Na capital do tuning
Amam os carros, cuidam deles, gastam rios de dinheiro a embelezá-los. São os fãs do ‘tuning’, encontraram-se aos milhares em Paços de Ferreira.
A entrada do Mini Jonito no Parque de Exposições da capital do móvel faz correr muito boa gente, e o caso não é para menos. Lá dentro, mascando pastilha elástica, o orgulhoso proprietário da obra de arte, também ela minimal, faz de tudo para chamar a atenção. Acelera, rodopia, solta petardos com o tubo de escape, posa para a fotografia e quebra a monotonia que se foi apoderando da tarde – agora que os cerca de 70 carros em exposição estão vistos, os amigos visitados e as novidades inspeccionadas.
Uma pequena multidão de curiosos, parte deles com borbulhas na cara, junta-se em redor do Mini, enquanto o proprietário lhe abre as entranhas, revelando um estranho ser do qual pulsam decibéis de som e luzes a piscar. No porta-bagagens, a instalação artística combina uma Playstation com um diabo da Tasmânia de pelúcia e tem assinatura da Auto Zé Oliveira. E à frente, por baixo do motor resplandecente de cromados e néons, dois cupidos pretos, um de cada lado, dão um toque romântico à matrícula.
Revelada a criação, para gáudio dos espectadores que filmam o Mini Jonito, o proprietário regressa à curiosa arquitectura de interiores da viatura e continua o concerto de rateres, soltando do tubo de escape nuvens negras de monóxido de carbono que sobem para o tecto do pavilhão, em novelo.
“O frio empurra isto para cima, caso contrário adormecíamos e morríamos asfixiados”, explica a sorrir Agostinho Carvalho.
Ele é o locutor de serviço na segunda Concentração My Tuning Car/Q8, que decorreu no passado fim-de-semana em Paços de Ferreira e que reuniu cerca de três milhares de pessoas nos dois dias.
Mas não é só por causa do frio que o evento está morno: “Antes do acidente de Palmela vinha muito mais gente, as pessoas começaram a confundir tuners com street racers e afastaram-se”, justifica o inventor da máxima (‘Tuning não é crime’) que se pode ler nos autocolantes em quase todos os carros – “Nunca mais me vou esquecer”–, e acrescenta, “a Manuela Moura Guedes abriu a boca naquela noite e disse ‘tunings assassinos’... de então para cá tem sido uma perseguição”.
TUDO BONS RAPAZES
De microfone na mão, ora anunciando o programa, ora ralhando com aceleras que não resistem à tentação de exibir a potência dos motores, mesmo com os carros parados, Agostinho Carvalho vai debitando os vastos conhecimentos de uma modalidade que acompanha de perto há seis anos – não como praticante, mas como locutor das concentrações: “Isto não pode desaparecer porque movimenta 200 mil pessoas. No Verão, em Braga, estiveram 25 mil num encontro e há famílias inteiras a viverem do tuning”.
Se as coisas já estavam cinzentas, ficaram pior com o espectro da entrada em vigor do novo Código da Estrada, cujas regras são mais apertadas no que diz respeito a características e transformação de veículos. E uma ‘street race’ ilegal, que custou a vida a três jovens no passado mês de Setembro, veio ensombrar ainda mais o horizonte dos fanáticos do transformismo automóvel.
“Até agora não havia legislação específica. Se o GNR estava bem disposto era uma coisa. Se não, lá vinha uma multa disparatada”, continua Agostinho Carvalho. A caça ao ‘tuning’ começou logo a seguir ao desastre de Palmela. A publicidade negativa que a generalidade da imprensa fez da modalidade, levou a confundi-la com ‘street racing’, “uma americanice que alguns radicais do Sul trouxeram para Portugal”. E se entre os ‘tuners’ existem viciados em emoções fortes e adrenalina, nem tudo é farinha do mesmo saco.
Alexandre Almeida de 28 anos, por exemplo, é um pacato pai de família que esta noite não foi à cama para deixar a reluzir o seu Honda CRX – sonho importado e trabalhado peça a peça, à medida do bolso e da imaginação do artista: “Normalmente mandam-me parar e já paguei multas pesadas, mas a paixão é tanta que não me importo”.
Além disso, sabe que no seu carro cor de pérola, com nuances que o fazem verde à noite e encarnado debaixo de luzes, existem materiais e situações ilegais. Como o filtro inflamável dos vidros, as jantes e os faróis.
Ainda assim, sente-se vítima de injustiça. Segundo ele as alterações no carro são puramente estéticas ou de conforto, e não apresentam quaisquer riscos. Seja como for, em nome da filha de 10 anos, que é aficcionada como ele, e da mulher, que não tem ciúmes dos trocados a mais gastos no embelezamento do carro, Alexandre Almeida está disposto a aceitar as novas regras. Até porque se fartou de ser obrigado a desmontar todo o seu trabalho na véspera das inspecções periódicas.
Thierry Fernandes, 22 anos, manobrador de máquinas nas Caldas das Taipas, partilha a mesma opinião: “Quando sair a lei, em Janeiro, não me importo de pagar para registar no livrete as alterações que fiz na carrinha”.
O que não quer é perder o resultado das muitas horas de trabalho e dos três mil euros investidos, naquilo que em tempos foi um Fiat Bravo, assemelhando-se agora a uma espécie verde de objecto terrestre não identificado.
Pelo sim, pelo não, enquanto as coisas não se resolvem, o dia-a-dia faz-se com outro carro: “Não estou para ser multado, e se for, não pago, prefiro ir a tribunal. Acho injusto. As empresas vendem as peças, o Estado arrecada os impostos e nós, que as comprámos, somos multados”.
ADMIRÁVEL MUNDO
Ao fim da tarde, entre aceleradelas e instalações sonoras capazes de fazer inveja a muito boa discoteca, o barulho no pavilhão é infernal. Das malas abertas dos carros, alinhados em fila, escapam os ‘hits’ da estação, mil e uma versões do Summer Jam, outras tantas de Dragostea. A potência é tal, que os bonecos de pelúcia dançam em cima das colunas, com a vibração.
Indiferentes à poluição, sonora e não só, homens, mulheres e crianças admiram os carros, um a um, apontando pormenores e filmando inovações. Os donos ficam por perto, dando explicações, quebrando a rotina com o tubo de escape, ou participando nas provas de iluminação e de som em potência. O recorde mundial são 172 de-cibéis, “uma verdadeira loucura”, anuncia o microfone de Agostinho Carvalho. Não muito longe disso, um Volkswagen Carocha de aspecto inofensivo, regista 148.5 decibéis.
Igualmente barulhento, mas bastante menos discreto, o carro a preto e branco de Eduardo Ribeiro, galego de Tuy de 26 anos, é inspirado no dominó. As garras na porta lateral dão-lhe um toque exótico e a iluminação a néon dos interiores combina com o ambiente tecno do ecrã, do DVD, da Playstation e do auto-rádio: “É um carro da noite”, explica o artista, que leva as mãos à cabeça só de ouvir falar em dinheiro: “Já lá vão 15 mil euros”. Mais do que lhe custou o original.
Modificar, alterar, afinar, personalizar, tornar único. Esta é a essência de uma modalidade que chegou a Portugal há menos de uma década, passando rapidamente a subcultura. Em redor do ‘tuning’ movimenta-se um comércio florescente de peças e acessórios, oficinas especializadas em transformações, merchandising variado. Há toques polifónicos, colectâneas musicais “bombásticas”, filmes e personagens de culto, como Sid Nitroso, herói do filme ‘Velocidade Furiosa’. Além disso, os clubes de associados crescem como cogumelos, de Norte a Sul do País.
ONE MORE TUNE
Depois do jantar chegam mais carros e curiosos, há uma nuvem de fumo preto no ar. Nos microfones anunciam a eleição da Miss Tuning 2004 e a prova de burnout (piões no asfalto até queimar os pneus, recebendo em troca ‘sapatos novos’).
Hélder Costa, de 21 anos, fica mais excitado com o burnout do que com as misses.
Ao volante do seu Ford Escort, que transformou num misto de Ferrari com folclore, fala em dar “uma mexidela para aumentar a potência do motor”. Apesar de saber que é proibido: “Eu cá nunca vi um porco de bicicleta, mas já vi um Mini passar por mim a 250 à hora”, justifica.
Um seu homónimo, Hélder Coval, operário da construção civil de Sta. Maria da Feira, também gosta destas provas, mas não aqui: “Não se devem misturar as águas. Os verdadeiros ‘tuners’ não fazem habilidades, querem os carros impecáveis”. E o seu é bem exemplo disso. Desde que a mulher lhe ofereceu o primeiro ‘aileron’, nunca mais parou de embelezá-lo.
Na rua, as pessoas amontoam-se para verem três carros aos esses, roncando e resvalando perigosamente na areia. É sem dúvida o momento da noite, com os organizadores a correrem desesperados atrás dos artistas para evitarem excessos. E nem as formas curvilíneas das misses, enroladas em pretos e peles, foram capazes de fazer subir mais alto os termómetros numa noite glaciar. Eles vivem.
Se a expansão do ‘tuning’ em Portugal aconteceu de forma caótica, muito se deve à falta de legislação que enquadre, homologando e tornando conformes à lei, as alterações feitas pelos adeptos nos seus veículos.
Nos últimos anos, o crescimento desregrado do fenómeno ganhou a atenção das autoridades fiscalizadoras, brigadas de trânsito e centros de inspecção que, sem suporte legal, cometeram as arbitrariedades do costume, comprando uma guerra com os ‘tuners’ que se dizem perseguidos.
Ora como não há fome que não dê em fartura, a entrada em vigor do novo Código da Estrada é agora o inimigo público número um para os amantes do ‘tuning’. Em concreto os artigos 114º e 115º, que se referem às características e à transformação de veículos, sofreram alterações no conceito e nas coimas a pagar por quem infringir as regras.
E põe-se até a possibilidade de apreensão do veículo infractor, obrigando-o em seguida a uma inspecção extraordinária para aprovação. Deverá ainda ser obrigatório um certificado de matrícula, nome que a Direcção-Geral de Viação dá ao novo livrete, no qual passarão a constar informações sobre a potência, decibéis produzidos e sobre o dióxido de carbono emitido.
No entanto nem tudo é negro no futuro do ‘tuning’ lusitano. A mesma DGV, “que muitos vêem como inimiga” está a trabalhar num documento que servirá de suporte ao Código da Estrada e que, “em princípio”, irá facilitar a vida aos ‘tuners’ que pretendam circular legalmente. Isto porque, “simplifica os processos de homologação e permite que os veículos sejam inspeccionados num centro especializado.
MULTAS, NÃO OBRIGADO
Actualmente, para homologar um veículo possibilitando a sus circulação na estrada, é preciso iniciar, junto da Direcção Geral de Viação, um processo longo, complexo e burocrático que poucos têm paciência para aguardar.
Ora, o documento agora em preparação por esta mesma direcção-geral tem como objectivo simplificar e agilizar processos.
Em entrevista à revista ‘Maxi Tuning’ deste mês, o principal responsável pelo grupo de trabalho, explicava que em primeiro lugar será criado um regulamento de homologação dos acessórios automóveis, permitindo às empresas venderem peças em conformidade com as normas europeias em vigor – e todas testadas num centro específico da DGV.
Um segundo passo diz respeito aos proprietários de veículos tunizados que poderão solicitar à DGV a homologação das suas viaturas com os acessórios instalados.
A solução encontrada deverá passar pela anexação de um documento ao livrete, onde estarão especificados os acessórios homologados para a viatura. Em seguida, esta será sujeita a uma verificação de conformidade, num centro de inspecção do tipo B, novidade que está planeada para entrar em vigor até 15 de Fevereiro e que permite, entre outras coisas, testar a potência do veículo.
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