Maria Teresa Horta: a voz do desejo no feminino
Escreveu alguns dos poemas mais sensuais da língua portuguesa.
Maria Teresa Mascarenhas Horta (n. 1937) ocupa um lugar de destaque na literatura contemporânea. Os seus versos burilados até à perfeição conseguem ser declarações de amor de uma ternura comovente, ao mesmo tempo que transmitem uma sensualidade crua, de um erotismo escaldante. Feminista quando era arriscado sê-lo – foi espancada na rua por uma milícia de guardiães da moral machista que não lhe perdoaram o atrevimento – proclamou desde a juventude ser ‘Minha Senhora de Mim’ (1967) e assumiu o desejo do prazer carnal em ‘Ambas as Mãos Sobre o Corpo’ (1970), exigindo a liberdade para as mulheres com os homens e não contra eles. Em 1972 fez História, juntamente com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno: o livro coletivo ‘Novas Cartas Portuguesas’ é uma denúncia da situação da mulher na opressiva sociedade da época. As ‘três Marias’ abalaram a política e os ‘bons costumes’ do Estado Novo. O processo-crime de que foram alvo por ‘atentado à moral’ tornou-se um escândalo internacional. O julgamento tinha sessão marcada para o dia 25 de abril de 1974...
Nascida numa família aristocrática, Maria Teresa Horta é descendente direta dos marqueses de Távora e a sua quinta avó foi Leonor de Almeida, a poetisa Marquesa de Alorna, sobre quem escreveu ‘As Luzes de Leonor’ e ‘Poemas para Leonor’. Publicou o primeiro livro, ‘Espelho Inicial’, em 1960. Já este ano lançou ‘Eu Sou a Minha Poesia – Antologia Pessoal’ e ‘Quotidiano Instável’.
Do livro ‘Eu Sou a Minha Poesia - Antologia Pessoal’, Publicações Dom Quixote
Poema ao desejo
"Empurra a tua espada
no meu ventre
enterra-a devagar até ao cimo
Que eu sinta de ti
a queimadura
e a tua mordedura nos meus rins
Deixa depois que a tua boca
desça e me contorne as pernas com doçura
Ó meu amor a tua língua
prende
aquilo que desprende de loucura
Do livro ‘As Palavras do Corpo (Antologia de Poesia Erótica)’, Publicações Dom Quixote
Invocação ao amor
"Pedir-te a sensação
a água
o travo
aquele odor antigo
de uma parede
branca
Pedir-te da vertigem
a certeza
que tens nos olhos
quando me desejas
Pedir-te sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva
na garganta
Pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios
na tua cara
Pedir-te que me olhes
e me aceites
me percorras
me invadas
me pressintas
Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas
sobre a língua"
Face a face
"Bebi de ti
o suco do teu corpo
Inclinando baixo a boca
em tua taça
Frente a ti
me ponho
me encontro
e sem disfarce
Contigo meu amor
Face a face"
Modo de amar - I
"Lambe-me os seios
desmancha-me a loucura
usa-me as coxas
devasta-me o umbigo
abre-me as pernas
põe-nas nos teus ombros
e lentamente faz o que te digo"
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