Noivos à prova
Pelo terceiro ano consecutivo, os fatos dos Noivos de Santo António estão a ser produzidos pelo Grupo Regojo. Todos cinzentos, modelo e corte igual, para evitar confusões.
De fato e gravata, o gestor de produto Jorge Pacheco percorre o labiríntico edifício que alberga uma das fábricas do Grupo Regojo. Passa pelas várias áreas, desde a zona de corte de tecidos com molde até à engomadeira, para ver como flui a produção. “Temos 150 modelos diferentes de camisas só desta marca para entregar até Setembro.” Não é brincadeira. E nem mesmo o intenso calor que se faz sentir reduz o ritmo de trabalho das operárias que de corpos apenas envolvidos em batas azuis manejam com à-vontade as várias máquinas. A colecção Outono-Inverno não tarda muito e terá de ser transportada dali para as diversas lojas, espalhadas um pouco por todo o País. Não há tempo a perder.
O dia ainda vai a meio mas Jorge Pacheco – responsável pelo sector de vendas da empresa – já cumpriu uma grande parte dos mil e um compromissos que tem agendados. Entre eles uma tarefa que, ao contrário do que se poderia pensar, é (cada vez mais) difícil: fazer as provas de fato dos Noivos de Santo António. Pelo terceiro ano consecutivo o Grupo Regojo está incumbido de vestir os 16 homens que se vão unir às respectivas namoradas sob a bênção do santo casamenteiro. Para a empresa de confecções esta parceria é sempre um prazer, mas também uma grande dor de cabeça.
Já lá vai o tempo em que apenas as mulheres queriam estar perfeitas no dia do seu casamento, os homens estão cada vez mais exigentes e preocupados com a sua imagem para aquele que será o primeiro dia do resto das suas vidas. “Já passámos por algumas situações curiosas como a de um noivo que fazia questão de levar um alfinete de gravata”, revela Jorge Pacheco. Conclusão: “Tivemos de convencê-lo que não ia ficar bem, até porque ia destoar dos outros. Deu alguma luta”, brinca.
Foi precisamente para evitar situações como esta que este ano o Grupo Regojo decidiu aceitar novamente a solicitação da Câmara Municipal de Lisboa, mas com uma condição: os homens irem vestidos de igual. Assim será. “Os fatos são todos Pierre Cardin. Escolhemos a cor cinzenta. Isto porque o branco e o preto são cores proibidas. O bege também tenho dúvidas que funcionasse. Sobrava-nos o azul e o cinzento. Como o azul fica sempre muito brilhante, decidimo-nos pelo cinzento. No fundo, foi por exclusão de partes”, revela. No próximo dia 12, só vai ser possível distinguir os noivos uns dos outros pelas camisas. “Temos algumas com fantasias e outras lisas, todas diferentes”. E apesar do dia ser deles, estes homens não tiveram voto na matéria na escolha das peças. “Se eles tivessem acesso a isso estaríamos a arranjar outro problema. Ia dar uma confusão maior do que aquela que foi.” É que mesmo com todas estas limitações não se pense que a confecção dos fatos e camisas foi uma tarefa fácil. Culpa da inexperiência, dos noivos está claro.
VESTIR A RIGOR
Desde o primeiro contacto entre a empresa de têxteis e os noivos até à data já se passou cerca de um mês. “E mesmo assim julgo que precisávamos de mais tempo”, atira Jorge Pacheco. O ajuste dos fatos é sempre complicado. Mas este ano o corte e a costura do traje dos homens já bateu todos os recordes. “Há fatos em que já tivemos de mexer três vezes”, conta. Parece que os noivos foram escolhidos a dedo. A maioria está pouco habituado a cerimónias e para muitos esta é a primeira participação numa festa que exige traje a rigor. “Este facto fez com que não soubessem dar-nos os seus números com exactidão. Quase todos só sabiam dizer que usavam o L ou o XL, isso complicou muito o nosso trabalho.” E nem mesmo os esforços que os noivos fizeram no sentido de ajudar nessa função foram bem sucedidos. “Uns foram experimentar roupa dos pais para tentar descobrir qual o seu número, outros entregaram as medidas tiradas com fita métrica pelas namoradas”. Ficou a intenção.
Agora que já se faz a contagem decrescente para o dia do casamento, aproveitam-se as últimas horas para dar os retoques finais nas vestes. Alteram-se apenas pequenos pormenores. pequenos mas, que fazem toda a diferença. Pelo menos para quem tem olho clínico nesta matéria. “O ano passado alguns noivos não estavam bem para a fotografia, isto é, em jornais e na televisão reparámos que alguns detalhes não estavam a cem por cento, como colarinhos que não ficavam junto ao pescoço, ombros dos casacos que deviam ter sido mais encurtados.” E para quem se rege pelo perfeccionismo. “Estamos aqui para satisfazer os clientes e por isso queremos que tudo corra pelo melhor. Não estamos preocupados com outra questão senão essa. Até porque faríamos isto independentemente do custo, aqui não estão em causa valores. O fundamental desta acção é a costela de solidariedade que o grupo tem.” Uma costela que já tomou proporções que merecem ser faladas.
TRADIÇÃO FAMILIAR
O Grupo Regojo tem cerca de 70 anos. A empresa deu os primeiros passos em Portugal, pela mão de um casal de galegos, Jaime e Teresa Regojo, que após a guerra civil espanhola se viu obrigado a procurar um porto seguro. Em Portugal, mais do que um abrigo, a família encontrou um negócio para a vida no mundo dos têxteis.
Jaime tratava dos assuntos profissionais, enquanto Teresa ocupava o tempo com a educação dos nove filhos. A vida sorriu-lhes até ao dia em que uma fatalidade se abateu sobre a família. Jaime Regojo era atropelado, não resistindo aos ferimentos. Estávamos em 1977.
Desde aí, Teresa Regojo teve que se dividir entre as funções de mãe e as de mulher de negócios. Só com muito empenho, dedicação e alguns sacrifícios foi possível manter a empresa de portas abertas, a crescer a cada dia. Hoje, o Grupo Regojo representa marcas bem conhecidas de todos: Dali, elena miro, Massimo Dutti, Mango, Peter Hadley, pierre cardin, Wesley e WSL by Wesley. Para além de Teresa Regojo, presidente, fazem parte do conselho de administração do grupo cinco dos nove filhos. “Isto é uma gestão familiar. É gente muito empreendedora, que agarrou as malas e fez-se à vida. Acredito que hoje se possam orgulhar de ser um dos maiores, senão o maior, grupos de confecção em Portugal”, diz Jorge Pacheco. Há dois anos a empresa alargou o negócio ao mercado espanhol.
Paralelamente a esta ocupação, em 2003 Teresa Regojo inaugurou a Fundação Teresa Regojo para o Desenvolvimento, uma instituição de direito privado de solidariedade e interesse social que tem por fim promover o desenvolvimento integrado dos povos, pessoas e classes desprotegidas nas áreas da saúde, educação, socio económico e cultural. É aqui que entra a costela solidária desta família que não mede esforços quando toca a dar a mão a quem precisa. A mesma costela que desde há três anos possibilitou que uma empresa de família se associasse a uma festa tradicional da cidade de Lisboa: As noivas de Santo António. “Temos muito gosto em continuar a apoiar este evento e só tenho pena que não haja noivos de Santo António por todo o Portugal”, remata Jorge Pacheco. O Grupo Regojo está disposto a ceder os fatos. Fica a sugestão.
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