Nélson, Almirante Inglês
- É só por esta noite - dizia - não quero que os meus ladrões apanhem gripe. Mas quase sempre os deixava estar
O senhor B continuou a contar histórias da sua infância na aldeia
Tínhamos sorte com os vizinhos do nosso lado direito - contou o senhor B. - Em primeiro lugar, o chefe da casa, o Sr. Manuel, era polícia e portanto tínhamos mesmo ali ao lado a autoridade.
- Vê lá que eu abro a janela e chamo a polícia - fartei-me de ouvir do meu pai, depois de eu fazer qualquer patifaria. E era mesmo assim - contou o senhor B.
Mas além de ser polícia o Manuel, generoso, dava dormida a todos os ladrões e vagabundos que por ali passavam. Não era caso único ele prender um gatuno em flagrante delito e ouvir:
– Ó Sr. Manuel não faça isso, não me leve preso.
Era um dos seus inquilinos.
Tanto os levava para a cadeia, porque era extremamente escrupuloso no cumprimento das leis (se roubou, vai preso) como, noutras situações, se eles lhe tocavam à porta a dizer que não tinham onde dormir, lhes arranjava um lugar numa casinha que tinha no quintal - contou o senhor B.
- É só por esta noite – dizia. - Não quero que os meus ladrões apanhem gripe.
Mas quase sempre os deixava estar uma semana, duas, ou mais.
O Sr. Manuel e a Dona Amorzina,
a esposa, eram de facto as boas almas da nossa rua - contou o senhor B.
Uma das pessoas que eles alojaram nesse tal casebre do quintal, que dava precisamente para a janela do meu quarto, foi o Sr. Nélson, o Almirante Inglês.
O Sr. Nélson, recordo-me bem dele, era um ladrão reformado (diziam que pelo Ministério da Justiça) que bebia vinho como quem fuma cigarros; dizíamos que acendia uma garrafa com a garrafa anterior.
Quando era mais novo, o Sr. Nélson – continuou o senhor B - tinha entrado para uma quadrilha que roubava porcos. Como era muito largo e forte, tinha sido ele a ficar encarregue de levar os porcos às costas. O resto da quadrilha tratava das fechaduras e de outros obstáculos logísticos enquanto o Nélson, Almirante Inglês, carregava com os porcos. Claro que foi o primeiro da quadrilha a ser caçado - disse o senhor B.
Não sei se é verdade ou não, mas o meu pai - disse o senhor B - contava-me que quando ele foi apanhado pela polícia, com um porco pequenino a grunhir aos seus ombros, os polícias perguntaram:
– Então, a roubar porcos?
E mesmo com um pequeno leitão a grunhir ao ombro ele tentou negar.
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