MALDITA NICOTINA

Sou a cobaia perfeita. Já tentei tudo, ou quase, para largar os cigarros. Espetaram-me agulhas, andei com sementes de mostarda nas orelhas, pensos de nicotina no peito. Bom, vamos lá tentar agora o tratamento definitivo…

04 de abril de 2004 às 19:04
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SEGUNDA-FEIRA 8 DE MARÇO

Cigarros fumados: 33 - (isto começa mesmo mal)

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Vou testar a cura milagrosa, ‘o método definitivo’ para deixar de fumar, a auriculoterapia. Li na Internet que basta ir ao centro Não Fumo Mais, passar lá uma horita e pagar 320 euros. Por esse preço, têm mesmo de fazer milagres. É que eu não fumo cigarros de meninas. Comigo não há cá ‘lights’, ‘ultra lights’, nem baixos teores de nicotina. Fumo ‘Gigante’, e o nome diz tudo. Dois maços por dia, desde os 20 anos.

Chego às instalações às 15 horas em ponto. Sei porque olho no relógio, é um momento solene. Vou deixar de fumar.

Desanimo à porta do centro: uma coisa muito fria, chão de cerâmica cinzenta, cadeiras pretas vazias, senhoras de bata branca a cirandar. No meio da sala de espera vê-se uma caixa de acrílico gigante, sinistra, cheia de maços de tabaco. (Será um golpe de propaganda? Estarão mesmo vazios? Imagino os empregados, depois do dia chegar ao fim, a irem lá tirar os cigarros dos maços e fumá-los às escondidas).

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Sou chamado ao gabinete, atende-me uma dra. Sara. Explica-me o tratamento: uma hora ao todo, parte conversa, parte estimulação eléctrica das orelhas (é a minha sina, espetarem-me coisas nas orelhas). Por fim dá-me uma caixa de cartão branco, cheia de frasquinhos de remédios, tipo estojo de primeiros-socorros. Aqui não há milagres, explica-me a senhora dra.. Se não quiser deixar de fumar não adianta, o tratamento é só uma bengala.

A conversa dela preocupa-me. À medida em que dá mais pormenores, começo a entrar em pânico. Interrompo a conversa para fazer a única pergunta que me interessa: "Quer dizer que, quando eu sair desta sala, daqui a uma hora, nunca mais posso fumar?". Ela reafirma, em tom paciente: "Nunca mais. Nem uma passa."

Quem se passa sou eu. Nunca mais? Enlouqueceram todos? Não estou preparado, regateio um adiamento, lá me consigo safar. Marcamos nova consulta para daí a quatro dias, sexta-feira. E penso com os meus botões: aproxima-se uma sexta-feira negra.

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SEXTA-FEIRA DIA 12 DE MARÇO

Cigarros fumados: 16 - (o que começa mal…)

16 horas - A culpa não é minha, juro, hoje não estou em estado. Ontem foi 11 de Março, dia dos atentados de Madrid, jornal em alta rotação. Deitei-me de madrugada, acordei cedo, estou um farrapo.

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Mas a minha amiga dra. Sara não se apieda. É hoje o dia, diz, é hoje que deixarei de fumar. Submeto-me a um questionário breve e ao tratamento. Sento-me numa cadeira longa, inclinada para trás. Ela põe-me gel no pulso, do tipo que se usa nas ecografias (um nojo), e liga-me o braço a uma maquineta electrónica que parece uma ‘juke-box’. Sentada ao meu lado, espeta-me uma vareta eletrónica nas orelhas (não dói), no nariz (faz cócegas) e depois liberta-me.

À saída ainda me avisa: se tenho cigarros é melhor deitá-los fora, na tal caixa de acrílico a que ali chamam ‘cemitério’. Digo que sim, pois claro; mas não os deito fora. Vou ao balcão e pago a horita de serviço, 320 euros. Pago em notas pequenas, um monte delas, fico seriamente deprimido.

Tiro relutante, do bolso, o maço de tabaco estreado hoje de manhã. Já fumei 16 cigarros, sobram-me 4. Hesito em me despedir dos quatro cigarrinhos, todos em tão bom estado. Dou um longo suspiro. Penso nos 64 contos que gastei a fazer cócegas às orelhas e deito fora o que resta do maço.

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22 horas - O resto do dia não me lembro muito bem, a memória é uma névoa cinzenta, devem ser os efeitos da falta de nicotina. Arrastei-me como um sonâmbulo e só pouco antes de me deitar realizei: tinha acabado de passar oito horas sem fumar! Um recorde absoluto, só igualado na minha última viagem de avião transatlântica.

Mas tinha também cometido um crime. Num momento de fraqueza pedi a uma colega que me arranjasse uns cigarrinhos. Ela, maldosamente, pôs-me três em cima da secretária. Trouxe-os para casa. Vão acompanhar-me este fim de semana. (Fecho os olhos neste momento, oiço a banda-sonora de um filme de terror.)

SÁBADO DIA 13 DE MARÇO

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Cigarros fumados: 0 - (nasce um herói)

Dia fatal: não fumei um único cigarro. E não deixei de pensar neles durante um único minuto. Ao acordar pensei: cigarros! Depois do pequeno-almoço pensei: cigarros! E assim, ao longo de todas as miseráveis horas seguintes. Mas consegui não fumar o primeiro. E como me fui aguentando sem fumar, sempre que pensava no próximo cigarro era como se pensasse no primeiro. Olhava para as horas deixadas para trás, a vitória alcançada, e recusava-me a fumar.

Mas a custo. Neste momento sinto a parte da frente do meu corpo a ganir por um cigarro. É como se parte dos meus braços, das minhas pernas, do meu peito e do meu estômago fossem uma esponja espremida e ressequida. E sei sempre exactamente o que preciso: um cigarro. Tenho ainda os três intactos, consigo não fumá-los.

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Orgulhoso da proeza telefono à minha filha, que à distância me controla o vício. Quantos cigarros fumaste papá? Nenhum filhota, sou um herói nacional.

DOMINGO - 14 DE MARÇO

Cigarros fumados: 3 - (o princípio do fim)

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Já é o meu terceiro dia sem fumar. Quer dizer, se contar a tarde de sexta-feira e o dia de ontem, que foi sábado. Faço as contas ao dinheiro poupado, não é lá grande lucro: gastei em rebuçados o que poupei nos cigarros. Chupo um atrás do outro, nos intervalos como desvairadamente. Olho para a balança, engordei um quilo. Faço contas de cabeça, por este andar chego a Abril e sou um lutador de sumo.

A caixinha de remédios trazida do centro não funciona: umas gotinhas miseráveis que me fazem pensar no Macário Correia. Tragá-las é como beijar um cinzeiro. Os comprimidos para tomar em caso de emergência também não têm efeito, e o que é pior, tem propriedades laxantes.

Hoje é domingo, estou em casa, e um tenho um artigo para entregar amanhã de manhã. O diabinho que há em mim começa a arranjar formas de me quebrar a vontade. Diz-me ao ouvido: Eh pá, sem cigarros não vais lá, não escreves uma linha; já não consegues pensar sem um cigarrinho na mão, quanto mais escrever. Sacudo o diabinho, mas em vão. Levo horas a acabar o artigo, e o resultado não é mau. É simplesmente miserável. Penso naquelas filmes dos anos 50, em que o herói chega a casa derrotado, e depois de anos sem beber uma gotinha se vira outra vez para a garrafa. E com essas imagens na cabeça, dou a primeira passa num cigarro...

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SEGUNDA-FEIRA - 14 DE MARÇO

Cigarros fumados: 7 - (a queda do herói)

Razão tinha a dra. Sara: Nem uma passa! Eu dei a passa fatídica, e foi como Adão a abocanhar a maçã – num ápice fui expulso do paraíso. Passo o dia sem comprar tabaco, mas à visão de um colega a fumar, cravo-o no acto. Vergonha, vergonha.

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O RESTO DA SEMANA - 16 A 19 DE MARÇO

Cigarros fumados: não queiram saber - (ardeu um herói)

Perdi a conta aos cigarros fumados. Começo outra vez a matemática dos viciados. Dois maços por dia é igual a X euros, vezes X anos é igual a... Um Volkswagen Golf descapotável! Oh tristeza, oh depressão!

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2º Fim-de-semana - 20 e 21 de Março

Cigarros fumados: 12 - (o império contra-ataca)

Mandei às urtigas a caixinha dos remédios milagrosos. A única vantagem de ter ido ao malfadado centro foi esta: percebi que é possível deixar de fumar. Aguento-me portanto, sem gotinhas nem comprimidos, pelo menos até à hora de telefonar à minha filha. À distância ela controla-me o vício, exige números, não lhe posso mentir. Não fumo até lhe telefonar, e depois. Depois, depois é a desgraça do costume.

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2ª Semana - 22 a 26 de Março

Cigarros : 132 - (fumar emagrece)

Não sei o que foi pior durante a semana, se a derrota de não conseguir parar de fumar, se as bocas dos colegas: então pá, gastas 64 contos para isto? Ou pior ainda, aqueles que largaram o tabaco de graça e me atiram à cara: eu cá não gastei um tostão, foi só força de vontade. Pois.

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3º Fim de Semana - 27 e 28 de Março

Cigarros: 33 - (adeus pai)

Não entremos em pormenores. Este fim-de-semana falhei o meu dever religioso de pai. Domingo é dia de telefonar à minha filha. Não telefonei, não tive lata de lhe prestar contas. E fiquei cheio de medo de ouvir um raspanete.

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À noite, cheio de remorsos, fiz um pacotinho com prendas para lhe enviar pelo correio.

4ª Semana - 29 de Março segunda-feira

Cigarros fumados: 25 - (a luta continua)

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É hoje, é hoje! Não, afinal não foi.

01 de Abril - quinta-feira

Cigarros fumados: 0 - (dia das mentiras)

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Não fumei um único cigarro. Juro.

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