“Não havia tempo para ter medo”

Uma das coisas que mais me chocou foi ver que os restos mortais de quatro corpos não ocupavam mais de 80 centímetros debaixo do lençol

22 de abril de 2012 às 15:00
“Não havia tempo para ter medo” Foto: Direitos reservados
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Assentei praça no dia 13 de Julho de 1971, no Regimento de Infantaria 7, em Setúbal. Por lá fiz a recruta e depois fui para a base de Santa Margarida, onde acabei por tirar a especialidade de atirador. Feita a especialidade ainda segui para a Escola de Cabo, mas foi em Santa Margarida que fiquei a saber qual seria o meu destino: tinha sido mobilizado para Moçambique. Afinal, acabei por ir parar ao Norte de Angola.

Era raro aquele que se escapava: "iam coxos, cegos, iam todos à guerra. Quando assentávamos praça, já estávamos mentalizados".

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"NÃO ESMOREÇAS, PUTO"

Fui de avião: parti à 01h37 e cheguei pelas 09h30 da manhã de 29 de Março. São pormenores que um homem não esquece.

Lavaram-me para o Grafanil, onde fiquei cinco dias, antes de embarcar num aríete para Santo António do Zaire. Continuei a subir território angolano, chegando finalmente a Cabinda. Depois, em unimog, parti para Caio Guembo, no Norte de Angola. Estávamos a 7 de Abril de 1972 e lá permaneci dois anos da minha vida. Só voltei a ver Lisboa a 25 de Julho. Eram 17h30.

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A Caio Guembo cheguei às duas da manhã e só quando nasceu o sol vi onde estava. ‘Não esmoreças, puto. Só estamos a 12 mil quilómetros de Portugal' - dizia um cartaz à entrada do aquartelamento. Era uma brincadeira - afinal, eles estavam a vir embora e nós a chegar. Caio Guembo tinha um clima muito ruim. Ora chovia e fazia muito calor, ora se entrava na época do cacimbo e as noites ficavam geladas.

Não passei mais fome porque tive muita sorte: a minha mãe mandava, numa lata selada, chouriço alentejano, queijos bons, latas de conserva, um bocado de presunto. Era uma festa quando chegava. Como havia quatro alentejanos no batalhão, a quem as famílias mimavam, havia sempre alguém com qualquer coisa.

MORTOS E FERIDOS

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Durante todo este tempo, vi muitos caírem mortos e feridos. O episódio que mais me marcou foi a visão de um camarada deitado numa prancha. Estava todo nu, depois de ter sofrido uma grande emboscada que vitimou fatalmente quatros homens do meu batalhão.

No que toca a más recordações não foi a única. Lamento muito outro episódio, a 8 de Agosto de 1972: estava a fazer prontidão a um Pelotão de Engenharia de Chimbete quando houve uma emboscada a uma coluna no Sanga Mongo. O jipe em que seguiam ficou irreconhecível. Morreu um capitão, um alferes, um furriel e ainda um condutor, mas nunca esquecerei que os restos mortais daqueles quatro homens embrulhados em lençóis não tinham mais do que uns oitenta centímetros.

Mas não havia tempo para ter medo. Também andávamos drogados... todos os dias tomávamos comprimidos (para o paludismo, para as febres, etc.), o que com o vinho e a cerveja que bebíamos, e o facto de estarmos sempre ocupados, sem folgas, fazia com que não se pensasse em mais nada .

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Felizmente nunca fui ferido. Só tive um pequeno acidente num unimog, que tombou numa picada. A única sequela que tenho é num joelho: ao saltar de um helicóptero, dei uma coronhada no joelho com o canhão da arma. Ainda hoje dá sinal de si quando o tempo muda.

PERFIL

Nome: Carlos Godinho

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Comissão: Angola (1972-1974)

Força: Batalhão de Cavalaria 3871

Actualidade: Professor aposentado. 62 anos. Casado

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