No Freedom é para dançar até cair para o lado
Chegam de todo o mundo a Elvas para o Festival Freedom, para dias de música, drogas e banhos.
Na mochila transportam poucas coisas. A inevitável tenda, camisolas, peças de roupa interior, comida enlatada e muita água para combater o calor, que chega a atingir os 40 graus na Herdade do Monte da Chaminé, em Elvas. "Para curtir a música não preciso de mais. É a primeira vez que marco presença e vai correr como Deus quiser", diz António Monteiro, residente em Lisboa.
Uns vieram de bem perto até ao Freedom Festival, em Elvas. Outros, do outro lado do Mundo. Na quinta edição, que termina hoje com a ‘after party', há indianos, brasileiros, canadianos, israelitas, gregos, turcos, mas sobretudo muitos franceses e portugueses. Durante seis dias todos querem vibrar horas a fio ao som de milhares de watts debitados pela música eletrónica. Nesta "grande família", como a organização gosta de chamar aos seus clientes, há gente com profissões de topo. Não faltam juízes, advogados, médicos ou professores. João Miguel, dá aulas de equitação em Setúbal. Está no festival com um casal amigo. "Isto é tranquilo. Vamos ao banho, ouvimos uma música e damos por aí umas voltas", diz o festivaleiro.
Briko e Florian Marzeliere, têm 31 anos e são irmãos gémeos. Partiram numa carrinha de Nantes, França, oito dias antes do começo do festival. "Gostamos muito de música trance. Viemos devagar e fizemos cerca de 1600 quilómetros. Esperamos conhecer muita gente nova", frisou Briko, eletricista de profissão. De guitarra ao ombro e sentado no alcatrão, a cerca de 20 quilómetros do recinto, Alex Jodas, de 22 anos e residente em Barcelona (Espanha), espera mais uma boleia para chegar ao festival. Há uma semana que o faz desde a localidade espanhola de Tarifa, onde conheceu a austríaca Francesca Menges, de 18 anos. "Falta pouco. Estou com muita vontade de conhecer o festival. Ali há boa gente e boa música", diz o estudante de Desporto. Francesca não estuda nem tem qualquer ocupação profissional. Curte a vida, sem destino, nem objetivos. "Saí de Áustria há três meses. Tenho andado pela Europa e conheci Alex há uma semana", referiu a jovem que anda de pé descalço.
12 mil a vibrar
Estes dois jovens chegaram ainda a tempo do primeiro dia, na terça-feira. Foram à boleia com um condutor alentejano, morador em Vila Fernando, a aldeia mais próxima do festival. Mas já não viram a longa fila de mais de cinco mil pessoas, que durante vários dias aguardaram pacientemente pela abertura das portas. "Estou aqui há dois dias. Isto é tudo muito tranquilo", comentou Ruben Dias, residente em Setúbal e desempregado.
Sem corridas, as primeiras horas foram dedicadas à montagem das tendas. Cada um escolheu a melhor sombra debaixo do sobreiro e de preferência junto a um dos muito pontos de água. "Vim da serra de Madrid, da localidade de Valdemanco. Estou com o meu filho Pepe e com um amigo. A diversão está garantida", referiu Juan Torres, de 36 anos, um dos milhões de espanhóis que procuram emprego. Já com a tenda de pé, Juan foi depois tomar um banho na barragem da herdade e reconhecer todos os espaços do recinto, dividido em quatro zonas distintas: o palco principal ‘main-flor', o palco alternativo, a zona de ‘chillout' onde os apreciadores escutam ‘um som' para ‘relaxar', e a zona comercial'. Foi num destes locais, num bar do Freedom, que encontrámos, Miguel Jarego, 32 anos, presença assídua neste evento. Atualmente desempregado, Miguel viajou até ao festival com a namorada. "Vim a todos. Está cada vez melhor. Há mais chuveiros e mais casas de banho. Aqui não há problemas, estamos todos pelo convívio e para ouvir boa música", disse o festivaleiro, na altura rodeado de amigos. No Freedom também não faltam restaurantes e lojas. Há pizas para todos os gostos, bebidas energéticas, chás, tabaco, bebidas espirituosas e roupa. "Sou do Porto e estou a vender roupa que fiz este ano, mas também vendo chás e outros artigos. O negócio não é mau", salienta Mariana Cortesão, que elogia a organização, a cargo da empresa Cristal Matrix.
Na herdade tudo está pensado ao pormenor para receber milhares de pessoas durante seis dias. A logística é gigantesca com mais de 60 pessoas no terreno, que asseguram diariamente a segurança, a informação e os cuidados de saúde. "Temos um hospital de campanha dos Bombeiros de Elvas. Pela primeira vez, temos também uma equipa médica, da qual faz parte a diretora do Centro de Saúde de Elvas. Com esta equipa pretendemos resolver a maioria dos problemas dentro do próprio recinto e não subcarregar o hospital de Elvas", referiu Marta Cóias, da organização. Até hoje o objetivo era receber nesta edição mais de 12 mil pessoas. Um número previsível devido à enorme procura de bilhetes. Via on-line custava 65 euros. À porta do recinto 115 euros. No fim de semana o preço é de 80 euros. "O público do festival é cada vez mais heterogéneo. Muitos deixam a farda de lado, vestem uma roupa badalhoca e andam aqui estes seis dias sem se preocuparem", acrescentou a Marta Cóias, também professora de ioga.
Excesso de narcóticos
Com tudo a postos, os primeiros DJ subiram ao palco às 20h00 de quarta-feira. A mancha humana do Freedom rapidamente se apoderou do ‘main-flor'. Não faltava gente tatuada, com rastas e piercings em todo o corpo. Carlos exibe o seu com orgulho numa das orelhas. Não o pode fazer durante o trabalho, onde é obrigatório o fato de segunda a sexta-feira. "Aqui respira-se liberdade e natureza. Ninguém é julgado pelo visual", refere este jovem, que preferiu manter o anonimato.
Entre a multidão não há preconceitos nem pudor. Apenas paz, amor e muita paixão pela música psicadélica. Cada um segue a sua vida e fá-lo como bem entende. Toma-se banho nu na barragem do recinto. Dorme-se ao relento e dança-se até cair para o lado . Todos os dias, das 22h00 às 18h00, o trance invade o recinto. Em seis dias passam pelos palcos mais de 100 DJ. "Paramos quatro horas por dia porque senão o pessoal não deixa de dançar", refere Marta Cóias, que destaca ainda do programa as sessões de cinema e as inúmeras atividades e os workshops de ioga, capoeira e até de danças africanas.
Neste festival o consumo de álcool e drogas, sobretudo de canábis, LSD e cogumelos (alucinogénicos) são inevitáveis. O excessos tentam ser controlados pelos seguranças privados e pela organização, que tem visto este festival, de caráter bienal, a crescer em qualidade musical e das próprias estruturas. Quanto ao público os números são irregulares. Em 2005, ano de estreia, passaram pela herdade 10 mil pessoas. Em 2007 cerca de 13 mil, mas na última edição, em 2011, baixou para oito mil. A morte de uma jovem israelita, em 2007, e de uma finlandesa, em 2009, ambas por overdose, manchou a imagem do Freedom. "Cada um é responsável pelos atos que comete. Mas acreditamos que tudo corre bem", frisou aquela responsável da organização. Na última edição, em 2011, não se registaram situações graves no Freedom.
Locais agradecem
O recinto do festival está situado a cinco quilómetros da aldeia de Vila Fernando e a mais de 10 da cidade de Elvas. Durante o dia são muitos os festivaleiros que percorrem a pé estas distâncias para irem às compras, sobretudo de mantimentos. Nesta última semana, as registadoras dos comerciantes locais recebem um extra de milhares de euros. Para todos vem mesmo a calhar neste tempo de
crise. Nos supermercados os stocks de bebidas alcoólicas, enlatados, massas e pão estão quase sempre esgotados. A hotelaria regista também uma boa ocupação. "Muito público prefere ficar em pensões ou residenciais em vez de ficar acampado", sublinha Marta Cóias.
Mas é nos cafés que se sente a maior afluência. Durante o dia há muitos períodos onde não há mãos a medir. "Entro às 06h00 e saio sempre depois da meia-
-noite. Nesta altura o negócio mexe mais um bocado. É muito animador", frisa Ludgero Pisco, proprietário do bar alentejano, localizado junto a uma das entradas da aldeia de Vila Fernando. Segundo o comerciante, os festivaleiros procuram cerveja, gelo e águas. "Também sirvo baguetes, sandes, bifanas e cafés", acrescenta.
Se nas primeiras edições os locais davam pouca confiança aos festivaleiros, hoje já se misturam com eles no dia a dia. "Alguns têm mau aspeto, mas é gente educada. As aparências iludem. Nunca houve aqui problemas", diz um comerciante.
O que por vezes incomoda a população é o som da música eletrónica durante a madrugada. A potência do sistema de som, que debita 35 mil watts, atravessa, por vezes, os cinco quilómetros que separa o recinto e as casas da aldeia. "Quando o vento sopra do lado da herdade ouvimos aquele batuque. Mas já não ligamos. São só estes dias", conta um antigo guarda do Centro Educativo de Vila Fernando, instituição que fechou portas em 2007. Em agosto de 2015, o Freedom deverá regressar à Herdade do Monte da Chaminé. lD
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