Militares moderados juntam-se ao PS

O Movimento das Forças Armadas está dividido: os militares moderados aliam-se ao Partido Socialista contra o PCP e a ala revolucionária.

08 de maio de 2005 às 00:00
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Os habituais clientes da cervejaria Solmar, a dois passos do Coliseu de Lisboa, tiveram uma companhia muito especial na noite de 2 de maio de 1975. A família Soares também ali jantava com um grupo de destacados dirigentes socialistas. O grupo de políticos estava animado – e boas razões tinha para estar feliz: comemorava os aniversários de Maria de Jesus Barroso e de Salgado Zenha e festajeva a manifestação que o PS convocara à pressa para essa tarde com assinalável êxito. Já no final do jantar, juntou-se à mesa socialista Francisco Sousa Tavares.

Na ressaca dos incidentes no dia anterior, na festa do 1.º de Maio, quando Mário Soares, líder do partido mais votado, foi impedido pelos piquetes comunistas de subir à tribuna e discursar, o PS resolveu convocar uma manifestação de desagravo em Lisboa. Reunidos na sede do partido, em S. Pedro de Alcântara, na manhã do dia 2, os dirigentes socialistas lutavam contra o tempo: como convocar as massas para esse mesmo dia, como dar-lhes a conhecer a hora e o local da manifestação? Na véspera, tinham abandonado as comemorações de 1 de maio – e, inesperadamente, formou-se atrás deles uma multidão de apoiantes. Soares queria aproveitar a vaga. Era ele o mais entusiasta de uma manifestação no dia 2.

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Manuel Alegre sacou da caneta de aparo e redigiu a convocatória. O texto foi batido em ‘stencil’ e as policopiadoras fizeram o resto. À hora do almoço, já estavam impressos uns bons milhares de exemplares de comunicados – que os dirigentes socialistas, eles próprios, se encarregaram de distribuir, de mão em mão, Rua da Misericórdia abaixo até ao Chiado. Desceram ao Rossio e começaram a subir a Avenida da Liberdade – já então levavam muita gente atrás. Foram direitos ao Marquês de Pombal. Pararam à frente do ‘Diário de Notícias’ e manifestaram-se ruidosamente contra o novo director, José Saramago. Dias antes, um editorial do jornal defendera a pena de morte para os inimigos da Revolução.

A manifestação tinha sido um êxito. O Partido Socialista passou a desfilar pelas ruas de Lisboa, diariamente, com muita gente a atrás. Mas o ruidoso protesto à porta do ‘Diário de Notícias’, em 2 de Maio, havia de sair cara aos socialistas. Nesse mesmo dia, estalou um conflito no jornal ‘República’, um vespertino ‘amigo’ dos socialistas, dirigido por Raul Rego. Jaime Gama era então redactor do ‘República’. A crise teve início com a eleição de uma Comissão Coordenadora dos Trabalhadores (CTT). Agravou-se em 19 de Maio, quando a CCT ocupou as instalações e suspendeu a administração, a direcção e a chefia de redacção – com o argumento de que o jornal estava ao serviço do Partido Socialista e contra a revolução. O director e grande parte da redacção ficaram sob sequestro - entre eles, Raul Rego, Vítor Direito, João Gomes, Jaime Gama, Arons de Carvalho, Álvaro Guerra, Mário Mesquita, Rui Camacho, Helena Marques... O caso ‘República’ acabou por levar ao rubro o combate entre o PS e o PCP: os quatro ministros socialistas demitiram-se e o IV Governo Provisório caiu.

Mas enquanto o PS arrastava multidões pelas ruas de Lisboa, a exigir do governo “mais pluralçismo”, o primeiro-ministro Vasco Gançalves não mudava a agulha rumo ao socialismo. Em 9 de Maio, são publicados mais dois diplomas em matéria económica: as empresas cimenteiras e de celulose são nacionalizadas. Quatro dias depois, é decretada mais uma nacionalização - a da tabaqueira.

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À medida que o Partido Socialista se movimenta nas ruas, entre os 25 membros do Conselho de Revolução um grupo de militares mostram os primeiros sinais de descontentamento. O Movimento das Forças Armadas está dividido em três alas: uma mais numerosa, próxima do PCP, liderada por Vasco Gonçalves; a ‘radical’, de Otelo Saraiva de Carvalho; e a ‘moderada’, agrupada em torno de Ernesto Melo Antunes.

No Conselho da Revolução, porém, um punhado de oficiais começa a discordar da actuação do primeiro-ministro e do Partido Comunista. Estes militares haviam de passar à História como o Grupo dos Nove – de que farão parte Melo Antunes, Vasco Lourenço, Canto e Castro (aderiu, mais tarde, à rede bombista de extrema-direita), Vítor Crespo, Sousa e Castro, Costa Neves, Vítor Alves, Franco Charais e Pezarat Correia. Estes militares, estrategicamente próximos do Partido Socialista, acabaram por ser expulsos do Conselho da Revolução.

1 de Maio - Socialistas manifestam-se na festa comemorativa do 1.º de Maio, em Lisboa: Mário Soares e Salgado Zenha são impedidos pelo PCP de subir à tribuna, onde se encontravam o primeiro-ministro, Vasco Gonçalves e o Presidente da República, general Costa Gomes; Sai o primeiro número de ‘O Jornal’, dirigido por Joaquim Letria.

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4 de Maio - manifestação do partido Socialista em Portalegre, no Alentejo, contra a Intersindical.

5 de Maio - Mário Soares e Álvaro Cunhal encontram-se na sede do PCP, na Rua António Enes, em Lisboa; É oficialmente constituído o MDLP, Movimento Democrático de Libertação de Portugal, grupo clandestino de inspiração spinolista que se propunha travar o ‘avanço comunista’ à bomba e a tiro.

6 de Maio - Comício do PPD, no Estádio 1.º de Maio, em Lisboa.

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OTELO SARAIVA DE CARVALHO

Serviu em Angola como capitão, entre 1961 e 1963, e na Guiné, com António de Spínola, entre 1970 e 1973. A Guiné foi o cadinho onde fervilhou a revolta dos oficiais que conduziu ao Movimento das Forças Armadas e ao 25 de Abril de 1974. Otelo foi o comandante operacional do golpe militar que derrubou o Estado Novo. Mas rapidamente saltou dos braços dos spinolistas para a extrema-esquerda. Graduado em brigadeiro, chefiou o COPCON – uma estrutura militar que ele transformou em guarda avançada da revolução.

O QUE DIZIAM OS MILITARES MODERADOS

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Os militares que constituiram o Grupo dos Nove, muitos deles ‘herdeiros’ do 25 de Abril, tentaram travar desde o início a caminhada revolucionária. No auge da luta contra as intenções do Partido Comunista e da ala do Movimento das Forças Armadas que o apoiava, publicaram o chamado Documento dos Nove. Eis os passos mais importantes:

- “O País encontra-se profundamente abalado e defraudado relativamente às grande esperanças que viu nascer o MFA (...). Alarga-se dia-a-dia o fosso aberto entre um grupo social minoritátrio, portador de um certo projecto revolucinário, e praticamente o resto do País, que reage violentamente às mudanças que uma certa vanguarda revolucinária pretende impor (...)”

- “(...) Os subscritores deste documento recusam quer o modelo de sociedade socialista tiopo europeu oriental, quer o modelo de sociedade social-democrata em vigor em muitos países da Europa Ocidental (...). Lutam por um projecto político de esquerda (...). Recusam a teoria leninista de vanguarda revolucionária que impõe os seus dogmas políticos de forma sectária e violenta (...)”

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- “(...) Defendemos um modelo de socialismo inseparável da democracia política construído em pluralismo político (...)”

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