois carregamos os cestos", conta, a rir, Rui Lopes. O trabalho mais bem pago foi, contudo, numa loja de desporto. "Ganhava 370 euros por um part-time", diz o estudante de Torres Vedras, que junta o dinheiro para pagar as idas aos "festivais de Verão" e a experiência para "enriquecer o currículo".

É também a pensar no futuro que Ana Morgado revela as suas peripécias no trabalho temporário. "Estive numa iniciativa da Junta de Freguesia de Azeitão, em que durante duas semanas acompanhava idosos à praia. Pagaram 50 euros e até foi divertido, porque eles eram autónomos". Mais "interessante" foi a transcrição de entrevistas áudio para o Instituto de Ciências Sociais: "Pagaram 750 euros e gostei de ouvir as histórias de vida que os estudantes estrangeiros, quase todos de África, contavam".

Com os 430 euros ganhos durante o mês e meio que trabalhou numa serralharia, David Jorge, 19 anos, estudante de Engenharia Electrotécnica, comprou um fato e uma prancha de bodyboard. "Este dinheiro dá sempre jeito e , além disso, essas experiências de trabalho dão outra visão da realidade", admite. Também Hugo Monteiro, 22 anos, natural das Caldas da Rainha, tem financiado a vida de estudante de Bioquímica com trabalhos sazonais. "Fui monitor em colónias de férias e trabalhei em part-time em cafés, ganhava 250 euros por mês."

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SERVIR À MESA

A restauração é, aliás, um dos sectores que mais abre as portas a estes trabalhadores. Nos muitos bares que orlam as praias da Costa da Caparica, destacam-se os estudantes que servem às mesas. Ana Clara Lemos, 19 anos, vai trabalhar todo o Verão enquanto pensa na vida. Deixou de estudar e aproveita este "ano sabático" para amealhar uns trocos. "O trabalho não é cansativo. Com quatro folgas mensais e 12 horas de trabalho chego a ganhar 900 euros. Gosto do que faço, a equipa é bacana e o dinheiro é suficiente para juntar e comprar coisas. Mas este ano não tem sido fácil encontrar trabalho, procurei muito e só fui chamada para dois sítios"

A mesma visão tem Miguel Nobre, 20 anos, estudante de Engenharia Civil. "Ganhamos 35 euros por dia mais 20 por cada jantar e ainda comissões. É divertido, apesar de ser cansativo." A crise não facilita a vida aos estudantes. "Este ano tem aparecido aqui muita gente a oferecer-se, são pessoas mais velhas, desempregadas."

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Ana Augusto, 29 anos, inscreve-se nesta faixa. Licenciada em Arquitectura, optou pelo trabalho de relações-públicas num bar de praia por não ter perspectivas na sua área. "É a primeira vez que faço isto e o que ganho serve para pagar as contas. O mercado só funciona sazonalmente. Quando era estudante trabalhei como hospedeira em stands e congressos e com o dinheiro comprei um automóvel. Agora, não há trabalhos tão bem pagos".

Na praia de S. João, na Costa da Caparica, João Silva e Hugo Pereira, 21 anos, e Madalena Prestes, 18, dão nas vistas. São os nadadores-salvadores de serviço. Para Hugo, os 27 euros que recebe por dia servem para se aguentar enquanto acaba Matemática. João Silva faz dos salvamentos na praia a sua profissão "sazonal" e Madalena junta o útil ao agradável. "Sempre tive vontade de experimentar esta actividade. Como estudo Desporto isto acaba por ser muito útil à minha formação". Jorge Barroso, 24 anos, estudante de Engenharia Geográfica e surfista amador, juntou-se este ano à equipa de nadadores-salvadores. "Fiz tantos salvamentos como surfista que este ano optei por ganhar dinheiro. Assim, pelo menos já estou na praia".

VÁRIOS SITES INTERNACIONAIS ABREM PORTAS NO ESTRANGEIRO

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São várias as oportunidades para trabalho sazonal que se encontram através de sites internacionais. Propostas para apanha da fruta e trabalhos agrícolas (em França, Reino Unido e Dinamarca) podem ser consultadas em www.pickingjobs.com. Em adventurejobs.com e frontierclub.com há oferta para animadores e recepcionistas de estâncias turísticas e parques de campismo, cozinheiros e empregados para cruzeiros. Pode ainda consultar anyworkanywhere.com e eurojob.com.

"TRABALHO SAZONAL TEM PESO NA ECONOMIA"

"Muito importante para a economia, produtividade e flexibilização do sistema" é como o economista João César das Neves classifica o trabalho sazonal, que "ocupa muita gente", diz. "Há tarefas que se adaptam mais a esta sazonalidade, nomeadamente a agricultura, o turismo, a restauração e as próprias faculdades, que por vezes abrem portas a trabalhos temporários. É sempre mais visível a partir do terceiro trimestre e sofreu uma flutuação nos tempos. Já foi muito importante, diminuiu e agora voltou a crescer, devido à emigração".

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O economista alerta que este tipo de trabalho pode camuflar outras situações: "Dada a rigidez do Código de Trabalho, o trabalho sazonal pode ser usado como artifício para obviar outro tipo de contratos, que implicam grandes custos e rigidez".

NOTAS

10 POR CENTO

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O emprego entre os 15 e os 24 anos aumentou 10 por cento do segundo para o terceiro trimestre de 2011.

37,1 POR CENTO

O emprego na mesma faixa etária caiu depois 37,1 por cento nos últimos meses do ano.

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12,1 POR CENTO

O aumento do emprego no Verão foi, em 2011, mais visível nos homens: mais 12,1 por cento do que no trimestre anterior.

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