MAS QUE RICOS FILHOS

Enchem o peito de orgulho por os verem singrar mas continuam de bolsos vazios. Descobrimos pais modestos de ‘rebentos’ famosos.

03 de agosto de 2003 às 14:26
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"Sempre quis ter uma bola. Mas lá em casa havia outras prioridades. Primeiro entravam os alimentos, os livros e os cadernos, os lápis e as borrachas…e depois, então, a bola. Ora, como os meus pais não tinham muitas possibilidades, é fácil adivinhar que a bola ficava sempre à porta". É com estas palavras que Simão Sabrosa, o ex-capitão de equipa do Sport Lisboa e Benfica, inicia o seu livro ‘A Arte de Simão Sabrosa – Como Tornar-se um Jogador Decisivo’. Nesse mesmo livro, o extremo esquerdo benfiquista confessa aos fãs que a primeira bola de futebol que teve foi, nem mais nem menos, do que uma de trapos, feita pelas mãos da sua própria mãe. Palavras mais que suficientes para se perceber as condições em que o craque do clube encarnado nasceu e cresceu. Mas os tempos mudaram e agora Simão Sabrosa já se pode dar ao luxo de comprar bolas de futebol para dar e vender. O mesmo parece não se poder dizer dos pais do craque que mantêm a mesma vida modesta de sempre. Não se sabe se por opção ou não, mas a verdade é que os pais de Simão continuam a viver em Constantim, Vila Real, uma pequena aldeia, com cerca de mil habitantes, onde o jogador nasceu e viveu até aos 13 anos.

António Macedo trabalha na Real Vidreira, um estabelecimento industrial, em Constantim, de onde se vê a casa da família Sabrosa. "Raramente vejo movimento lá por casa mas sei que eles ainda vivem cá." Quanto à profissão dos pais do profissional de futebol, António Macedo adianta: "Do pai nunca soube nada, a mãe sei que até há uns anos fazia limpezas num pavilhão aqui ao lado." Domingo Costa também tem uma loja de materiais de construção lá na aldeia e garante que os pais de Simão actualmente estão reformados. "Conheço-os bem, vejo-os muitas vezes. O pai dele trabalhava na agricultura mas agora já não." O proprietário diz ainda que o casal não aparenta viver com dificuldades financeiras apesar de continuarem a levar uma vida modesta.

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MILHÕES EM JOGO

O futebol é, por excelência, o desporto-rei, não só por ser a modalidade desportiva que maior número de adeptos tem em todo mundo mas também pelo facto de ser o desporto onde se joga com mais milhões. Alguns jogadores de futebol são mesmo dos homens mais ricos do mundo. E, curiosamente, não são poucos os casos de futebolistas que nasceram no seio de famílias humildes e até com dificuldades financeiras. Fala-se de Simão Sabrosa como se poderá referir o nome de Maniche, Cristiano Ronaldo, Costinha e Nuno Valente. Todos provenientes de famílias pouco abonadas. Ao longo dos anos, graças ao futebol, estes craques da bola conseguiram amealhar uns quantos milhões. Nasceram com o ‘rico’ dom de chutar bolas e a vida deles mudou para sempre. No entanto, aqueles que os trouxeram ao mundo e, provavelmente, os que os incentivaram a seguirem uma carreira futebolística, muito provavelmente pouco viram a vida mudar, a não ser é claro o peito cheio de orgulho por ver o ‘rebento’ singrar.

A SERVIR ÀS MESAS

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Descobrimos o pai de Maniche a trabalhar como empregado no restaurante Real Sport Clube Massamá. A servir às mesas ou atrás do balcão, Ulisses, como se chama, vive em Lisboa com a mãe e com a mulher. Segundo o pai do médio centro do Futebol Clube do Porto, "toda a família já passou por muitas dificuldades, embora as coisas tenham vindo a estabilizar". Ulisses tem assistido com agrado à ascensão da carreira dos filhos (Jorge Ribeiro, irmão de Maniche, também é jogador no Varzim, clube da primeira divisão) e, humildemente, diz que continua a trabalhar porque sempre gostou de o fazer. Aos 50 anos, diz que nunca ponderou a hipótese de deixar de trabalhar e que também os filhos nunca o sugeriram. "Daqui a uns anos talvez, nunca se sabe", acrescenta. Quanto à mãe do profissional, Esmeralda, trabalha como empregada de limpeza. Confirma Ulisses: "Ela faz limpezas duas a três vezes por semana numa residência em Lisboa, o resto do tempo está em casa".

O senhor Dinis é roupeiro do Clube de Futebol Os Andorinhas, no Funchal. Por lá, toda a gente sabe que ele é o pai do sportinguista Cristiano Ronaldo. Entrámos em contacto para o clube e, dado que o pai do jogador se encontrava de férias, falámos com Rui Alberto, o segurança. "Somos muito próximos, eu estou cá há três anos mas o Dinis já cá anda, há muitos mais", contou. Apesar da proximidade entre ambos, Rui Alberto confessa não saber muitas coisas do foro privado do colega de trabalho. No entanto, adiantou que ele é uma pessoa "muito querida" e que é visto como "um homem humilde" lá no clube. Quanto ao apoio prestado pelo jovem avançado do Sporting ao pai, respondeu: "Ah, isso não lhe pergunto mas que ele leva uma vida bastante modesta, leva".

Descobrimos ainda que o pai do médio centro do Futebol Clube do Porto, Costinha, é taxista na cidade de Lisboa e o pai do lateral esquerdo do clube dos ‘dragões’, Nuno Valente, era até há bem pouco tempo porteiro no estádio de Alvalade. Agora, com as obras do futuro Alvalade XXI desconhece-se a sua ocupação.

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O MEU IRMÃO CARPINTEIRO

Esteve perto de ser profissional de futebol mas ganha a vida como carpinteiro de construção. Chama-se Pedro Camacho, habita numa casa pequena na zona histórica de Cieza, em Espanha, e é um desconhecido. Só quem convive de perto com Pedro é que sabe que ele é irmão do actual treinador do Benfica, José António Camacho. Pedro também deu uns toques na bola mas faltaram-lhe oportunidades. Foi guarda-redes e esteve a um passo de jogar na primeira divisão espanhola. O Cordoba quis contratá-lo, mas a transferência acabou por não se concretizar. José António quase seguiu os mesmos passos entre as redes mas acabou por se celebrizar na ala esquerda no país vizinho. Actualmente, é um treinador conhecido em todo o mundo e a sua reputação é única em Espanha.

Outro caso semelhante é o de Yuri Didenko, um bombeiro em Cacilhas que ganha 450 euros por mês. O irmão dele é, nada mais nada menos, do Shevchenko o craque do AC Milão, considerado um dos melhores futebolistas do momento. Apesar de serem filhos de pais diferentes, a mãe é a mesma. Mesmo assim acabaram por crescer separados, não deixando de haver um laço forte entre os dois. Yuri queria ter sido basquetebolista e chegou a ser profissional por um clube bielorrusso, o RTI-Minsk. Aos 22 anos sofreu uma lesão que lhe arruinou com esse sonho.

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MESADA DE CINCO MIL EUROS

A história de Marius Niculae é outra. Recentemente o 'Record' publicou uma entrevista com o pai do avançado sportinguista, Constantim Niculae, onde este atribuía as várias lesões dos últimos tempos sofridas pelo filho à ‘má vida’. Desde que o profissional ingressou no Sporting, que se encontra de relações cortadas com os pais, mais precisamente, desde que começou a namorar com Cristina que, segundo os pais, é uma ‘má influência’. Mas o avançado não se deixou ficar e logo no dia seguinte usou o mesmo jornal para responder. Niculae afirmou que os pais estão revoltados com o facto de quererem comandar a sua vida e ele não o permitir. "Da última vez que esteve em Portugal, o meu pai queria 350 mil euros mas eu não tinha esse dinheiro. Ele pensou que eu é que não queria dar. Já mando cinco mil euros por mês para a Roménia e mesmo assim não estão contentes!", ripostou.

CURIOSIDADES DE HOLLYWOOD

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Mas quem pensa que só entre as estrelas do futebol é que há casos de homens ricos com famílias ‘remediadas’ pode dar-se como enganado. Em Hollywood, as celebridades que nos habituámos a ver nas telas e sobre as quais pensamos saber tudo também têm familiares com profissões comuns e de ordenado baixo. Quem diria, por exemplo, que a mãe do actor Eddie Murphy, Lillian Murphy Lynch, é telefonista ou que James Grant, pai do galã inglês Hugh Grant é vendedor de carpetes. Mais. Passaria pela cabeça de alguém que Betty Sue Palmer, mãe do rebelde Johnny Deep, é empregada de mesa ou ainda que a mãe de Kevin Spacey, já galardoado com um Oscar pelo controverso filme ‘Beleza Americana’, é secretária. E os pais da namorada de Tom Cruise, um dos homens mais desejados da sétima arte? Sabe-se que a mãe de Penelope Cruz, Encarna Cruz, é cabeleireira e o pai, Eduardo Cruz, mecânico. Quanto à eterna ‘femme fatale’ de Hollywood, Sharon Stone, consta que a mãe, Dorothy Stone, é dona de casa e ven-dedora de produtos Avon e Joseph Stone, seu pai, empregado numa fábrica.

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