Maratona nos dois extremos do planeta
João Neto correu em abril no Polo Norte e quer pisar a meta no Polo Sul na próxima quinta-feira.
Quando embarcar em Punta Arenas, no sul do Chile, João Neto já vai estar equipado para correr no meio do gelo e do nada – dentro do avião as temperaturas vão ser negativas e o grande desafio será tentar não congelar – literalmente – durante a viagem. "Se estamos sentados não estamos a gerar calor, por isso, corremos esse risco." Para trás terão ficado Lisboa, Paris e Santiago do Chile (local de embarque e escalas anteriores) e este atleta amador que participou na primeira maratona aos 47 anos (em Lisboa) estará a cinco horas do Polo Sul, na Antártida, onde vai correr quarenta e dois quilómetros. No ponto mais meridional do globo, naquele que é o continente mais frio, mais seco, com a maior média de altitude e o maior índice de ventos fortes do planeta, este gestor de telecomunicações, de 51 anos, vai desafiar-se em condições extremas, nos antípodas do clima ameno com que sempre treina em Portugal.
"Aqui não reunimos, nem na serra da Estrela, condições que se assemelhem àquilo que vamos encontrar lá. Temos que pensar em tudo de uma forma geral e na roupa em particular: nas pernas levamos duas camadas de roupa, na parte do tronco levamos três, temos que tomar muito cuidado com a roupa intermédia porque se transpirarmos geramos suor e, por isso, imediatamente congelamos face à temperatura que está no exterior. Por outro lado, se levarmos roupa a menos congelamos porque não estamos a gerar calor suficiente para nos mantermos quentes", revela o atleta que já fez 16 maratonas (duas delas ultramaratonas) em três continentes.
"No Polo Sul vamos ter duas voltas de 21 quilómetros, qualquer coisa que me surja em termos físicos, eu vou ter sempre que ter isso em conta. Se tiver uma lesão a meio e tiver que começar a andar por não conseguir correr deixo de conseguir gerar o calor suficiente para me manter quente e começo a congelar, por isso, há realmente uma preocupação acrescida com a escolha da roupa", descreve o atleta que sabe bem do que fala: em abril deste ano correu a maratona do Polo Norte, no outro extremo do planeta. "A questão dos olhos é outro tema muito importante. No Polo Norte, eu estive sensivelmente nove horas com os óculos postos para cima e com os olhos semifechados sempre a pestanejar para não congelar os olhos. Para tirar o gelo das pestanas tinha que bater na cabeça porque não podia puxar com a mão por todos os riscos associados ao facto de estar quase congelado ou muito gelado. Aqui, estou a tentar arranjar um tipo de óculos diferentes, com umas aberturas laterais em que, à medida que vou correndo, o ar vai circulando de forma a que não congele."
Também comprou, via internet, uns adesivos que cobrem a cara e a protegem das temperaturas negativas mas, dias antes da partida para a prova, ainda estava indeciso se o melhor era usar os adesivos ou uma máscara capaz de expelir o vapor para a frente. Nos pés vai calçar dois pares de meias – que depois de uma odisseia encontrou em Portugal – específicas para garantir que as extremidades se mantêm quentes. As botas de pitons serão essenciais para manter a estabilidade num solo difícil de pisar: os atacadores são elásticos e prendem todo o pé uniformemente. Nas mãos, Neto também vai usar duas camadas de tecido: "umas luvas que mantêm o calor da temperatura, os cerca de 37 graus do corpo humano, e por cima umas outras sem dedos que permitem que eu consiga ir sempre a abrir e a fechar os dedos para manter a circulação ativa sem qualquer tipo de percalço no caminho", descreve o maratonista que encontrou na corrida, e já depois dos 40 anos, uma forma de se manter ativo, fácil de conciliar com a intensa atividade profissional do gestor.
(Muito) abaixo de zero
Além do desafio da temperatura – vai encontrar pelo menos 22 graus negativos (no Polo Norte correu com 50 graus abaixo de zero), somam-se as diferenças (e as dificuldades) em relação a qualquer outro sítio onde seja possível correr.
"O solo é completamente diferente. É quase como se estivesse a correr na praia. De cada vez que colocamos o pé no chão ficamos enterrados até à zona do tornozelo. Quando corremos no alcatrão ou numa pista de tartan temos o amortecimento dos ténis e a própria estrada que nos dá impulso cada vez que colocamos a parte frontal do pé no chão. Ali não: cada vez que assentamos o pé no chão enterramo- -nos dois a três centímetros, o que vai exigir um esforço completamente diferente. Cada passada na Antártida equivale a duas passadas e meia no alcatrão. No Polo Norte, houve alturas em que nos enterrávamos quase até ao joelho, não conseguíamos correr nem andar, havia 400 metros do percurso em que eu caía, punha as mãos para me içar e enterrava-me no gelo e tinha de fazer um esforço enorme para me levantar. Como tinha de passar 13 vezes naquele local, isso representava um dispêndio de energia brutal, comecei com cãibras e problemas que normalmente não nos acontecem nas maratonas citadinas. Temos que nos desviar de buracos, temos que nos desviar de neve, podemos tropeçar porque os óculos inibem-nos a visão por causa dos congelamentos ...", enumera.
Apenas nos quilómetros 21 e 42, João Neto poderá comer e beber. "E julgo que de sete em sete quilómetros vão ter um ponto de chá quente. Não há tenda sequer, são pessoas da organização que também estarão no exterior a dar esse apoio aos atletas, não é como numa maratona citadina em que qualquer ponto de apoio tem bananas e géis. E nós não podemos levar nada connosco, porque tudo o que levamos congela ao fim de dois minutos, portanto, não merece a pena. Daí a razão da necessidade de ir com bastante gordura boa no sangue para conseguir correr com maior resistência", explica o gestor, que na última escala antes de aterrar no Polo Sul vai abastecer a mala de comida capaz de lhe dar energia para a prova.
"Vou levar muitas latas de atum e em Punta Arenas vou tentar arranjar uns ovos cozidos que durem dois ou três dias e que possa misturar no atum e na gordura do atum. É extraordinariamente enjoativo mas extraordinariamente eficaz", ri-se a antecipar os manjares que o esperam na Antártida. Estes dados que reportam aquilo de que o organismo de Neto precisa para responder da melhor forma possível a uma maratona em condições extremas têm- -lhe sido fornecidos por uma bateria de testes que tem feito a par com a preparação física no Centro Desportivo Nacional do Jamor.
"Faço treinos em que corro a 2 500 metros de altura para ter menor índice de oxigenação, faço análises ao sangue duas vezes por semana, antes e depois do treino, para ver a quantidade de energia que despendo. Além disso, faço uma meia maratona por semana quando estou a treinar para ganhar endurance, mas o treino mais importante de todos acaba por ser nas câmaras frigoríficas onde consigo testar o corpo em condições de frio semelhantes às que vou encontrar no Polo Sul", diz.
Dormir também será desafio
Um frio que João Neto também vai sentir na hora de ir dormir: as tendas ‘dormitório’ – onde cabem duas pessoas – não são aquecidas, pelo que dentro delas vão sentir-se temperaturas de 25 graus negativos e a única forma de não congelar é estar dentro do saco cama ou usar fatos próprios para (muito) baixas temperaturas. "Depois da prova vamos para essas tendas onde vamos ter de dormir, embora o ciclo também seja complicado, porque são 24 horas de dia permanentes nesta altura do ano e não temos quase pontos de aquecimento. O organizador disse-nos, quando foi o último ‘briefing’, que não valia a pena pensarmos que íamos estar muito satisfeitos porque quando chegássemos lá a vontade era de nos virmos embora ao fim de cinco minutos. Por isso, o objetivo é acabar a corrida e tentarmos o mais rápido possível sair dali", brinca quem, e ainda assim, tem de contar também com a imprevisibilidade da permanência no local da prova.
"O mínimo são duas noites mas podem ser mais. A organização já enviou um e-mail a avisar que, mesmo que corra tudo bem e que as condições atmosféricas sejam favoráveis, a corrida se pode atrasar cinco dias", ressalva João Neto. Devido à fragilidade do ecossistema antártico, poucas deslocações podem ser feitas e a utilização de transportes sustentáveis é necessária para minimizar os efeitos no espaço ecológico num extremo do globo sem moradores permanentes (não contar com os pinguins, baleias e focas: espécies características daquela zona) e onde qualquer copo de água a ferver deitado para a atmosfera congela numa fração de segundos. São 14 milhões de quilómetros quadrados de território, onde 55 pessoas oriundas de 18 nações vão correr esta maratona já no próximo dia 24 de novembro.
"Sinto-me sempre permanentemente insatisfeito com qualquer resultado que tenha. Em 2013, depois de correr a maratona de Lisboa, fui correr a maratona de Nova Iorque e, quando cheguei lá, fiquei dececionado com a quantidade de pessoas, achei que estava a fazer uma coisa restrita e havia 35 mil atletas a fazer o mesmo. Nesse dia tomei a decisão de procurar quais seriam as maratonas mais singulares, mais exclusivas", conta, e foi assim que João Neto descobriu as provas do Polo Norte e do Polo Sul. "Depois de terminar este desafio tenho outro projeto em mente que é a maratona do monte Evereste, a 5350 quilómetros de altitude", anuncia o maratonista. Mas antes disso tem de pisar a meta na Antártida. No Polo Norte demorou nove horas a correr uma prova que em Lisboa ou Chicago demoraria quatro. Agora quer superar-se. Mais uma vez.
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