MEMÓRIAS DA FESTA

Ainda hoje, antes de cada final, os relatores da Renascença comem leitão na mata do Jamor. O momento convida, a Taça de Portugal sempre foi uma festa, até porque só ali os pequenos clubes podem brilhar.

16 de maio de 2004 às 00:00
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O ritual repete-se todos os anos. Por volta das 11 horas, António Ribeiro Cristóvão e alguns colegas da Rádio Renascença encontram-se nas imediações do Estádio Nacional, o palco privilegiado das finais da Taça de Portugal. Momentos antes do pontapé de saída, os jornalistas, instalados nas matas em redor do recinto, começam a preparar o almoço. “É a melhor parte do dia. Levamos uns leitões e ficamos ali a conversar. Sem qualquer tipo de rivalidade”, reconhece o director de informação desportiva, pronto para repetir a dose este domingo. O entusiasmo é que já não é o mesmo: “Depois do incidente com o ‘very light’, em 1996, fiquei sem vontade de voltar ao Jamor. A final devia ser uma grande festa de futebol e não uma luta entre claques rivais.”

Há trinta anos, quando Ribeiro Cristóvão se estreou como relator numa final da Taça, o ambiente era de exaltação democrática. Dois meses após o 25 de Abril, os portugueses voltaram a festejar a Revolução dos Cravos nas bancadas e no relvado do Estádio Nacional – curiosamente, uma das obras mais emblemáticas do Estado Novo.

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Helicópteros sobrevoaram o recinto e lançaram centenas de cravos vermelhos. António Spínola, o então presidente da Junta de Salvação Nacional, foi recebido na tribuna ao som de ‘Grândola Vila Morena’, de Zeca Afonso. E já na segunda parte do jogo, o primeiro-ministro Adelino da Palma Carlos quis falar e pediu aos presidentes dos clubes adversários, Sporting e Benfica, para se abraçarem em nome da Liberdade. João Rocha e Borges Coutinho obedeceram e o Estádio do Jamor quase veio abaixo com tantas palmas.

ORDEM PARA FESTEJAR

Um dia inesquecível para o então jornalista do Rádio Clube de Huambo – que nessa altura ainda vivia em Angola com a mulher e os três filhos menores. “O recinto estava cheio e as pessoas entusiasmadas. Lembro-me que equipa encarnada entrou melhor no jogo, mas quem venceu foi o Sporting. São coisas que acontecem no futebol…” Mas nada disso ensombrou o espectáculo. Pela primeira (e última) vez na história da Taça de Portugal, vencer não era o mais importante. “Festejar era a palavra de ordem”, remata o homem do desporto da Renascença. Desde que começou a trabalhar na emissora católica, em 1976, Ribeiro Cristóvão tem sido uma presença assídua na final da Taça – mas nunca mais a viveu com tanto entusiasmo.

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NERVOS DE AÇO

A prova rainha do futebol português teve a sua edição de estreia na época de 1938/39. Disputada a 26 de Junho, colocou frente-a-frente a Académica e o Benfica. Os encarnados eram os favoritos, mas no Campo das Salésias, a Briosa deu a volta ao jogo e ganhou a primeira Taça de Portugal por 4-3 – comprovando, logo desde o início, que as equipas de menores recursos podiam derrotar as mais consagradas.

O sistema de eliminatórias a uma só mão concorre para que se registem resultados surpreendentes. Não é por isso de estranhar que sejam já onze os clubes detentores do troféu – à frente mantém-se ainda o Benfica com 23 títulos conquistados, mas o Leixões, o Sporting de Braga, o Belenenses ou o Beira-Mar já levantaram a taça.

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“Surpresas como essas continuam a ser um dos atractivos da prova. O resultado final é sempre imprevisível”, reconhece Joaquim Costa Martins, jornalista da Antena 1. Da primeira vez que fez um directo do Estádio do Jamor, já não guarda recordações. “Nervoso estava de certeza. Costuma-se dizer que só não tem nervos quem é irresponsável.” Para os disfarçar, respirou fundo antes de começar a emissão, aclarou a voz e esmerou-se para transmitir aos ouvintes as emoções de um jogo ao vivo. A prova foi superada e o jornalista foi convidado a integrar a equipa de comentadores da RDP, tornando-se numa presença constante nas finais da Taça.

Já era um relator experiente quando ocupou o seu lugar no estádio para fazer a cobertura do Boavista-Benfica, na época 1992/93. “Um dos melhores desafios a que assisti”, confirma. Os dois golaços de Paulo Futre, vestido de encarnado, deixaram Costa Martins e os seus colegas de profissão pregados à cadeira. Durante 90 minutos ninguém se atreveu a tirar os olhos da bola – que num ápice já estava nos pés dos avançados benfiquistas. A equipa da Luz acabaria por vencer os axadrezados por 5-2, numa das mais emocionantes finais da Taça.

“Esta competição é, e será sempre, a maior festa do futebol português”, reafirma Costa Martins, para quem a história da Taça se confunde com a história do próprio Estádio Nacional, uma ilha verde na Grande Lisboa. “Aquele palco é magnífico. Não imagino a final noutro recinto.”

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QUERIDAS FILHAS

O episódio negro que se viveu no Estádio do Jamor, em 1996, quando um ‘very light’ disparado por alguns elementos da claque benfiquista ‘No Name Boys’ atingiu mortalmente o sportinguista Rui Mendes, deixou Fernando Correia em estado de choque. “As minhas duas filhas estavam a assistir ao jogo, duas filas atrás da vítima. Como pai, só me apeteceu largar tudo e correr para as bancadas”, conta o jornalista da TSF, com 45 anos de profissão. Mas o relato não podia ser interrompido. “Foi uma situação complicada. Só algum tempo depois é que soube que elas estavam bem.” O Benfica ganhou a Taça mas não havia motivos para festejar.

A falta de segurança e de condições de trabalho são duas das razões que levam Fernando Correia a criticar a manutenção da final da taça no Jamor. “Este ano vou lá estar, ao lado do Jorge Perestrelo. Vamos ter de trabalhar debaixo de um toldo. Aquele estádio já não está preparado para uma competição com estas dimensões.”

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Inaugurado a 10 de Junho de 1944, o estádio já foi palco de 51 finais. A que teve mais golos foi em 1952, Fernando Correia estava lá: “Fui só como espectador, ainda não trabalhava na rádio. Nesse ano o Benfica venceu o Sporting por 5-4 num jogo de emoções fortes”, recorda.

De má memória é o encontro entre o FC Porto e o Sporting, em 1994. A vitória dos azuis e brancos não agradou aos sportinguistas, que aproveitaram uma falha na segurança para atirar garrafas e outros objectos contra a equipa do Porto. João Pinto tentou defender-se, agitando a Taça como se fosse um taco de basebol. E nem a ministra da Educação, Manuela Ferreira Leite, escapou à confusão. “Foi um mau espectáculo. São estes incidentes que relegam para segundo plano o desporto. Só espero que o Benfica/Porto, este domingo, seja diferente.”

1939 – Foi a primeira final, a 26 de Junho. No Campo das Salésias, a Briosa derrotou os encarnados por 4-3 e entrou para a história como a primeira vencedora da Taça de Portugal.

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1944 – O resultado mais desnivelado de sempre. O Benfica venceu por 8-0 a equipa do Estoril Praia, que jogou uma hora com nove jogadores. Rogério ‘Pipi’ marcou cinco golos.

1952 – A final com mais golos. O Benfica venceu o Sporting por 5-4. Rogério ‘Pipi’ volta a baralhar os defesas adversários e consegue um ‘hat-trick’.

1961 – A primeira final fora de Lisboa foi nas Antas. Os homens do Leixões marcaram dois golos ao Porto, levaram a Taça e foram à Europa.

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1967 – O jogo mais longo. Vitória de Setúbal e Académica jogaram 144 minutos: as regras mandavam que houvesse prolongamentos e se jogasse até alguém marcar.

1969 – A Académica perdeu com o Benfica por 2-1. Aproveitou a final para fazer a maior manifestação de sempre contra o Estado Novo. O jogo não foi transmitido pela televisão.

1974 – O ano da Revolução dos Cravos. No Jamor o ambiente foi de excessos. O Sporting venceu os encarnados e o prémio de 1000 contos foi democraticamente dividido por todos.

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1980 – O ano em que a Taça não foi entregue, o ambiente quente não o permitiu. Vitória do Benfica de Mário Wilson contra o Porto de Pedroto: 3-1

1982 – O treinador do Sporting de Braga, Quinito, apresentou-se de 'smoking' branco na final frente ao Sporting. De nada lhe valeu, perdeu por 4-0.

1990 – A vitória dos mais pequenos. Sem pedir licença, Estrela da Amadora e Farense derrotaram as equipas preferidas e chegaram à final da Taça.

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1994 – A vitória do Porto por 2-1 não foi bem recebida pelos adeptos do Sporting. Garrafas e outros objectos foram atirados conta a equipa azul-e-branco.

1995 – Com Figo e Balakov ainda na equipa, o Sporting bateu o Marítimo por 2-0. Nessa mesma noite de 10 de Junho, um grupo de ‘skinheads’ matou Alcino Monteiro.

1996 – O dia da vergonha. É disparado um ‘very light’, que atinge mortalmente o sportinguista Rui Mendes. O Benfica ganha o jogo mas os festejos são comedidos.

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