O caso Joana
Revolveram a casa, a terra, um ferro-velho à procura de Joana. A menina desapareceu em Setembro, a mãe e o tio foram presos por suspeita de serem os autores do seu homicídio. Ainda hoje a pergunta continua sem resposta: onde está o corpo da criança?
Quatro meses após o desaparecimento da criança da Figueira, continua sem se saber onde está o corpo, qual a arma do crime e por que razão terá sido assassinada. Respostas que a Polícia Judiciária tarda em responder e o motivo é simples: algo falhou nas investigações.
Desde cedo se percebeu que não seria fácil encontrar o rasto da pequena Joana, perdido no largo da Igreja, ao cair da noite do dia 12 de Setembro. Tinha ido comprar duas latas de conserva e um pacote de leite à mercearia da aldeia.
As autoridades, numa primeira fase a GNR, só avançaram para o terreno três dias depois – quando o ‘Correio da Manhã’ trouxe o caso ao grande público. Três dias é muito tempo. Demasiado tempo.
Com a entrada da Polícia Judiciária em campo, cinco dias depois, as investigações ganharam outro ritmo, alargando-se a todos os campos, abrangendo todas as hipóteses: da venda ao rapto, da morte ao homicídio. Eliminando aqui, vasculhando acolá, o trabalho desenvolvido pelos inspectores da Judiciária acabou por dar frutos, a 22 de Setembro. A mãe e o tio de Joana foram detidos, por suspeita da prática do crime de homicídio qualificado.
Um crime bárbaro. A menina pagou com a vida o facto de se ter recusado, entregar o troco de umas compras que tinha efectuado na mercearia da aldeia. Meia dúzia de euros.
Tudo indicava que faltava, apenas, colocar a última peça do puzzle para concluir o caso. Encontrar o corpo de Joana. Uma questão de tempo.
O que ninguém esperaria é que, presentes ao juiz do Tribunal de Portimão, Leonor e João conhecessem sortes diferentes. À mãe foi-lhe decretada prisão preventiva, mas o tio foi mandado em liberdade.
Ora, como é possível que a PJ tenha encontrado provas que o incriminavam como o autor de um crime horrendo e o tribunal o obrigasse ao mero formalismo de apresentações periódicas na esquadra?!
É certo que, dois dias depois, perante novas provas recolhidas pelos agentes, João Cipriano viu a sua medida de coacção agravada – prisão preventiva. Ficou, contudo, a dúvida sobre a eficácia da investigação que estava a ser levada a cabo.
A Polícia Judiciária conhece, melhor que ninguém, o seu trabalho, mas o que se passou a seguir adensou as dúvidas. Em certos momentos deu até a ideia de algum desnorte. É difícil compreender, por exemplo, por que razão não foi selado o local onde ocorreu o alegado crime. A própria intervenção na sucata do padrasto, para onde o corpo poderá ter sido levado, parece algo tardia. Mas o que fica na retina do cidadão anónimo são as semanas consecutivas de buscas por toda a aldeia de Figueira, primeiro, e noutras zonas do Algarve, depois, boa parte delas na companhia de um dos suspeitos, sem resultados práticos, transmitindo uma noção de incapacidade que não faz parte do dicionário da Judiciária.
Como se não bastasse, o desesperante silêncio das autoridades permitiu todo o tipo de especulações: desde a menina ter sido assassinada por ter visto o que não devia (a mãe e o tio em práticas sexuais), até ao cenário macabro do seu esquartejamento e entrega aos animais. Arrepiante, sem dúvida, se verdadeiro.
A Figueira regressou, entretanto, à tranquilidade que sempre conheceu. Os holofotes apagaram-se, o olhar indiscreto das câmaras percorre agora outros cenários, outros dramas, outras vidas. O destino da menina desapareceu das televisões, das rádios, dos jornais. As buscas continuam.
Provavelmente, Joana foi assassinada a 12 de Setembro de 2004.
Provavelmente, a mãe e o tio não têm as mãos limpas.
Provavelmente, a Polícia Judiciária reuniu – ou acabará por reunir – as provas necessárias para os incriminar.
Provavelmente, vão negar tudo.
Provavelmente, serão condenados, mesmo que o corpo da criança não apareça.
Provavelmente…
Mas as respostas que todos esperam não podem deixar de ser dadas: onde está o corpo da Joana? Porque razão foi assassinada?
A SUBIR:
Numa guerra que começou debaixo de críticas e que se arrasta sem fim à vista, o papel dos militares da GNR em missão no Iraque é um sinal positivo nas operações de policiamento e no contacto com as populações.
Novo Código da Estrada
O documento foi aprovado pelo governo, já no final do ano, e prevê graves punições. Mas os condutores portugueses já mostraram, ao longo de muitos anos, que só sabem conviver na estrada com leis severas. A ingestão de álcool, o excesso de velocidade e as manobras perigosas são apenas algumas das alíneas em que as multas serão mais pesadas para os prevaricadores.
A DESCER:
O ano de 2004 fica marcado pelo final do julgamento dos militares da BT de Albufeira. Os condenados são o rosto de um fenómeno que teima em não desaparecer e que, aos poucos, ajuda a corroer a autoridade do Estado. Mais do que em qualquer outra actividade, nas forças e serviços de segurança, é importante honrar a farda.
O fenómeno parece estar definitivamente instalado em Portugal. Todos os dias há notícias de condutores que são abordados em semáforos ou passadeiras e, sob ameaça de armas, obrigados a entregar as viaturas. Um crime comum em países sul-americanos ou africanos, é cada vez mais frequente em Portugal.
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