O ‘Chacal’ não está morto

Já condenado a prisão perpétua, aquele que foi o terrorista mais procurado volta a tribunal

13 de novembro de 2011 às 00:00
O ‘Chacal’ não está morto Foto: Thierry Chiarello, Reuters
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Ilich Ramírez Sánchez é um nome que diz pouco sobre o homem que, até 16 de Dezembro, se senta no banco dos réus em França, num dos julgamentos mais mediáticos do ano. Daí que a verdadeira identidade daquele que já foi o mais procurado do Mundo tenha sido superada pela personagem que construiu para si mesmo: "um terrorista de profissão".

Foi com esta afirmação que ‘Carlos, o Chacal’ – alcunha dada pela imprensa após ter sido encontrado num dos seus esconderijos o livro ‘O Dia do Chacal’, de Frederick Forsyth – se apresentou ao juiz Olivier Leurent, que o pode condenar a uma segunda sentença de prisão perpétua. Desta vez é acusado de quatro ataques terroristas em França que, em 1982 e 1983, mataram 11 pessoas e feriram mais de 150.

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As explosões ocorreram no comboio Capitolle Paris–Toulouse, na sede de um jornal libanês na capital francesa, numa estação de Marselha e no TGV, comboio onde se pensava viajar o então presidente francês Jacques Chirac. Mas o autodenominado "revolucionário internacional" de 62 anos já cumpre pena de prisão perpétua pelo assassínio, em 1975, em Paris, de dois polícias franceses e um informador palestiniano, quando actuava para a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP).

INIMIGO PÚBLICO Nº 1

Representante da última vaga de revolucionários de extrema-esquerda e da causa palestiniana que marcou os anos 70/80 do séc. XX, ‘Carlos, o Chacal’ foi durante anos o ‘inimigo público número 1’. Mestre em disfarces, usou 52 nomes diferentes, arquitectou atentados, fez reféns e matou duas mil pessoas nas suas próprias contas. Alimentava o mistério o facto de poucos conhecerem o seu rosto e de ser descrito como um megalómano que actuava sozinho. Na verdade, tinha ligações aos grupos extremistas da Alemanha e Itália, apreciava lenços de seda, charutos cubanos, álcool e mulheres (vivia com a fotógrafa e terrorista alemã Magdalena Kopp, de quem teve uma filha) e matava por dinheiro.

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No início do julgamento que está a decorrer, apesar de grisalho e barrigudo, voltou a defender o culto comunista. Comparou-se ao líder cubano Fidel Castro, que "matou mais pessoas", e criticou o presidente venezuelano Hugo Chávez por "falta de apoio", mas a quem prometeu "ajudar a vigiar com armas. O terrorismo existirá enquanto os imperialistas tiverem primazia mundial. Sou inimigo de terroristas como os Estados Unidos e Israel", afirmou, a partir da zona de vidro blindado onde foi colocado.

HERANÇA COMUNISTA

Nascido na Venezuela em 1949, filho de um advogado comunista que deu aos três filhos os nomes Vladimir, Ilich e Lenine, numa homenagem ao líder da revolução russa, Lenine (de verdadeiro nome Vladimir Ilyich Ulyanov), chegou à Europa com 17 anos, após o divórcio dos pais. O destino era estudar em Londres, mas Ilich optou pela universidade em Moscovo, de onde foi expulso em 1970 por traficar cigarros americanos. Com 24 anos, aderiu à FPLP, recebeu treino militar e o nome de código ‘Carlos’.

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Empenhado na profissão que escolheu, teve como primeira missão assassinar J. Sieff, presidente da Marks & Spencer e vice-presidente da Federação Judaica do Reino Unido. Sieff ficou apenas gravemente ferido, mas Carlos ganha prestígio na organização, que lhe entrega mais acções em Londres e Paris.

É em finais de 1975 que se torna famoso ao liderar um dos actos terroristas que marcou a década: sequestra 62 pessoas, entre as quais 11 ministros de países-membros da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), reunidos em Viena. Na posse de reféns valiosos, negoceia um avião para deixar a capital austríaca rumo a Argel, onde liberta os reféns e recebe asilo do governo local.

A espectacular fuga de ‘Carlos’ adensou a sua fama de intocável mas deixou marcas: afastado da FPLP por ter aceite o pagamento do resgate pelos reféns da OPEP, rodeia-se de um grupo próprio e pratica novos atentados em prol do que diz ser "causas anti-imperialistas".

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Até meados de 90 era procurado pelas principais polícias secretas: CIA (dos EUA), Mossad (Israel) e DST (França). No entanto, o fim da Guerra Fria e dos governos que servia fizeram esquecer os seus préstimos. Com a saúde debilitada, exilou-se no Sudão. Em 1994, internado numa clínica em Cartum para uma operação aos testículos, o mestre dos disfarces foi adormecido com anestesia geral, conduzido ao aeroporto e enviado para uma cadeia de alta segurança nos arredores de Paris. Em Dezembro de 1997 é condenado a prisão perpétua.

"POUCAS MORTES"

Sentado de novo no banco dos réus, ‘Carlos, o Chacal’ partilha a acusação com três membros do seu antigo grupo, que estão a ser julgados à revelia: os alemães Johannes Weinrich e Christa Frohlich (detidos que a Alemanha recusa extraditar) e o palestiniano Ali Kamal Al Issawi, foragido. Ainda assim, o terrorista acredita que pode vir a ser libertado.

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A defesa – a cargo da actual mulher, Isabelle Coutant-Peyre (com quem casou há uma década, já na prisão) e Francis Vuillemin – reclama que o julgamento "é um acto político", tal como os poucos admiradores que se manifestam junto ao tribunal.

O próprio Ilich, em entrevista a um jornal venezuelano, reivindica a autoria de mais de cem ataques terroristas, mas contesta os quatro que lhe são imputados pela justiça francesa. "A condenação não quer dizer nada. É um problema político. Fiz poucas vítimas inocentes: apenas 10% do total de mortes. 10% não é nada".

CRONOLOGIA

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1949

- Nasce Ilich Ramírez Sánchez, Caracas (Venezuela)

1970

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- Expulso da Universidade de Moscovo, adere à Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP)

1973

- Atinge, com um tiro na cabeça, Joseph Sieff, vice-presidente da Federação Judaica do Reino Unido e Irlanda

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1974

- São-lhe atribuídos vários atentados: granada contra o banco israelita Hapoalim, em Londres; explosões nas publicações L'Arche, Minute, L'Aurore e La Maison de la Radio em Paris (sem vítimas); duas granadas contra uma loja em Paris (dois mortos e 34 feridos)

1975

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- Lidera dois ataques contra aviões israelitas no aeroporto de Orly, Paris (sem vítimas);

- Em Paris, escapa à polícia após matar três pessoas (dois polícias franceses e um informador palestiniano).

- Assalto a uma reunião da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), em Viena (sequestro de 62 pessoas, entre as quais 11 ministros; 3 mortes)

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1982

- É-lhe atribuído o ataque contra a rádio Free Europe de Munique (8 feridos)

- Atentado à bomba no comboio Capitolle que ligava Paris-Toulouse (5 mortos, 77 feridos) n Explosão de carro--bomba em Paris, junto à sede do jornal Al-Watan al Arabi (um morto e 63 feridos)

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1983

- Atentado à bomba no TGV Paris-Marselha (três mortos e 11 feridos) e explosão na estação de Marselha (dois mortos e 40 feridos)

1994

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- Detido no Sudão, após operação os testículos, é enviado para França

1997

- Acusado da morte de três pessoas é condenado a prisão perpétua

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2003

- Na prisão, publica o livro ‘Islão Revolucionário’ e apoia Osama bin Laden e Saddam Hussein

2011

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- Volta a julgamento pelos atentados de 82 e 83 em França

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