"Morrer nunca me passou pela cabeça"
Chegar a Angola foi uma viagem maravilhosa. Mas estar no mato era difícil, sentíamos medo. depois entrávamos na rotina e passava
Na tropa, era furriel de manutenção auto, mais conhecido por ‘gasolinas’. Era assim que se chamava a quem tomava esta missão. Desse tempo, recordo que a minha chegada a Angola foi um passeio maravilhoso. Fui de barco, no ‘Vera Cruz’, saímos a 9 de Julho e chegámos a Luanda a 18. Depois de cinco dias, fomos para norte, para a zona de Dembos. Aí havia condições, fomos substituir uma companhia, tínhamos as nossas instalações feitas de madeira e não estávamos mal servidos. Mas estar no mato era sempre difícil. Não havia água, não havia lenha, e tínhamos de estar sempre à procura das coisas mais básicas. Eu tinha a função de comandar. Tinha a meu cargo 23 homens, entre mecânicos e condutores e, apesar de não ser fácil, lá resolvemos a situação.
Nos primeiros três ou quatro meses, sentíamos receio. Havia sempre o medo de que nos pudesse acontecer alguma coisa, apesar de estar esclarecido do que se passava na guerra, de saber que a situação em Angola era bem menos difícil do que na Guiné, por exemplo. Mas a dada altura habituávamo-nos. Entrávamos numa rotina e o medo passava. Sentíamos que não iria haver surpresas e felizmente não houve. Morrer nunca me passou pela cabeça.
O mais difícil dos anos em Angola foi suportar uma situação, quando já estava a acabar a comissão militar, em que um capitão me obrigou a ir na coluna com os guarda-costas de outros que estavam a abrir uma picada. Fomos dar apoio militar, mas correu mal e morreu um dos nossos. Tivemos muita dificuldade em sair dali e aquilo afectou-me muito, porque estava mesmo no fim da comissão.
Luanda era fascinante
Felizmente nunca fui ferido e só estive mais uma vez debaixo de fogo, em Zala, quando fui visitar um amigo. O que mais recordo de Angola é precisamente o convívio, fiz amigos para a vida, com quem ainda hoje mantenho contacto. A certa altura, fui para Luanda, para os serviços de manutenção, e durante oito meses passava sete dias no norte e outros dez em Luanda. Esses tempos foram maravilhosos.
A vida nocturna daquela cidade era fascinante para quem, como eu, era jovem, solteiro e descomprometido, com dinheiro no bolso e um carro. Ganhava cinco mil escudos, que era um ordenado excelente, tanto lá como na metrópole, como se dizia então. Íamos a bares, a cabarets, bebíamos garrafas de cerveja e de whisky. Para um rapaz como eu, nascido em São Martinho do Campo, Santo Tirso, e educado num seminário, aquilo era brutal. Luanda era uma cidade cosmopolita, aberta, informal, ninguém se tratava por engenheiro ou doutor, as pessoas eram tratadas pelo nome – José, António ou João.
Foi um processo de vivência diferente. Conheci muitos civis, pessoas diferentes. Em Angola, nós, militares portugueses, não éramos marginalizados. Hoje, reconheço que a ida para Angola me abriu o horizonte. Parece absurdo dizer isto, mas foi lá que a minha mente cresceu. Havia mais liberdade, acesso a livros que cá eram proibidos. E li tudo, desde os russos aos brasileiros, Jorge Amado, José Lins de Rego e Jorge Veríssimo. Em Angola, fui um privilegiado. Gostei tanto que voltei. Após 1975, estive mais três anos em Portugal e depois fui para a Venezuela. Trabalhei, casei-me, formei as minhas duas filhas e, agora, reformado, voltei a Portugal. lD
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