Filhos em anos bissextos
O calendário só regista o dia do aniversário deles a cada quatro anos. Em 2016, estão de parabéns amanhã.
António Maria apressou-se a marcar a viagem de avião que este fim de semana o trouxe de regresso a casa, em Leiria, e há muito que já enviou os 110 convites para a sua festa de aniversário. Não sabe quanto vai pesar o bolo – já que deixou esses "detalhes técnicos" ao cuidado da pastelaria, mas obviamente que vai chegar e sobrar para toda a gente. Tem razões de sobra para celebrar o 64º aniversário: afinal, só acontece de quatro em quatro anos. É que António é um dos 7431 portugueses que nasceram a 29 de fevereiro, e que representam efetivamente uma minúscula fatia de 10 milhões que vieram ao Mundo no resto do calendário e que nunca souberam o que é "nascer especial".
"Sempre vi a minha data de nascimento como
um sinal de sorte. Sempre ouvi dizer que os anos bissextos estão ligados a calamidades, mas a mim a vida correu-me bem e sinto-me um privilegiado", confessa. Por isso, sempre que o movimento de translação da terra em volta do Sol brinda o calendário com mais um dia, António Maria Pereira comemora com festa digna de um casamento. "Junto os amigos, os familiares e então, se é para celebrar, que seja à séria. Desde miúdo que acho imensa piada a fazer anos neste dia e, se calhar por isso, como não o tenho tão garantido como os outros, acho que tenho mesmo o dever de comemorar", confessa.
Quando nasceu, o pai ainda pensou registá-lo noutro dia, mas à última hora manteve a data, para seu contentamento. E quando não há 29 não comemora, embora não possa obviamente impedir os muitos amigos e familiares de lhe darem os parabéns: "Mas tem de ser mesmo à meia-noite, entre os dias 28 e 1 de março", explica o empresário.
A cada quatro anos
Os anos bissextos corrigem a diferença entre o calendário convencional Gregoriano de 365 dias e o tempo que a Terra demora a dar a volta ao Sol: 365 dias e 6 horas. Por isso, de quatro em quatro anos, as seis horas extra de cada ano compõem mais um dia que é adicionado ao final de fevereiro.
Foi isto que Paula Bragança aprendeu de cor e salteado desde menina. Amanhã vai fazer 60 anos. Mas não parece. "E quando me dizem isso, aproveito para brincar com a data de nascimento: ‘não parece porque na verdade tenho 15! Só faço anos de quatro em quatro anos!’" Foi sempre com este bom humor que encarou a sua data de nascimento. "Nasci em Moçambique e lá até quiseram convencer os meus pais a registar-me noutro dia, mas ainda bem que eles não o fizeram. Adoro fazer anos neste dia. Até porque passo dois dias a comemorar: quando não há 29 no calendário, tanto recebo resmas de chamadas a 28 como a 1 de março!". Este ano, que por acaso o último dia de fevereiro até tem direito a uma página do calendário, vai comemorar à grande, com uma viagem a Londres. O filho está por lá a trabalhar e os dois já têm lugar marcado para passar a noite no West End a aplaudir ‘O Fantasma da Ópera’.
Na infância, quando o 29 se imiscuía do mês de fevereiro, a mãe fazia também uma festa mas sempre no dia 1 de março, porque achava, como a maioria dos comuns mortais, que comemorar o aniversário antes da data de nascimento dava azar. "Mas assim que fiz 18 anos, aboli esse hábito porque prefiro comemorar a 28. Fevereiro é o meu mês e por isso não acho que faça grande sentido comemorar em março!".
E "até pode não ser nada de especial", como pensa Luísa Azevedo, que também amanhã faz 37 anos. Mas mesmo assim a peculiar data já a brindou com reações engraçadas: "há pessoas que nem acreditam e até insistem que não é verdade, como se não fosse natural nascerem bebés nesse dia! Só se convencem quando lhes mostro o cartão de cidadão". A administrativa nunca deu grande importância aos aniversários e só há pouco tempo se juntou na internet a outros ‘bissextos’. "Foi engraçado conhecer outros nascidos a 29 de fevereiro como eu, porque durante toda a minha vida fui a única".
Sempre nos bissextos
Para Marta Ramalho Moutinho, os anos bissextos, como aquele em que nasceu, fazem jus à fama de trazer ventos de mudança. "Conheci o meu marido num ano bissexto, casei noutro ano bissexto e neste vou ser mãe pela primeira vez, mais uma mudança positiva". Quanto aos três anos que ficam pelo meio, Marta arranja-lhes facilmente função: "se os bissextos são de mudança, os outros são de construção. Sou otimista e construtiva por natureza, portanto acho que tudo acontece por uma boa razão, até as coisas más: servem para aprendermos". Por isso, o próximo aniversário, aquele em que soprará 36 velas grávida de cinco meses, tem mais significado, embora na realidade tenha sido sempre assim. "Sempre encarei que ter nascido neste dia era ser especial. E só guardo boas memórias: quando não havia 29 no calendário comemorava a 1 de março, quando havia a minha mãe fazia sempre uma festa de arromba", explica.
Só nunca conheceu muitos bebés bissextos como ela e talvez por isso há quatro anos resolveu formar um grupo no Facebook – ‘Nascidos a 29 de Fevereiro’ – para reunir os da sua colheita. "A ideia era podermos conhecer-nos melhor e, volvidos quatro anos, organizar um encontro a sério. Mas acabou por não ser possível porque apesar do grupo já ter atingido quase os 200 membros, a grande maioria são do Brasil. Acho que os bissextos portugueses, além de serem poucos, nem todos usam a internet e ainda por cima estão em pontos muito dispersos pelo País. Mas um dia havemos de conseguir", lamenta.
A mesma opinião é partilhada por Maria de Lourdes Neto que nasceu há 72 anos (faz amanhã) mas, a brincar, diz que só tem 18. E para comemorar esta singular maioridade vai juntar 18 pessoas à mesa. "Tem sido sempre assim: há quatro anos reuni 17 colegas de trabalho, há 8 juntei 16 amigos. É uma maneira simbólica de assinar esta curiosidade numérica. Ter nascido a 29 de fevereiro levou-a a pesquisar as mudanças que se foram registando no País: "Antigamente muitos pais preferiam registar as crianças nascidas a 29 nos dias 28 de fevereiro ou 1 de março. Até porque existia a ideia de que nascer a 29 dava azar". Mas Maria de Lourdes nunca foi dada a superstições e por isso até criou um outro grupo no Facebook para reunir outros como ela: Bebés Bissextos. Ainda só tem 35 membros, mas Maria de Lourdes acredita que aos poucos há de crescer e que um dia hão de se encontrar, à semelhança do que se faz lá fora.
O Club Mundial de los Bisiextos, por exemplo, reúne de quatro anos em Espanha centenas de aniversariantes para juntos apagarem as velas e o maior de todos, enquanto o Honor Society of Leap Year Day Babies, nos Estados Unidos, tem cerca de 10 mil membros e está aberto a todas as nacionalidades. Maria de Lourdes é a única portuguesa desta sociedade pouco secreta mas onde só se acede por registo oficial.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt